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Claudia Bozzo
Há duas opções de filmes sobre mãe nas telas. Uma, insuportavelmente pretenciosa, chata e vazia é “Mãe” de Darren Aronofsky, que consegue transformar até Javier Bardén num ator menor.

A outra opção, deliciosamente inteligente e sensível, leva mãe só no título original, em francês, “Maman a Tort” (Mamãe errou) que recebeu aqui o título de “A Garota do Armário”.

O filme conta a história de Anouk, jovem de 14 anos que precisa, como todo estudante francês, fazer um estágio em uma empresa, em um determinado ponto de sua vida escolar. Filha de pais separados, ela pretendia cumprir a tarefa na emissora de TV onde o pai trabalha. Mas ele é demitido um pouco antes e ela acaba indo parar na seguradora onde sua mãe é funcionária de alto escalão.

O diretor, Marc Fitoussi, é o mesmo de “Um Amor em Paris” (2014), exibido aqui ano passado, uma história delicada sobre um casal de agricultores, os excelentes Isabelle Huppert e Jean-Pierre Darroussin.

A garota do armário é interpretada pela ruivinha Jeanne Justin, da qual é impossível gostar, logo no início, pois é o perfeito adolescente irritante. E lá vai ela sob protesto, para a grande seguradora na qual a mãe trabalha – claro, como toda empresa de grande porte o escritório fica em La Défense, o bairro mais modernoso da cidade.

A mãe, a belga Émilie Dequenne, é uma das atrizes favoritas dos irmãos Dardenne. Ela faz o que pode para ajudar a rebelde filha a se encaixar nos rituais e na estrutura da empresa, onde reina a atmosfera de tensão, puxa-tapete, fofocas e outras coisas que a esperta menina acaba descobrindo.

O filme é uma celebração da passagem de Anouk para a vida adulta, pois essa semana a faz amadurecer de forma extraordinária, ao se envolver com um dos casos que ela acaba tomando conhecimento, de uma viúva que não consegue receber o seguro pela morte do marido, devido a meandros jurídicos aos quais todos estamos sujeitos, embutidos nas letrinhas menores dos contratos que assinamos.

O diretor usa a personagem de Anouk para mostrar, a partir da visão de uma menina, como são surreais algumas das atitudes das pessoas envolvidas demais com os meandros corporativos. Quase como a personagem de “Toni Erdman”, um filme alemão, que mostra um pai preocupado com a excessiva dedicação da filha à carreira e ascensão aos estratos mais elevados. Um ambiente extremamente machista, belicoso, onde gente adulta brinca de bullying o tempo todo. Claro que existem as boas figuras. Mas estão nos andares inferiores da cadeia alimentar.

Além disso, o trabalho e o envolvimento da jovem Anouk marcam uma nova fase de relacionamento com a mãe, pelo convívio com as pessoas que a cercam e pela queda de algumas barreiras, inevitáveis. Até fisicamente foi cuidado para que Anouk mostrasse seu amadurecimento, a partir de uma nova postura corporal, nova forma de se vestir.

Um filme de muitos predicados.

written by Leonardo Trevisan


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