Leonardo Trevisan
Quando chegam os robôs quem primeiro perde o emprego? A resposta pode ser tão simples quanto errada. Nos últimos 20 anos, como mostrou The Economist (de 20/01), a parcela dos trabalhadores americanos empregados em tarefas de rotina declinou de 25,1% para 21%. Ou seja, sumiram 7 milhões de empregos.

Tarefas de rotina não são apenas ocupações que exigem menor qualificação. Rotina quer dizer repetição. O que inclui classificar sempre os mesmos objetos, redigir sempre o mesmo contrato, “ler” sempre o mesmo exame, separar sempre as mesmas folhas de salada. Ou, prestar serviço sempre do mesmo modo. Tudo isso a automação já faz.

Mas, o que acontece com os humanos quando os robôs chegam? Ao contrário da resposta simples, não é inevitável que o humano desapareça do cenário corporativo. Pesquisa de James Bessen (Boston University) revelou que, desde 1980, empregos nas ocupações que “usam computadores” cresceram mais do que as que não usam. Automação quer dizer mais produtividade e menor custo e isso pode significar mais empregos não menos. Ou, setor não automatizado, diminui. A Economist (http://www.economist.com/node/14397902) mostrou: quando o computador não é algoz do trabalho humano aparece o “ emprego híbrido”.

Este conceito demanda “nova combinação de habilidades”. Nele, o humano atua como “tutor” da máquina, acompanhando ondas tecnológicas. Produtividade cresce aqui. É esse o sentido do título do artigo da Economist: “aprendizagem por toda a vida”.

Quais são estas novas habilidades? Emprego híbrido quer dizer convivência amistosa com automação. Fato: nem empregadores descrevem, com clareza, o perfil dessas novas habilidades, base do emprego híbrido. Porém, como robôs já estão na ativa faz tempo, é possível pesquisar como o emprego híbrido se consolida.

Artigo do Financial Times (de Gillian Tett) descreveu como muitas pessoas trabalham com robôs em “novos papeis”. Neste texto, a pesquisa de Benjamnin Shestakofsky, em empresa digital de serviços domésticos, revelou que o mesmo software que automatiza cria “novos tipos de emprego”.

A complementaridade entre humanos e robôs já tem regras para diferentes setores de atividade. Estas regras geram as novas habilidades que alimentam o emprego híbrido, o que não desaparece quando o robô chega.

Como pensar carreira nessa nova realidade? A aprendizagem por toda a vida da Economist é só o começo da resposta. E ela não é fácil. Nem tranquila.

(fevereiro 2017)

Klaus Kleber
A pergunta que muita gente está se fazendo é: já é hora de comprar dólares no mercado para fazer viagem ao exterior. A cotação do dólar no mercado comercial estava em R$ 3,09 na última sexta-feira, tendo subido um pouquinho depois de seguidas quedas. Às vésperas do Carnaval, alguns acham que a cotação pode baixar a R$ 3,00 ou até abaixo disso. Evoé!

Independentemente de interesses particulares, a pergunta que se deve ser feita, em meu entender, é se sobrevalorização do real, que já se constata, é boa ou não para a economia do País e para todos os cidadãos que, querendo ou não, dependem de como ela evoluirá.

Há motivos reais para que a cotação o dólar esteja baixando. As commodities exportadas pelo Brasil, principalmente o minério de ferroe a soja, vêm obtendo altas cotações internacionais, puxadas pelas compras chinesas. Em janeiro, o País obteve um saldo comercial de US$ 2,7 bilhões, o maior resultado desde o início de 2006. E isso não ocorreu, como em meses anteriores, por decréscimo sensível das importações. Em janeiro, elas cresceram 7,3% em relação a janeiro de 2016.

As exportações também vão muito bem, obrigado, tendo avançado 20,6% na mesma comparação. Estão entrando divisas, tanto mais porque a entrada de aplicações estrangeiras no mercado brasileiro tem sido excepcional. Só de investimento estrangeiros diretos (IED) ingressaram US$ 11,53 bilhões em janeiro, surpreendendo os analistas. A explicação mais comum é que voltou a confiança no exterior quanto às perspectivas da economia brasileira.

Como se não bastasse, o Banco Central (BC) tem dado uma ajudazinha, desovando seu estoque de swaps cambiais, como as condições do mercado têm permitido. O estoque de swaps, que chegou a estar próximo a US$ 90 bilhões ao fim de 2015, estaria atualmente, segundo números não oficiais, em US$ 26,5 bilhões.

É claro que, com o câmbio mais favorável, barateiam os produtos importados de modo geral e isso contribui para a inflação continue em queda, podendo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechar o ano abaixo da meta de 4,5%.

Contudo, nunca é demais alertar que o real valorizado em relação ao dólar influi poderosamente na competitividade das vendas externas brasileiras de produtos industriais. É muito bom que o minério de ferro e a soja venham obtendo muito boas cotações no mercado, mas a recuperação da economia brasileira em 2017 depende de uma boa reação da indústria de transformação e isso dificilmente ocorrerá se a cotação do dólar continuar caindo, o que dificultará a exportação de manufaturados.

A equipe econômica sabe disso e, em face das incertezas do mercado internacional depois da posse de Donald Trump na Casa Branca, não parece que o governo está tão satisfeito assim, como alguns pensam, com a sobrevalorização do real. Qualquer palpite sobre o futuro do câmbio seria puro chute. Mas dólar a R$ 3,00 parece folia econômica.

Claudia Bozzo
Há dois bons filmes de diretores suecos nos cinemas paulistanos, “Um Homem Chamado Ove” e “Quatro Vidas de um Cachorro”, ambos emocionando muita gente e comprovando que qualidade é fundamental para a boa diversão. Na sessão em que vi o segundo, por exemplo, havia uma fila de mulheres no toilette, em busca de papel para secar as lágrimas. Não que o filme do diretor Lasse Hallström, famoso por ter feito “Chocolate” e “Minha Vida de Cachorro”, entre outros muito conhecidos, seja triste. É uma comovente história, muito bem contada, sobre um cão que reencarna várias vidas, sempre em busca de seu primeiro dono.

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O mesmo acontece com a outra obra que vem dos países nórdicos – por sorte, com frequência bem maior atualmente, tanto nos cinemas como nos canais de TV a cabo – “Um Homem Chamado Ove”, que retrata um homem de 59 anos, ranzinza até o último fio de cabelo, como muitos que todos conhecemos, tanto na vida real como no cinema, que perde o emprego onde esteve por 43 anos, ocupando a vaga que era do pai e toma decisões para o que lhe resta de vida sem a amada esposa Sonja (Ida Engvoll). Não há um estraga-prazer se dissermos que ele tenta o suicídio de várias formas, sempre sendo interrompido pelos problemas de algum vizinho, pois o próprio trailer mostra isso. O filme concorre a dois Oscar, o de melhor filme estrangeiro – categoria onde se encaixam os poucos filmes da premiação que realmente valem a pena – e de melhor maquiagem.

O roteiro, baseado em livro de grande sucesso no país, conta em flashbacks a história de Ove, intransigente defensor das normas e regras que regem o condomínio onde mora e onde “é obrigado” a conviver com pessoas e animais que despreza, como o pobre chihuahua que chama de bola de pelo e um belo gato persa, sempre por perto. Ou as pessoas que são seus vizinhos. Ninguém escapa de uma frase maldosa, de uma advertência ou cobrança.

É possível gostar de Ove pela sua primeira fala no filme: à mulher que tenta ser atendida antes dele, no supermercado, avisa: “a fila começa atrás de mim!”. Foi comprar flores, que leva ao túmulo da mulher, com a qual conversa e conta coisas de seu dia a dia, prometendo ir encontrá-la em breve. O personagem é interpretado por Rolf Lassgård, experiente ator de formação clássica, que atua tanto no teatro como em cinema e televisão. Foi, de 2002 a 2008, o policial Kurt Wallander, que o Netflix exibe com Kenneth Branagh, no mesmo papel, na televisão sueca.

Suas idiossincrasias são muito engraçadas: adora os carros da Saab, por influência do pai e chega a romper relações com um vizinho, depois de muito brigar com ele, pois prefere os automóveis da Volvo. Mas quando este compra um Mercedes, a ruptura é inevitável! Também quer ignorar os novos vizinhos, mas acaba sendo conquistado pela iraniana Parvaneh (Bahar Pars), com dois filhos e grávida de um terceiro, e por seu arroz com especiarias.

É um filme despretensioso, mas com a sensível presença do diretor Hannes Holm, autor também do roteiro, que mostra seu domínio da câmera, com longas tomadas circulares que parecem envolver os principais personagens em situações decisivas, técnica que evita o apelo ao sentimentalismo.

Klaus Kleber  
    No final da década de 1970 quando a inflação no País parecia indomável, chegou-se a afirmar na mídia que os economistas brasileiros não sabiam como fazer para baixar os índices de preços. O então ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, saiu em defesa da categoria. Os economistas sabem, sim, como reduzir a inflação, mas isso depende, fundamentalmente, do preço que a sociedade está disposta a pagar para que isso aconteça.

Agora, depois de mais de dois anos de funda recessão, com o desemprego caminhando para 13% e com o corte de gastos públicos, a sociedade pode avaliar o preço que está sendo pago. A grande questão agora é que a economia dá os primeiros sinais de reanimação, qual o papel está reservado à taxa básica de juros para que haja a retomada. 

    O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) baixou para 5,35% nos últimos 12 meses terminados em janeiro de 2017 – o que causou surpresa a muita gente – e parece quase um escândalo que a Selic se mantenha em 13% ao ano. Todos esperam que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) prossiga reduzindo juros mais aceleradamente. Há quem diga que a Selic possa baixar para um dígito ao fim de 2017, podendo  ficar em 9,75%.
 
    O senador Romero Jucá (PMDB-RR) declarou que há condições para que o Copom, em sua próxima reunião marcada para os dias 21/22 deste mês, baixe a Selic em l,0 ponto percentual. Ele ressalvou que falava como economista, embora não tenha se notabilizado nessa área, e não como senador e líder do governo. É possível que essa declaração seja interpretada como pressão pelo BC, mas, de qualquer forma, não parece inviável que o Copom vá tão longe agora. 

     Depois da reunião deste mês, o Copom tem mais seis reuniões pela frente até o fim do ano, segundo o calendário divulgado pela autoridade monetária. O colegiado pode repetir a dose da reunião de janeiro e baixar o juro básico em 0,75 ponto percentual. Mesmo assim, a tendência é que a marcha dos juros não acelere a cadência.  

   Muitos argumentos podem ser levantados para assim agir. Na visão de economistas ortodoxos, a inflação caiu não só por efeito da recessão, que tanto deprimiu o poder de compra da população, mas também pela orientação da política monetária, apesar das críticas renovadas de outros economistas. 
  
   Afinal, ninguém sabe os efeitos sobre a economia do possível agravamento da crise política com as revelações da chusma de delações de executivos da Odebrecht na Lava Jato.  O andamento das reformas também conta muito: a da Previdência certamente não andará como prevê o governo e há também a trabalhista que deve entrar logo em pauta.  
  Como se não bastasse, a imprevisibilidade da economia internacional nunca foi tão acentuada quando depois da posse de Donald Trump na presidência dos EUA. Como ficará o câmbio daqui, digamos, a duas ou três semanas? 

   Enfim, a inflação cai – o que é ótimo –, mas taxa de básica de juros de um dígito ao fim deste ano parece um sonho de uma noite de verão. 
   

Claudia Bozzo
Tem quem diga que “comédia alemã” é uma contradição em termos, o famoso oximoro. De qualquer forma, o requintado senso de humor que permeia o filme “Toni Erdman” não lhe tira a natureza de drama, que atravessa situações como conflito de gerações, globalização, ganância empresarial, o papel da mulher no mundo corporativo e as relações familiares nesse contexto.

O filme concorre ao prêmio de melhor obra estrangeira tanto no Oscar quanto no Bafta (Reino Unido) e no César (França). Entrou no circuito paulistano esta semana e promete levar grande público aos cinemas, pois recebeu destaque no noticiário, via Hollywood. Foi anunciado, há dias, que o ator Jack Nicholson fará o papel principal, na versão americana.

Essa informação levou um crítico britânico lembrar que os EUA já “estragaram” outros filmes com suas versões, entre eles o belíssimo argentino “O Segredo dos Seus Olhos” (2009), de Juan José Campanella, vencedor do Oscar no ano de seu lançamento. Especular sobre tais mudanças seria um ‘spoiler’, mas pode-se adiantar que a versão americana terá pelo menos uma hora a menos (a alemã tem 162 minutos).

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“Toni Erdman”, dirigido por Maren Ade, levou cinco anos para ser feito, pois desde seu início, a diretora foi mãe duas vezes e também porque cuidou de cada detalhe, do roteiro à escolha do elenco, direção, montagem e finalização. Compensou: em 2016 foi saudado em Cannes com um longo e demorado aplauso na apresentação à imprensa e recebeu críticas favoráveis em todo mundo. O grande número de jornalistas europeus presentes à mais importante premiação do cinema registrou que a obra é uma grande referência à globalização e ao futuro da própria Europa, ao mostrar o trabalho de uma executiva alemã na Romênia.

A executiva, Ines Conradi, é interpretada por Sandra Hüller que faz um par sensacional com Winfred Conradi, no papel do pai, um professor que gosta de se fantasiar e criar “peças” para pessoas como o carteiro ou a própria mãe, entregue ao ator austríaco Peter Simonischek. A química entre os dois atores foi elogiada pela própria diretora Maren Ade, em várias conversas com jornalistas, nas quais ressaltou que o pai, Winfried, é um tipo universal: um desiludido porém indomável idealista dos anos 1960. Quis mostrar porque ele está tão desconcertado pelo fato de sua filha ter-se tornado tão poderosa e ao mesmo tempo tão afastada de coisas que lhe deem prazer. “Você é humana?” chega a perguntar o pai à filha. “Ele sente que passou seus valores e ela foi para o mundo, usando-os em um contexto completamente diferente. Por trabalhar em um ambiente globalizado, é com dificuldade que percebe o rumo de tudo, embora esteja orgulhoso com o fato de ela ser tão obstinada”, disse Maren Ade em uma entrevista.

E de fato, Ines é a própria geração Y, com dois pés na transição para a geração milênio e a diretora diz ter-se inspirado em pesquisas sobre comportamento no mundo corporativo. Interessou-se pelo papel dos consultores, ao constatar que há empresas que costumam contratar tais profissionais para suas escolhas mais difíceis, de forma que os chefes tenham a quem culpar por decisões impopulares. Na realidade, Maren Ade fez um filme sobre como a intrincada linguagem administrativa sistematicamente aliena as pessoas de seus instintos. “É sobre a globalização e o capitalismo e o que eles fazem conosco e com nossos relacionamentos,” afirma em entrevista.

O interessante é o filme passar-se no Leste Europeu, atualmente na mira de corporações de todo o mundo. Ines é especializada em petróleo e a ida inesperada do pai, um professor de artes, a Bucareste, para visitá-la, leva os dois tanto a uma viagem pelo interior do país como a um roteiro de reatamento da relação pai e filha.

É nítida a diferença entre a Romênia real e os ambientes por onde ela circula, dos hotéis de cinco estrelas, boates, sedes de empresas e restaurantes de luxo. Isso pode ser visto quando ela acompanha a saída do pai, do terraço de seu apartamento ultramoderno: o quintal da casa ao lado mostra uma mulher e crianças em extrema pobreza. Uma visão sutil, que marca o tom do filme. O mesmo que se vê quando ela vai a uma firma a ser incorporada pelo conglomerado onde trabalha e onde as demissões serão feitas pelo grupo que integra. Ingenuamente, operários e familiares enxergam na presença dos estrangeiros grandes oportunidades e abertura de empregos.

O que a executiva mira é sua própria carreira: ter sucesso na tarefa para subir mais um degrau rumo ao fim do teto de vidro. Uma verdadeira executiva alfa.

Muito reveladora é a canção que Ines e o pai executam, ele ao piano e ela cantando: “The Greatest Love of All”, clássico de Whitney Houston, que deveria ter sido traduzida, pois fala do “maior de todos os amores”: “ele é fácil de se conquistar, quando se aprende a amar a si mesmo”, em tradução livre. É um filme de situações inesperadas, inusitadas mesmo. Nada que se possa ou deva ser dito para não estragar a surpresa. O mais importante: uma história que fica na sua cabeça e vai sendo compreendida aos poucos. Não importa se a incerteza acompanhar seus passos ao terminar a sessão. Aos poucos ouvem-se as fichas caírem e tudo passa a fazer sentido. Muito sentido, nesse belíssimo, terno, crítico e inspirado filme.

O crítico do Le Monde resumiu: “Toni Erdman” propõe “que cada um de nós tenha a liberdade de se reinventar”. Como os norte-americanos conseguirão retomar o tema? Bem, melhor nem saber. E esquecer o que eles também tentaram reproduzir com Robert de Niro em “Estão Todos Bem” (2009) a partir do maravilhoso “Estamos Todos Bem” (1990) que Marcello Mastroianni imortalizou, sob a direção de Giuseppe Tornatore. Ou o belo filme japonês “Vem Dançar Comigo”(1996), do diretor Masayuki Suo que Richard Gere tão bem arruinou ao reproduzir em 2004 a história do executivo que decidiu tomar aulas de dança.

Klaus Kleber
A fase de impulso às exportações de serviços do País junto com o crescimento das chamadas multinacionais brasileiras está sendo duramente afetada pela recessão, além dos danos à imagem no exterior das grandes empreiteiras nacionais que se expandiram no exterior e hoje estão envolvidas até o pescoço na Lava Jato. O balanço de pagamentos relativo a 2016 espelha claramente esse quadro. Nota-se, em primeiro lugar, que os investimentos diretos brasileiros no exterior em 2016 (US$ 7,748 bilhões) representam 43% a menos do total em 2015 (US$ 13,498 bilhões).

Este, porém, não é dado mais impressionante. As filiais em países estrangeiros de empresas com matrizes no Brasil fizeram empréstimos intercompanhias no total de US$ 24,136 bilhões no ano passado, 21,73% a mais que em 2015 (US$ 19,827 bilhões). Este movimento nos últimos dois anos é extraordinário. O mais comum são transferências das matrizes das multinacionais no exterior para as suas filiais no Brasil, que também foram substanciais em 2016 (US$ 22,122 bilhões).

Buscar recursos lá fora é normal em face do alto custo do dinheiro aqui, principalmente por parte das transnacionais brasileiras cujas matrizes têm sido muito abaladas pela queda geral da demanda. Vale notar que, pela metodologia do BC, as transferências de filiais no exterior para matrizes aqui — os chamados investimentos reversos — são contabilizados na conta de investimentos diretos no País.

Verifica-se, assim, que dos US$ 78,929 bilhões de investimentos diretos vindos do exterior em 2016, 30,58% vieram de empresas brasileiras com braços em países estrangeiros. Descontados esses investimentos reversos, o total de investimentos diretos no País cai para US$ 54,793 bilhões, um total relativamente baixo.

É fácil concluir daí que vem caindo a confiança dos investidores estrangeiros na economia brasileira, bem como o interesse das grandes múltis ou outras empresas do exterior na aquisição de parte das ações de companhias brasileiras ou de seu controle acionário. Essa situação, evidentemente, pode mudar e o governo conta, para isso, com as privatizações ou concessões, prometidas pelo Programa de Parceria de Investimentos (PPI), que está demorado a deslanchar.

Também devem ajudar, na ótica do governo, as reformas ainda a serem feitas, entre elas as tão controvertidas reformas previdenciária e trabalhista. Tudo isso pode contribuir em certa medida, mas os investidores estrangeiros que vieram para cá o fizeram atraídos pelo grande mercado potencial de consumo do País – e quando isso as perspectivas não devem mudar até o fim desta década. O Brasil nunca foi pensado pelas múltis como plataforma de exportação.

Quanto às multinacionais brasileiras, tão celebradas na primeira década do século XXI, cujo carro-chefe era a Petrobrás, devem, ao que tudo indica, caminhar para um período de hibernação. No máximo, deve ter continuidade
a escapadela de algumas indústrias para o Paraguai à procura de mão-de-obra mais barata. Felizmente, ainda não chegamos ao ponto de acreditar na construção de um muro na fronteira com o país vizinho.

Claudia Bozzo
O presidente norte-americano Donald Trump acaba de comprar outra briga com Hollywood. O diretor iraniano Asghar Farhadi, já premiado com um Oscar e indicado para outro é proibido de entrar no país.

Esta coluna hoje seria sobre a injusta distribuição de talento nesse planeta, que tem a sorte de ter um cineasta como Marco Bellocchio. O diretor de “Belos Sonhos” (2016), em cartaz, traz a comovente história do um menino, Massino, que perde a mãe aos oito anos. A dificuldade em superar a perda o acompanha durante a vida. Torna-se jornalista esportivo, cobre guerras e conflitos, mas continua um menino órfão.

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Um filme muito italiano, com todo o peso da religião, machismo, relações familiares e a importância da mamma. Bellocchio, diretor também de “Vincere” (2009), do clássico “A China Está Próxima” (1967), “Bom Dia, Noite” (2003), sobre o grupo que sequestrou e assassinou o primeiro-ministro Aldo Moro, em 1978 é a comprovação de que saber fazer filmes muito bons é para poucos.

Já a ignorância correria solta, não fosse a rápida ação da justiça, e de entidades de defesa dos direitos humanos, em certos casos. Pois a justiça norte-americana acaba de frear, este domingo, em regime de urgência, parte da determinação do presidente Donald Trump, de impedir a entrada de refugiados e outros estrangeiros nos Estados Unidos. A medida atingirá o cineasta iraniano Asghar Farhadi, indicado ao Oscar pelo seu filme “O Apartamento” (2016), o único em seu país a já receber esse prêmio, por “A Separação” (2011). O filme, que está em cartaz no Caixa Belas Artes, foi exibido em São Paulo na Mostra de Cinema do ano passado, que por coincidência trouxe uma retrospectiva de Marco Bellocchio.

Trump determinou a proibição, por quatro meses, da entrada de todos os refugiados cujos países de origem sejam Irã, Iraque, Líbia, Somália, Sudão e Iêmen. Para os refugiados sírios, a proibição tem prazo indefinido.

Jovem, nascido em 1972, Farhadi, atraiu grande público em São Paulo com “A Separação”, sobre o tumultuado divórcio de um casal, ressaltando a difícil situação de uma mulher na sociedade iraniana. Na Mostra, falou sobre o apartamento que é vendido, ao mesmo tempo, a vários compradores. Graduado em teatro pela Escola de Artes Dramáticas de Teerã e pós-graduado em direção de palco pela Universidade Tarbiat Modarres, trabalhou na TV e estreou no cinema profissional como corroteirista. Entre seus longas, estão “Linda Cidade” (2004, visto na 28ª Mostra), “À Procura de Elly” (2009, 33ª Mostra), recebeu o Urso de Prata de Melhor Diretor no Festival de Berlim por “A Separação” primeiro filme iraniano a ganhar um Oscar.

Disse ter tirado a história de uma notícia de jornal, e consegue com bons diálogos e uma história que acrescenta uma pitada de suspense e reflexões sobre o caráter dos indivíduos – afinal, há um estranho pacote de dinheiro naquele endereço – sem sair do espaço delimitado do imóvel.  Certamente, como Holywood não morre de amores por Trump, o muro contra os islâmicos certamente aumenta as chances de “O Apartamento” na categoria de melhor filme estrangeiro.

Klaus Kleber
A partir desta semana, vamos ver como o presidente Donald Trump vai governar por atos. Tuitar agora não basta. O novo presidente dos EUA vai ter de tomar decisões e, a acreditar na retórica avassaladora de discurso de posse, ele pode, sim, operar mudanças por “muitos e muitos anos”. A certa altura de sua fala, ele disse, por exemplo, que “nós defendemos as fronteiras de outras nações, ao mesmo tempo em que nos recusamos a defender as nossas próprias” (tradução livre).

A segunda parte é fácil de entender. Embora os governos que o precederam, inclusive o de Barack Obama, tenham gasto bilhões de dólares para reforçar as fronteiras dos EUA com o México, aumentando substancialmente o contingente de guardas armados para impedir a entrada de emigrantes ilegais, Trump certamente está pensando de que forma fará o governo mexicano pagar pelo muro que pretende construir entre os dois países. Além das pressões que tem feito para que indústrias desistam de criar unidades além do Rio Grande, ele talvez reduza as importações do país vizinho no bojo de uma revisão do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta).

Ninguém sabe ao como isso seria feito e talvez nem mesmo Trump. Mas o que parece mais enigmático é sua aparente contrariedade com o fato de os EUA defenderem as fronteiras “de outros países”. Isso poderia significaria que Washington deveria deixar de preocupar-se com as fronteiras da Ucrânia e da Rússia? Ou com as fronteiras de Israel?

Uma das hipóteses é que, em um entendimento direto com Vladimir Putin, o governo de Trump estaria disposto a considerar que a ocupação da Crimeia pela Rússia como um fato irreversível. Evidentemente, Trump, que se gaba de ser um grande negociador, não faria isso de graça. Como contrapartida, Putin teria de retirar forças russas da fronteira da Ucrânia e se comprometer a garantir a independência dos países bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia). Nessa barganha, o presidente russo não deixaria de exigir a retirada de forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) desses países.

Evidentemente, isso não seria fácil, conhecida como é a resistência feroz de alguns senadores americanos e de chefes miliares a concessões à Rússia, que, no limite, poderiam colocar um ponto final nas sanções do Ocidente ao império de Putin, com o consequente enfraquecimento da Otan.

Ninguém parece mais indicado para levar a cabo uma ousada política desse tipo do que o secretário de Estado indicado por Trump: Rex Wayne Tillerson, que foi CEO por dez anos da ExxonMobil e é expert em coisas russas, tendo merecido uma condecoração por Putin por bons serviços petrolíferos.

Falando ainda de fronteiras, as declarações de Trump devem soado como uma música divina para o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu. Não bastasse Trump ter falado em transferir a sede da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém, o seu discurso de posse, ao que tudo indica, dá carta branca para novos assentamentos israelenses na parte leste da cidade sagrada para três religiões e na Cisjordânia.

Especula-se em Washington e pelo mundo afora muito mais que nos dias febris de Wall Street, como mostram os milhares de comentários que têm sido publicados sobre o novo presidente dos EUA.

Claudia Bozzo
Em estudo no qual analisa a atividade cinematográfica no Reino Unido, mencionando “a grande virada dos anos 1960”, o cineasta francês Bertrand Tavernier afirma que “o cinema britânico permaneceu durante longo tempo ligado às memórias da adolescência, no que ela tinha mais burguesa”. Era um cinema, segundo ele, que se baseava “em convenções, regras, códigos de linguagem, comportamentos que muitas vezes paralisam toda veleidade criativa”. E prossegue: “o povo inglês, como escreveu Ernest Bevin, sofre de uma pobreza de desejo”.

Só essa “virada”, então, explica a chegada do revolucionário “Blow-up”, em 1966, numa produção ítalo-britânica com a presença do produtor Carlo Ponti e dos roteiristas Michelangelo Antonioni e Tonino Guerra, com direção do primeiro.

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“Blow-up” ganha outra dimensão, 51 anos após seu lançamento ao retornar ao seu ambiente nativo, as telas dos cinemas, depois de muitas exibições em TV, lançamento em DVD e até com versão completa em sites da internet. Está no Caixa-Belas Artes, e mostra que as verdadeiras obras-primas não envelhecem.

É uma saudável tendência que chega ao circuito comercial paulista, com a apresentação de importantes filmes “antigos”, como é o caso no momento, de “O Homem que Caiu na Terra”(1976), de Nicholas Roeg, com David Bowie, obra que traz preocupações ambientais, vinda de uma época em que isso nem era moda nem preocupação das mais importantes, mesmo porque o mundo vivia a Guerra Fria e o aumento do poder bélico pelas grandes potências. Que venham pois os velhinhos: as telonas e seus fãs agradecem, sem precisar esperar pelas retrospectivas da Mostra de Cinema!

“Blow-up” tem uma importância ímpar na história do cinema. Foi premiado em Cannes, rendeu fortunas aos produtores e serviu de trampolim para os filmes sobre a liberação sexual dos anos 1960 e trouxe uma inesperada sensualidade ao cinema britânico, com as primeiras cenas de nu frontal de sua história. O que se repete em “O Homem que Caiu na Terra”, bem ousado, em relação ao cinema comercial de hoje em dia, assolado pela vulgaridade, mas avesso à sutileza e bom gosto. Também abriu as portas do cinema norte-americano a Antonioni, chamado para dirigir “Zabriskie Point” (1970) e “Profissão Repórter” (1976).

Em época onde o talento era matéria-prima em efervescência, “Blow-up” foi livremente adaptado a partir de um conto de Júlio Cortázar, “As babas do diabo” e volta-se para o suspense, ao mostrar um fotógrafo de moda, com o jovem David Hemmings em seus 24 anos – encarnando figuras, entre outras, de David Bailey, um dos mais famosos retratistas da época – que, ao passear por um parque resolve fotografar um casal. O inesperado assédio da jovem que foi flagrada na companhia de um homem mais idoso, e exige a entrega do rolo de filme, deixa-o intrigado. A jovem é a bela Vanessa Redgrave, e no diálogo com o fotógrafo, acusa-o de invadir sua privacidade.

Ao chegar ao seu estúdio na icônica Nothing Hill, O fotógrafo Michael resolve revelar as fotos (isso mesmo, nada de câmeras digitais, e sim, as chapas de contato também estão presentes) e ao ampliar uma delas, percebe que a personagem de Redgrave olha para o lado. De ampliação em ampliação (blow-up, em inglês) vai descobrindo um possível crime, pois apesar de toda granulação das imagens, consegue ver um revólver e um homem caído.

O filme traz grandes presenças, além da competente trilha sonora que mistura o jazz de Herbie Hancock e o rock dos Yardbirds, em uma apresentação num clube noturno.

No conto, Cortázar afirma: “Entre as muitas maneiras de se combater o nada, uma das melhores é tirar fotografias, atividade que deveria ser ensinada desde muito cedo às crianças, pois exige disciplina, educação estética, bom olho e dedos seguros. Não se trata de estar tocaiando a mentira como qualquer repórter, e agarrar a estúpida silhueta do personagem que sai do número 10 de Downing Street, mas seja como for quando se anda com a câmara tem-se o dever de estar atento, de não perder este brusco e delicioso rebote de um raio de sol numa velha pedra, ou a carreira, tranças ao vento, de uma menininha que volta com o pão ou uma garrafa de leite. Michel sabia que o fotógrafo age sempre como uma permutação de sua maneira pessoal de ver o mundo por outra qual a câmara lhe impõe, insidiosa (agora passa uma grande nuvem quase negra), mas não desconfiava, sabedor de que bastava sair sem a Cóntax para recuperar o tom distraído, a visão sem enquadramento, a luz sem diafragma nem 1/250. Agora mesmo (que palavra,agora, que mentira estúpida) podia ficar sentado no parapeito sobre o rio, olhando passar as barcaças vermelhas e negras sem que me ocorresse pensar fotograficamente as cenas, nada mais que deixando-me ir das coisas, correndo imóvel com o tempo. E o vento já não soprava.” Esse conto faz parte de “As armas secretas”.

“Blow-up” chegou a servir de inspiração para dois outros filmes excepcionais, um deles “A Conversação” (1974) de Francis Ford Coppola, que mostra o trabalho de um investigador particular, interpretado por Gene Hackman e “Um Tiro na Noite” (1981), de Brian de Palma, com John Travolta no papel de um técnico de sonoplastia que ao gravar ruídos noturnos acaba registrando o som de um carro que cai num rio (uma referência nada sutil a acidente que aconteceu com Ted Kennedy e encerrou suas pretensões à Casa Branca).

David Hemmings, que dois anos mais tarde seria o anjo de “Barbarella”, onde atuou com Jane Fonda, disputou a participação em “Blow-up”, entre outros com o belo e talentoso Terence Stamp, inesquecível como Bernadette de “Priscilla a Rainha do Deserto” (1994) e famoso pelos casos com Julie Christie, Brigitte Bardot e Jean Shrimpton. No papel do fotógrafo Michael, transmite todo o entusiasmo do período que passou para a história como a Swinging London dos anos 1960, época em que os britânicos em vez de passarem recibo de pouca imaginação ao adotar o Brexit, fizeram fama como povo criativo e inovador, nas artes, na moda, arquitetura.

O filme traz ainda a participação da jovenzinha Jane Birkin, como uma das adolescentes que deseja ser fotografada por Michael, além de Sarah Miles e a modelo Veruschka, uma das mais famosas naquela época. Há até mesmo quem tenha notado a presença de Michael Palin (um dos Monthy Pyton), mas essa é mais difícil de localizar que Wally.

Leonardo Trevisan
Na véspera da posse de Donald Trump na presidência dos EUA o mundo ficou tomado por outro tipo de curiosidade. Bem diferente da característica destes momentos. Por exemplo, em Davos, no Fórum Econômico Mundial, o ponto comum de políticos, empresários, economistas, banqueiros não é a sensação de mudança com todos os riscos inerentes. Isso todo mundo sabe.

A questão que mais intriga é a velocidade dessa mudança. A lógica é simples: se as mudanças acontecerem de modo mais suave, de forma mais distribuída no tempo, os impactos serão menores. Não só em Davos, óbvio, mas especialmente lá, todos percebem que a vitória de um pensamento mais conservador em política e muito antiglobalização em economia está apenas começando.

O que se esperava é que a velocidade dessa mudança fosse algo controlada. Não é o que parece. Os primeiros sinais não foram de ritmo moderado na consolidação dessa vitória. O tom belicoso de Donald Trump – em todas as direções – foi só o aviso. O exercício prático dessa vitória ficou por conta da primeiro ministro britânico, Theresa May. O anúncio que ela fez anteontem sobre o formato que terá a Brexit é para não deixar qualquer dúvida sobre a velocidade escolhida para impor as mudanças no ciclo de globalização que o mundo vive desde o começo dos anos 90.

Quem exigia definições de Londres, sobre o ritmo da Brexit, já as encontrou. E não foram as mais agradáveis. Artigo do El País fez interessante classificação em 12 pontos do formato com que a Inglaterra pretende ativar o Artigo 50, que regula a saída do Tratado da União Europeia.

Primeiro, é a ostensiva declaração de May: o Reino Unido fala de uma posição de força. Custe o que custar, Londres quer de volta o “pleno controle”, ou seja, denuncia a jurisdição do Tribunal de Justiça Europeu. Em outras palavras, a livre circulação de capitais, mercadorias, serviços e pessoas (base da UE) terá o entendimento que o governo inglês quiser dar. Ponto!

E de forma imediata. A frase de May tira qualquer dúvida dos limites da negociação: “para o Reino Unido é preferível que hão haja qualquer acordo do que ocorra um mau acordo”. É neste contexto que Londres avisou: abre mão já do mercado único europeu (500 milhões de consumidores) porque quer resolver “o quanto antes possível” a questão dos direitos dos estrangeiros no seu território nos termos da legislação inglesa e não europeia. Isto é, Londres está disposta a pagar já, sem negociação, os custos de perder mercado para manter essa soberania anti europeia.

Na prática, May impôs condições que definem a não negociação da Brexit. Instantânea. Cabe a União Europeia só aceitar ou recusar. Sem muita conversa. O ritmo da Brexit será este. O artigo do El Pais mostra como os 12 pontos, incluindo o que será da Escócia e da Irlanda sem Europa, já estão definidos. Este artigo está no endereço:

http://internacional.elpais.com/internacional/2017/01/17/actualidad/1484670601_895879.html

É neste contexto que um dia antes de Theresa May ditar as regras de uma Brexit “feroz”, Donald Trump, definiu a OTAN (a aliança militar ocidental) como “obsoleta”, antecipou que outros países devem seguir o exemplo inglês e deixar o bloco europeu e, sem qualquer freio diplomático, disse que a chanceler alemã, Angela Merkel, cometeu “erro catastrófico” ao aceitar que um milhão de “ilegais” entrassem na Alemanha. Dois jornais conservadores europeus (Bild alemão e Times inglês) foram escolhidos para ouvir Trump afirmar: “para os EUA não tem nenhuma importância e não me interessa se os europeus estão unidos ou não”.

As mudanças antiglobalização terão um ritmo bem apressado. Motivo: deter, pela surpresa, qualquer reação do outro lado. A lógica dessa velocidade é a de criar o “fato consumado”. No caso da Brexit essa pressa tem a ver com inibir a reação do parlamento. Ontem, os parlamentares ingleses – inclusive do partido Conservador de May – queriam saber se a Casa será ouvida ou não para discutir a proposta de saída inglesa da União Europeia.

Tem mais. Em dezembro a Justiça inglesa deu razão a um grupo de cidadãos que reclamou o básico: foi o Parlamento que colocou o país na União Europeia, portanto, só ele a retira. Thereza May recorreu à Suprema Corte britânica. O resultado dessa decisão será divulgado em 24 de janeiro. Todos sabem que a Brexit não tem maioria no Parlamento, inclusive entre os conservadores. O motivo da pressa é esse: fazer valer o referendo antes que o eleitorado perceba bem o que a decisão significa economicamente.

Na verdade, nada é muito diferente na “pressa” de Trump. Matéria do Financial Times, assinada por Barney Jopson, publicada em 17/01, mostrou o grau de divergência da bancada dos Republicanos no Congresso quanto às ideias mais radicais do presidente eleito. O modo pouco ortodoxo de fazer declarações bombásticas , via twitter, visa derrubar ideias e movimentos nos quais os deputados e senadores republicanos trabalharam por meses.

A rejeição de Trump das propostas de reforma tributária dos republicanos é o ponto mais forte de discórdia entre o presidente e o Congresso. O artigo do FT mostra o quanto a ideia de Trump de “ajuste tributário na fronteira” prejudicaria , por exemplo, propostas de redução do imposto de renda, que os republicanos tanto prometeram aos eleitores. A violência das palavras de Trump e a pressa na execução de certas medidas radicais visa “avançar” rápido para dobrar essa resistência.

O mundo, principalmente quem está em Davos, percebeu bem o perigo dessa pressa. O jogo de criar “fatos consumados” para impor decisões nunca deu muito certo. Nem para os interesses da maioria das pessoas, muito menos para os negócios.

A pressa na imposição do pensamento conservador mais radical – em política e em economia – embutido na Brexit e na vitória de Trump, para ficar no começo da conversa (este ano teremos eleição na França, Alemanha, Holanda e possivelmente Itália), pode custar caro. Bem caro. Por isso a curiosidade com Trump não está nas mudanças prometidas, bem conhecidas, mas na velocidade delas. E com toda razão.