nov 12

Claudia Bozzo
O diretor, roteirista e produtor finlandês Aki Kaurismaki fez uma promessa há alguns anos. Disse que depois do 20º longa metragem iria se retirar do cinema. Então, é bom torcer para que seja apenas uma de suas “boutades” e não perder “O Outro Lado da Esperança”, pois a conta de suas obras – seja de longas ou curtas ou participação em filmes de vários diretores – vai longe no IMDB (Internet Movie DataBase, o mapa da mina para quem quer lembrar qual é o ator de um filme, o diretor de arte, ou roteirista ou até mesmo quem é a esposa de fulano…).

“O Outro Lado” sintetiza toda a sensibilidade que fez de Kaurismaki um dos mais respeitados cineastas da atualidade. Conta a história do refugiado sírio Khaled (Sherwan Haji), que acaba indo para a Finlândia, vindo da Turquia e passando por vários países. Assim que chega, sua primeira providência é pedir asilo e para isso vai a uma delegacia de polícia, percorrendo toda burocracia enfrentada pelos refugiados, numa Europa cada vez mais preocupada com o tema da migração. Em uma hospedaria para onde é enviado, faz logo amizade com outro refugiado, o iraquiano Mazdak (Simon Hussein Al-Bazoon).

Em paralelo, o filme vai contando a história de Wikström (Sakari Kuosmanen), um vendedor de camisas que resolve largar a esposa, mais interessada na garrafa que em qualquer outra coisa e ao apostar o resultado da venda de seu estoque no pôquer, consegue o suficiente para montar um restaurante.

A direção de arte e a fotografia são no mínimo, excepcionais, criando uma atmosfera meio anos 1950, com um toque dark, numa Finlândia tão atual quanto seus carecas fascitoides que mal conseguem controlar a fúria assassina, ao cruzar com alguém como Khaled. Usam roupas pretas de couro e alguns têm a inscrição “Exército de libertação da Finlândia” desenhada nas costas das jaquetas. Outro ponto interessante é a música: o diretor inclui um grupo onde os intérpretes são todos septuagenários (mas nada no estilo saltitante de Mick Jagger), executando temas de country e blues cantados em finlandês, mostrando que a miscigenação cultural começou muito antes da pessoal.

Khaled é o protótipo do bom moço. Tudo o que quer é regularizar sua situação e encontrar a irmã Miriam, da qual se perdeu na hora de cruzar a fronteira turca. O roteiro dá a ele todo o espaço do qual precisa para contar com calma sua história e calvário, uma trajetória comum a tantos desses migrantes, pegos no meio de um conflito que se resume à ganância das grandes potências. Escancarada por alguém como Donald Trump, ao afirmar, como reproduziu o The Economist, esta semana que, “antigamente, se alguém ganhasse uma guerra, ganhava uma guerra. Mantinha o país”, acrescentando que “bombardearia essa droga” de Estado islâmico e “ficaria com o petróleo”.

Trump não estava nem nos delírios de algum comediante ou analista político, quando em 2003 e 2006, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o diretor Aki Kaurismaki simplesmente boicotou os prêmios (por “O Homem sem Passado” de 2002 e “Luzes na Escuridão” de 2006), recusando-se sequer a ir aos EUA, país envolvido em guerra no Oriente Médio. Aqui é bom lembrar que a realidade às vezes é bem mais surrealista que a ficção, como o ex-presidente Bush declarando que votou em Hillary Clinton e criticando Trump.

O finlandês, que vive em Portugal desde 1989, é famoso também pelo senso de humor, dos mais refinados, bem presente no filme, em toques certeiros e enxutos. Já declarou, em entrevista, que “gosto de cachorros. Pela humanidade não me interesso muito. Eles são honestos e não mentem”. Outra: “Acho que quanto mais pessimista eu me sinto em relação à vida, mais otimistas deveriam ser os filmes”.

“O Outro Lado da Esperança”, é um atestado da sua crença nas pessoas e de uma atualidade impressionante. Embora se desenvolvam em paralelo durante a maior parte do filme, as vidas do refugiado e do ex-vendedor cruzam por um brevíssimo instante no início do filme. E depois, Khaled acaba indo trabalhar no restaurante de Wikström, que manteve os antigos funcionários e tenta conquistar fregueses inovando em cardápios. Como a noite de comida japonesa, e a contratação de um grupo musical. É, na medida exata, um filme para quem gosta do verdadeiro cinema, sem efeitos especiais e defeitos extraordinários.

written by Leonardo Trevisan


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