Klaus Kleber 
Ao que parece, o grupo que detém precariamente o poder vem procurando sinalizar que, mesmo que o presidente Michel Temer renuncie, seu sucessor – o presidente da Câmara, Rodrigo Maia – manteria a mesma orientação com relação à política econômica, tendo como homem forte o ministro da Fazenda Henrique Meirelles.

Pela Constituição, Maia teria 30 dias para convocar uma eleição pelo Congresso do novo presidente, mas o esforço que vem sendo feito é destinado a mostrar que não haveria uma ruptura dramática caso o presidente Michel Temer decida deixar o governo ou for forçado a isso.
 
Se a vacância ocorrer, o problema, naturalmente, é quem será o escolhido para comandar o governo até o término do mandato, conduzindo o país, com um mínimo de turbulência, às eleições previstas para outubro de 2018. Até o momento que escrevo, a equipe econômica vem agindo com prudência para conter os impactos da gravíssima crise política que ameaça paralisar o país.

O que que vai acontecer na Bolsa ninguém é capaz de prever, mas, pelo menos, o Ibovespa recuperou um pouco da derrocada de quinta-feira. Quanto ao câmbio, o Banco Central interveio para valer visando a conter a alta da cotação do dólar, que acabou fechando a R$ 3,25 na sexta.

O que não foi bem entendido foi o fato de BC, dispondo de reservas internacionais tão vultosas (ainda em R$377,066 bilhões na quinta-feira, dia 18), ter preferido usar o surrado mecanismo de “swaps” cambiais em vez de comprar dólares à visita, o que poderia ser mais eficaz como demonstração de força e poderia evitar uma nova carga para o BC.

Lembra-se, a propósito, que a autoridade monetária vinha procurando, nos últimos meses, se livrar de uma montanha dessas operações feitas na gestão anterior. 
Já no tocante à taxa básica de juros, o Comitê de Política Monetária (Copom) tem reunião marcada para os dias 30 e 31 e se até lá o presidente Temer tiver renunciado e o país estiver em um período de transição para uma eleição indireta e se o câmbio estiver controlado, a redução pode ser de 0,50 ou 0,75 ponto percentual – e não mais que isso. 

Independentemente de qualquer coisa, o Copom precisaria baixar a Selic de modo a sugerir que o BC está colaborando para volta à normalidade, A taxa, hoje em 11,25%, ficaria então em 10,5% ou 10,75% a.a. e só poderia cair para um dígito depois da escolha do novo presidente, se ele inspirar confiança. A possibilidade que vinha sendo aventada de um corte de 1 ou até 1,25 ponto percentual parece excluída.
 
No mais, o governo periclitante fez o que poderia. Foi sancionado o projeto para recuperação das finanças dos Estados e baixadas duas Medidas Provisórias já prometidas a grupos de interesse no Congresso. Uma das MP parcela débitos dos municípios e outra dá um tratamento dadivoso para regularização de pagamentos devidos ao Funrural. 

Felizmente, se se pode usar esse advérbio nos dias de hoje, a crise adiou votação na Câmara do projeto, já aprovado pelo Senado, que prorroga por mais 15 anos os incentivos fiscais concedidos pelos Estados sem aprovação do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz).

Se aprovada uma medida como esta, iria na contramão da lei sancionada para recuperação financeira dos Estados, dando continuidade à ruinosa guerra fiscal. Segundo o noticiário, tem sido proposta uma solução conciliatória, que seria a redução gradativa de 1/15 por ano desses incentivos.
 
Outra grande interrogação é como se comportará o Legislativo nesse período crítico. A permanência de Temer depende menos de questões jurídicas do que da reação dos partidos às investigações contra o presidente. Caso haja vacância no cargo, serão a Câmara o Senado que escolherão o novo presidente, depois do interregno de 30 dias. Os parlamentares, por mais envolvidos que estejam muitos deles na Lava-Jato, serão o fiel da balança. 

Se isso poderá significar o fim das reformas que Temer propôs, ninguém pode dizer, com certeza. As apostas são de que a reforma da Previdência dificilmente sairá ou, se sair, seria muito deturpada. Quanto à reforma trabalhista, já aprovada pela Câmara, o Senado terá de resistir às fortíssimas pressões das centrais sindicais que perderiam o maná do imposto sindical que sai do nosso bolso. Pode-se prever que a fraqueza do Executivo daria mais combustível para manifestações já planejadas das centrais.
 
Tudo pode ser diferente se Temer se recuperar do desgaste ou se o novo presidente, escolhido por eleições indiretas se comprometer com uma política de austeridade; se a presidente do Supremo Tribunal Federa (STF) puder assumir; se não houver ou não houver manifestações de massa nas ruas pedindo eleições diretas, se. se, se…. 

Vêm-me à cabeça alguns versos de Carlos Drummond de Andrade, muito apropriados ao nosso tempo: “Este é tempo de partido, tempo de homens partidos”.

Claudia Bozzo
O sucesso do filme premiado e bem recebido pela crítica “O Cidadão Ilustre” pode ser creditado tanto ao protagonista, Óscar Martínez, que recebeu a Copa Volpi de melhor ator no Festival de Veneza, como aos competentes diretores Gastón Duprat e Mariano Cohn (roteiro de Duprat). Os dois últimos já tiveram uma obra apresentada em São Paulo, o inquietante “O Homem ao Lado”, sobre o vizinho que resolve construir em sua casa uma janela que invade a privacidade do outro. Essa casa, em La Plata, foi projetada pelo famoso arquiteto Le Corbusier e é a única obra dele presente nas Américas. Moderna por fora e por dentro, a casa é cheia de rampas e vidros, mas ao mesmo tempo, não parece ser habitada por nada ou ninguém. Mas é.

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Duprat e Cohn voltam com filme igualmente denso, que a princípio se parece mais com uma comédia, com um ácido senso de humor e tiradas inteligentes. É um filme argentino, portanto mais que justo esperar por um roteiro inteligente, bons atores, conteúdo e excelência. “O Cidadão” do título é um escritor, Daniel Mantovani, vencedor do Nobel de Literatura. Depois de receber o prêmio, isola-se em sua casa na Espanha, onde vive há 30 anos e rejeita todo e qualquer convite para participar de conferências, eventos e solenidades. Até que lhe chega um convite vindo de sua cidade natal, a pequena Salas, que quer homenageá-lo. Para criar Salas e um microcosmo que abrigue a “alma” argentina, com o que o país possui de melhor e ou pior, os diretores filmaram externas criando uma cidade “Frankestein” em Navarro, Cañuelas, Aldo Bonzi e Lomas de Zamora

Para esse novo projeto, Cohn e Duprat tiveram um orçamento de US$ 1,7 milhão, o dobro do recebido por “O Homem ao Lado”, vencedor do prêmio de melhor filme no Festival de Sundance de 2010 e com boas bilheterias na Europa e nos Estados Unidos. Em entrevista a um site argentino, comentaram que existem centenas de formas de fazer filmes. “Estamos em busca das inovadoras”. Para o crítico Benjamín Harguindey, de “Escribiendo Cine” esse é o melhor já feito pelos dois, até agora, e ele prevê que “tem todo o jeitão de vir a converter-se em outro clássico moderno do cinema argentino”.

Sem dúvida, Óscar Martínez tem uma grande participação nesse sucesso. O ator tem atuação marcante como o escritor e ainda pode ser visto em “Relatos Selvagens”, filme lançado em outubro de 2014 em São Paulo, que continua em exibição no Caixa Belas Artes, onde é, em um dos episódios, o pai que tenta livrar o filho de uma encrenca e é chantageado de todos os lados. Outro de seus filmes exibidos no Brasil em 2009 é “O Ninho Vazio” (2008), de Daniel Burman, no qual contracena com Cecilia Roth. E as salas de cinema já exibem cartazes de um novo filme seu, “Inseparáveis”, de 2006, uma refilmagem do sucesso francês “Os Intocáveis” (2011), de Olivier Nakache.

Martínez une-se à formidável constelação de grandes atores do cine argentino, que inclui Ricardo Darin (“O Segredo dos Seus Olhos”, 2009); Dario Grandinetti (“Relatos Selvagens”, 2014); Leonardo Sbaraglia (“No Fim do Túnel”, 2014” e “Relatos”); Hector Alterio (”História Oficial”,1985 e “O Filho da Noiva”, 2001); Eduardo Blanco (o amigo do filho da noiva); Júlio Chavez (“O Guardião”, 2006) e tantos outros. Sem contar as atrizes do nível de Norma Aleandro (“O Filho da Noiva”, “História Oficial”), Cecilia Roth (“Kamchatka”, 2002 e “Tudo Sobre Minha Mãe” 1999.

“O Cidadão Ilustre” traz para a tela temas argentinos e globais. Um deles, a rejeição à visão crítica e externa representada pelo protagonista, exilado há décadas na Europa, frente ao nacionalismo extremado de seus conterrâneos. A exaltação da vida provinciana soma-se a uma espécie de ferida aberta no orgulho argentino, por ter grandes escritores como Jorge Luis Borges, por exemplo, e nenhum Nobel de Literatura. Recebido na cidade pelo prefeito e pela “miss” local, O escritor é levado em um carro do corpo de Bombeiros, como se fosse um herói do futebol. E não há que deixe de observar que ele se une aos grandes ídolos, Diego, o papa e Messi.

Daniel Mantovani é descrito por Óscar Martínez como um personagem contraditório “como todos nós”. Ele define o filme como “incômodo” por ser um tipo de espelho “que nos devolve a imagem que não queremos ver de nós mesmos. Um mostruário barroco de uma sucessão de coisas que particularmente abomino no argentino. O fanatismo ideológico, a violência a docilidade nas pessoas do povo, o chauvinismo espantoso e a destruição do ídolo”. Precisa mais?

E é bom ficar de olho na dupla Mariano Cohn y Andrés Duprat que competirá na Culinary Zinema 64º Festival Internacional San Sebastián, com um filme “Todo Sobre el Asado”. Tudo sobre o churrasco, informa Óscar Martínez, é uma outra viagem à Argentina profunda onde a comida é ao mesmo tempo um ritual primitivo, contemporâneo, selvagem e refinado, arte e ciência. “Esses dois ‘hijos de p…” serão expatriados quando for apresentado na Argentina o que acabam de fazer. ‘O Cidadão Ilustre’ é Disneylândia, em comparação.” Bem, o apetite dos cinéfilos ele já atiçou.

Convém ter prudência

14 / 05 / 17

Antonio Corrêa de Lacerda,
É peculiar o momento em que cresce o debate sobre metas de inflação no Brasil. A inflação oficial medida pelo IPCA caiu de 10,7% em 2015 para 6,3% em 2016, e são esperados 4,0% em 2017 (projeção do Boletim Focus de 5/5).

Essa importante queda tem dado munição ao discurso oficial e de parte do mercado financeiro favorável à redução da meta de inflação. A contradição está em imputar toda a redução da taxa de inflação ao que seria um êxito da política monetária. Na verdade, três aspectos, além da política monetária ou de juros, explicam a inflação corrente mais baixa: a recessão, a valorização do real e o efeito da safra agrícola.

O argumento principal geralmente apresentado pelos defensores da redução da meta é o de que ela seria elevada para o Brasil. Os que o fazem geralmente levam em consideração a comparação com outros países que adotam o Regime de Metas de Inflação (RGI).

De fato, México, Colômbia e Chile têm uma meta de 3% ao ano; a Tailândia, de 2,5%; e no Peru e na Nova Zelândia ela é de 2%. A exceção é a Turquia, cuja meta é de 5%, mais próxima da brasileira. Porém o mais adequado seria comparar a inflação média corrente no Brasil com países cujas estruturas, como extensão territorial e PIB, fossem minimamente semelhantes à nossa, de grande diversidade regional e de renda, independentemente de adotarem ou não o RGI.

A Rússia, por exemplo, teve inflação de 5,3% em 2016 e a África do Sul, de 7,0%, o que mostra que o fenômeno aflige países em transição e tem particularidades específicas, não carecendo de generalizações ou diagnósticos superficiais.

Interessante, ainda, observar a demora do início da redução da taxa Selic pelo Banco Central e seu ritmo conservador de queda, a despeito da velocidade da redução da inflação. Ou seja, a taxa real de juros brasileira continua imbatível no ranking mundial, de longe a mais alta, bem distante da média internacional.

Mesmo com as projeções de que a Selic possa ser reduzida a 8,5% até o fim do ano, ainda permaneceremos no topo da maior taxa real de juros, entre 4% e 5% ao ano.
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Assim, é inadequado argumentar que diante do novo quadro é possível, ou viável, reduzir a meta de inflação, cujo centro é hoje de 4,5%, já que a redução inflacionária observada atualmente no Brasil é fruto de fatores circunstanciais e a um custo econômico e social enorme. Estamos longe de um “novo normal” na inflação, mas, sim, sentindo o efeito da maior crise de nossa história, além de fatores circunstanciais como a valorização do real e a safra agrícola.

Como não queremos recessão permanente nem valorização artificial da moeda e tampouco podemos contar sempre com fatores climáticos favoráveis, conviria maior prudência!

No mundo em desenvolvimento há componentes estruturais na inflação, muito relacionada às transformações demográficas, urbanização, mobilidade social e mudança de padrões de consumo, entre outros aspectos. São fatores que implicam o encarecimento dos alimentos, o custo da mão de obra e, consequentemente, dos serviços.

Mas isso não é motivo para a prática de taxas de juros reais tão elevadas quanto as nossas. Além dessas questões, temos características específicas do nosso sistema de formação de preços que são fomentadoras e mantenedoras da inflação, como a indexação, que tende a disseminar os choques localizados de preços.

Mais do que antecipar uma redução da meta de inflação, o que, em razão das condições atuais, só faria elevar as taxas de juros, travar o mercado de crédito e transferir ainda mais renda para os credores da dívida pública, é preciso aprofundar a discussão dos aspectos estruturais envolvidos na questão.

Klaus Kleber
Noticia-se diariamente o atolamento de caminhões carregados de produtos agrícolas nas péssimas rodovias que ligam as regiões produtoras aos portos. Mas não só isso: por todo o País, há inúmeras obras paradas por falta de verbas ou porque grandes empreiteiras vencedoras de licitações, implicadas na Lava-Jato, estão quebradas ou em processo de recuperação judicial.

Dados recentemente divulgados pela ONG Contas Abertas permitem entender melhor o que está acontecendo. Os investimentos públicos de janeiro a abril deste ano foram de apenas R$ 8,1 bilhões, 57% a menos que no 1º. quadrimestre de 2016 (R$ 19,1 bilhões), um período também de crise.

Sabe-se que o governo está cortando despesas e a arrecadação de impostos está ainda caindo em termos reais e naturalmente há menos folga para investimentos. Com isso, não só a produtividade do País se ressente de infraestrutura adequada, mas o desemprego não para de aumentar. Haveria uma forma de elevar os investimentos em uma fase tão crítica como a que o País está passando?

Pode-se responder que, para alavancar os investimentos em infraestrutura, foi lançado o Programa de Parcerias de Investimento (PPI), que já realizou os leilões de aeroportos e linhas de transmissão. O PPI, porém, está andando muito devagar, alegadamente para evitar contestações, uma prudência compreensível depois de tantos casos de corrupção.

Contudo, tem sido feita uma pergunta que, no meu entender, não foi ainda respondida satisfatoriamente. Por que o governo não utiliza uma parte das reservas internacionais, que, segundo os últimos dados do Banco Central (4/5) estavam em US$ 375,71 bilhões, para criar um fundo de investimentos em infraestrutura, como parcerias público-privadas (PPP). Se esse fundo fosse, por exemplo, de US$ 20 bilhões, ainda restariam reservas de US$ 355 bilhões, volume mais que suficiente para que o Brasil pudesse enfrentar uma crise financeira internacional.

A razão por que o governo não o faz, segundo têm afirmado economistas, é que esses US$ 20 bilhões teriam de ser convertidos em reais, acarretando uma grande elevação da base monetária, o que perturbaria o combate à inflação e, possivelmente, criaria obstáculo para a queda dos juros, uma vez que o governo, para corrigir o excesso de liquidez, teria de lançar mais títulos no mercado financeiro, aumentando a dívida pública.

Compreendo. Suponhamos, no entanto, que os investimentos diretos estrangeiros (IED), que o BC calcula que somariam US$ 75 bilhões ao fim deste ano – o que muitos consideram uma subestimativa — tivessem um aumento de US$ 20 bilhões este ano, fechando em dezembro na casa dos US$ 95 bilhões — o que não é impossível, dado principalmente o apetite chinês por investimentos no País e outros emergentes.

Se isso se verificasse, não seria a mesma coisa, isto é, o BC não teria que injetar o equivalente em reais na economia, sendo a política monetária ajustada às circunstâncias? Neste caso, o ingresso maior de IED poderia ser considerado uma prova de confiança externa economia brasileira, o que seria saudado por todos.

Já no primeiro caso, a criação de um fundo de investimento ou um fundo soberano de US$ 20 bilhões poderia levar a irregularidades na sua implementação. Isso só não ocorreria se fosse elaborado um plano de investimentos confiável, que seria colocado gradualmente em prática. Tal fundo, é claro, deveria ser rigidamente controlado e há meios para que isso possa ser feito, com a introdução, por exemplo, de um regime de “performance bond”, com as precondições sugeridas pelo jurista Modesto Carvalhosa.

Diriam alguns que isso pode até acontecer, mas só depois de aprovada a reforma da Previdência.

Claudia Bozzo
Para quem gosta de procurar pérolas para download na internet, há uma à disposição: a primeira temporada da série da BBC One, chamada “Taboo”, com a chancela de qualidade de Ridley Scott e o total empenho de Tom Hardy, o ator que interpretou “Mad Max, Estrada da Fúria”, de 2015 e dirigido por George Miller.

Embora Hardy entre mudo e saia calado em “Mad Max”, em “Taboo” ele tem uma presença forte, marcante, misteriosa e densa. Sua dedicação ao projeto foi tanta que trouxe para o roteiro o pai, Chips Hardy, participante de outra interessante série britânica, “Peaky Blinders” (2013), sobre o submundo das máfias e apostadores.

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As duas séries passam-se no início do século 19 e mostram uma Londres lamacenta, suja, infestada de ratos e atormentada por gângsters. Jornais britânicos noticiaram que o entusiasmo de Hardy foi tão grande que a série o deixou, até agora, com uma dívida de dois milhões de libras.

Um crítico britânico queixou-se da “moda” que aflige os espectadores de séries no império, com histórias que mais trazem dúvidas que respostas. Mas o tom enigmático é mais um ponto de interesse, e a grande curiosidade é saber quem é e o que pretende esse misterioso James Delany (Tom Hardy), do qual se sabe apenas que regressou em 1814, de um período de 12 anos na África, para receber a herança deixada pelo pai, dono de um império naval e que traz em um saco de couro uma grande quantidade de diamantes.

O elenco inclui atores de primeira linha, como Tom Hollander, (“Piratas do Caribe”, 2006 e 2007), Jonathan Pryce (“Brazil, o Filme”, 1985), Oona Chaplin (filha de Oona e neta de Charles Chaplin), Michael Kelly (o fiel assessor o presidente Frank Underwood em “House of Cards”) e Franka Potente (“Corra, Lola, Corra”, 1998).

A trama vai-se revelando aos poucos e é um prato cheio para quem gosta de história e economia. O misterioso Delany revela-se um determinado empreendedor ao confrontar o império britânico e a poderosa Companhia das Índias Orientais, a entidade comercial que detinha o monopólio da venda do chá nas colônias e ao mesmo tempo, tentar atrair os Estados Unidos para sua trama.

A Companhia consolidou sua presença em metade do comércio mundial, em mercados que incluíam algodão, seda, chá, ópio, corante índigo, sal e salitre. Criada por Carta Real da Rainha Elizabeth I em dezembro de 1600, comerciantes ricos e aristocráticos detinham as ações da companhia. Inicialmente, o governo não possuía ações e tinha apenas controle indireto.

Os conflitos com a França, que possuía a Companhia das Índias Orientais Francesa aparecem em “Taboo” em diálogos de personagens contra a França e os franceses. Depois de derrotar indianos, a companhia foi aumentando gradualmente a extensão dos territórios sob seu controle. Chegou a governar grandes áreas da Índia. Mas apesar de todo poder, e da ajuda frequente do governo britânico, os problemas financeiros resultaram na sua dissolução em 1874.

Na série, Delany-Hardy recebe como herança uma propriedade no Oeste do Canadá e vê ali a possibilidade de criar uma rota para a China. E dedica-se com vigor, crueldade e alianças improváveis, a conseguir um monopólio na importação de chá e outras commodities. Torna-se inimigo natural da poderosa Companhia e do governo britânico ao mobilizar uma série de alianças e uma rede de informantes que dariam inveja a qualquer mandatário atual.

Em paralelo, há a história de amor entre os dois irmãos (Delany e Oona, filhos do mesmo pai) e mistérios como a origem da mãe de Delany. A trama é apimentada pelo incesto, exorcismos, histórias de escravidão e tráfico, espiões de todos os lados e violência.

O melhor de tudo é que a segunda temporada já está anunciada para este ano. E quem não fizer o download pela internet precisa torcer para que seja exibida em algum canal a cabo. Mesmo porque a BBC no Brasil foi sumariamente eliminada, depois de ter sido abatida aos poucos. Uma pena, pois foi o canal que trouxe séries  sobre nosso planeta e dramas como “Wallander”, “Luther”, “Call the Midwife”, e muitas outras, incluindo séries australianas.

Sem contar o divertido programa do Graham Norton, agora só pelo You Tube. Podemos ver algumas delas no Netflix, como “River”, “Interland”, “Whitechapel” “The Crown” e vale esperar que as novas sejam lá exibidas. Já o programa de automobilismo “Top Gear”, comandado pelo destemperado Jeremy Clarkson, foi parar no serviço de streaming da Amazon, com o nome de “The Grand Tour”. Mas perdeu parte da graça, dispersa em sonhos de grandiosidade.

Klaus Kleber
A semana começa com um 1º. de maio melancólico, no término de um feriadão que vai acabar durando quatro dias. Escrevendo na véspera, não sei se haverá rojões ou bombas de efeito moral no Dia do Trabalho. Aconteça o que acontecer, ele ficará marcado pelo recorde no número de desempregados, que alcançou 14,2 milhões ao fim do 1º. trimestre deste ano, 14,9% a mais que no trimestre anterior.

O contingente dos que procuram trabalho foi acrescido de 3,2 milhões no espaço de um ano e esse exército inclui centenas de milhares de recrutas em busca do primeiro emprego. Em um país como Brasil com uma grande população jovem, o desafio está longe de ser só de o recolocar no mercado de trabalho aqueles que foram obrigados a deixá-lo, mas também responder a uma demanda crescente de emprego que aumenta a cada ano.

O governo está cansado de saber disso e alguns economistas dizem que o desemprego vai ainda aumentar antes de começar a baixar. Sim, se a inflação continuar a caindo, como se espera, e o Banco Central se mantiver no caminho da redução dos juros, a situação pode melhorar. Mas tudo muito lentamente. Já surgem sinais aqui e ali de uma certa ativação na indústria de transformação, mas os maiores empregadores, que são a construção civil e o setor de serviços, permanecem deprimidos.

O Programa de Parceria de Investimentos (PPI) do governo federal está andando, como mostram os recentes leilões de linhas de transmissão de eletricidade e de aeroportos. Os investimentos estrangeiros diretos (IED) no País também estão aumentando. No primeiro trimestre deste ano chegaram a US$ 23,943 bilhões, 41,39% a mais que nos primeiros três meses de 2016 (US$ 16,933 bilhões).

O BC estima que os IED em 2017 possam somar US$ 75 bilhões ao fim de dezembro, o que talvez seja uma estimativa conservadora (no ano passado, apesar de um 1º. trimestre fraco, o total alcançou US$ 78,92 bilhões). Presumindo que o PPI seja acelerado e que nuvem dos IED permaneça carregada, o que se pergunta é se isso dará conta de reduzir substancialmente o desemprego a partir do 2º. semestre deste ano?

Não ouço e não leio uma resposta afirmativa a essa pergunta. Ao lado dos IED, os investimentos privados nacionais também precisam aumentar, o que só se verificaria se a demanda interna, hoje tão debilitada, ganhar força ou se houver uma arrancada das exportações de produtos manufaturados e semimanufaturados, o que parece pouco provável. Mas, segundo se afirma, uma reversão do quadro atual só poderia ocorrer a médio prazo e estaria condicionada à aprovação pelo Congresso Nacional, sem grandes distorções, das reformas propostas pelo governo.

Contudo, mesmo que a visão mais otimista se confirme, parece ilusório, a essa altura, prever que a taxa de desemprego, hoje em 13,7%, venha a ficar abaixo de 10% até as eleições de outubro de 2018.

Klaus Kleber
A semana que está iniciando será marcada por incertezas mais agudas que as habituais. Afora a litania diária de delações que domina o noticiário, poucos analistas arriscam previsões sobre a votação da reforma trabalhista (PL 6787), que está marcada para ir a plenário na Câmara dos Deputados na próxima quarta-feira, dia 26. Acabou prevalecendo o regime de urgência para a votação, mas foram propostas 200 emendas ao projeto do governo, não obstante as mudanças propostas pela comissão especial instalada para examinar as mudanças na CLT.

Assim, ainda que aprovada a reforma, haverá uma longa discussão quanto aos destaques. De qualquer forma, será um teste para a votação da reforma da Previdência. Por precaução, o relator desta, que é a mãe de todas as reformas, deputado Arthur Maia (PPS-BA), resolveu adiar a sua votação para maio.

Além das denúncias de corrupção cada vez mais amplas e detalhadas – e talvez venha aí a delação do ex-ministro Antonio Palocci –, outra grande sombra se projeta sobre o ambiente político nesta última semana de abril. Está marcada para o dia 28 uma greve geral, convocada por oito centrais sindicais, que representariam 10 milhões de trabalhadores.

Pelo que se tem ventilado, a paralisação não se limitaria ao setor de transportes, que, por si só, causaria uma tremenda confusão. Sem ônibus e metrô, milhões de pessoas não teriam condições de chegar ao trabalho. Mas, como estão dizendo, até funcionários públicos estariam dispostos a decretar ponto facultativo por conta própria para protestar contra o corte de privilégios da categoria pela reforma da Previdência.

Pelos e-mails que lotam a caixa de entrada de muita gente, convocando para a paralisação, poderíamos ter uma greve geral à maneira argentina, com tudo parado? A data não foi escolhida ao acaso. Como os dias 29 e 30 serão sábado e domingo e há feriado em 1º. de maio, Dia do Trabalho, se a greve geral tiver a adesão que as centrais sindicais esperam, o País ficará praticamente paralisado por quatro dias em seguida.

Pode ser que a crescente mobilização para a greve influencie a votação sobre a reforma trabalhista. Ainda que isso não ocorra, uma paralisação generalizada tornará mais ingrato o percurso da reforma da Previdência. Sob o aspecto estritamente econômico, a perda de muitas horas de trabalho com tantos feriadões pesará nos resultados de abril, afetando a lenta recuperação do ritmo de atividade e criará mais incertezas daí para frente.

Claudia Bozzo
O cinema pode ser considerado uma arte eclética por excelência, ao abrigar generosamente em suas telas todas as outras manifestações artísticas. Poucos ambientes recebem com tanta reverência, respeito e amor, talentos expressos em dança, música, teatro, artes plásticas, poesia, literatura e outras, quanto salas de projeção.

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Prova disso é o novo filme de Carlos Saura, “Argentina” (de 2015), que com uma direção de arte à altura de seus filmes anteriores, emociona ao fazer par com os dançarinos músicos e poetas que dão e deram sua contribuição ao rico folclore argentino, numa coprodução que reúne Argentina, Espanha e França. O diretor espanhol, hoje com 85 anos, mantém a jovialidade de sua cinematografia e traz os ritmos, canções, conjuntos musicais e intérpretes de expressões como a zamba, chacarita, chamame, todas bem desconhecidas para nós, acostumados ao tango como a definitiva expressão musical argentina.

O próprio Saura, em 1998 nos trouxe “Tango”, em 2010 o documentário “Famenco, Flamenco”, e tantos outros, numa carreira iniciada em 1955. Se ante o franquismo expressava sua irreverência com alegorias sutis ou nem tanto, depois se firmou como diretor, ator, roteirista e diretor de fotografia. São dele clássicos do cinema mundial, como “Ana e os Lobos” (1973), “Fados” (2007), “Amor Bruxo” (1986), “Mamãe faz 100 anos” (1979), “Bodas de Sangue” (1981), “Cria Corvos” (1976), entre tantos outros.

Sempre em atividade, há notícias de que prepara duas novas obras, uma delas um documentário sobre o arquiteto Renzo Piano (autor, com Richard Rogers do ousado Centro Georges Pompidou em Paris). Também está em seus planos “33 Dias” um filme sobre Picasso e a criação do mural Guernica.

“Argentina”, em exibição desde a semana passada, é uma mistura de musical e documentário. Seu nome original é “Zonda”, e traz uma reverência ao folclore argentino “em estado puro”, como próprio Saura definiu em entrevista a um jornal de Buenos Aires. É um registro histórico, despretensioso, que reúne um punhado de artistas dedicados à preservação do que há de mais original e popular no cancioneiro popular das várias regiões do país. São letras de uma poesia emocionante, canções em estado puro, cercadas de um cenário sem pirotecnia, mas com uma beleza que se alia às músicas em harmonia poética e emocionante.

Não há uma história, nem a preocupação didática. É um filme que vai direto à veia da emoção. Como as homenagens a Mercedes Sosa, numa imagem de arquivo, apresentada a escolares que a acompanham de suas carteiras. Outro homenageado é Atauhalpa Yupanqui, certamente outro dos maiores nomes do folclore da Argentina.

No jogo de luzes, sombra e cores, está o olhar de Saura. “O cinema é uma grande mentira. A realidade existe apenas ao vivo e na hora, o resto é uma ficção inventada. Nesse sentido, este é um musical per se. Não há roteiro, nada mais que interpretações, cenografia, luz e um grande respeito pelos artistas”, disse ele em entrevista a jornal argentino.

Talvez esse seja o segredo de um filme que consegue emocionar, apenas reunindo os artistas com suas canções, danças e repertório, em um enorme galpão na região da Boca, em Buenos Aires, mostrando que a arte supera barreiras geográficas e se ela é legítima, sincera, verdadeira, une as pessoas, independente de fronteiras ou background cultural. Esse encontro, numa linguagem atual, constitui um verdadeiro documento cultural para o futuro, ao qual Saura empresta seu magnetismo e originalidade como cineasta.

Ainda segundo o diretor espanhol, “queremos mostrar, através da música e da dança tradicional argentina, uma cultura e um país. A ação visual está focada ao redor das diversas regiões que formam a Argentina e por sua vez formam um mapa de variantes musicais tais como o carnavalito, a zamba, a chacarera, a copla, o chamamé, a tonada e muitas outras expressões arraigadas na geografia e na alma das diversas comunidades do país”.

Leonardo Trevisan
O rei da Suécia, no começo deste mês, visitou o Brasil. Entre muitos compromissos, Carlos XVI Gustavo fez questão de encontrar com startups desenvolvidas por suecos que atuam aqui. O rei não dispensou, óbvio, falar com empresas suecas tradicionais instaladas no Brasil. Mas, cuidou bem de suas startups. Por que?

Entender este interesse específico do rei em startups exige saber que nas economias ricas, cerca de 40% dos novos investimentos privados são destinados a este modelo.

As startups avançaram também no Brasil. Grandes empresas já perceberam o potencial desse modelo. E que é muito lucrativo conviver com ele. Essa inovação atingirá também qualquer carreira.

Diferentes setores da economia brasileira já aderiram à lógica das startups. Os bancos saíram na frente. Em março, o Bradesco anunciou investimentos significativos em parceria com 2 startups de TI, uma de computação cognitiva, outra, uma espécie de “Uber de caminhões”. O Itaú, desde o ano passado, faz os seus “hackthons”, seguidos leilões de disputa de parceria com o banco, para desenvolvimento de softwares.

As montadoras fazem o mesmo. No ano passado, a Ford, fez parceria com o app que conecta smartphones com o carro. O agronegócio foi na mesma linha. Repetem-se, desde 2015, os “AgTech”, a disputa por investimento “anjo” em tecnologias que automatizam produção agropecuária.

É claro que o futuro das carreiras no Brasil não está só nas startups. Basta visitar qualquer escola que forma técnicos industriais para ver que tem uma classe de mecatrônica para pelo menos 4 de “manutenção industrial”. Motivo: máquinas industriais no Brasil têm idade média de 17 anos (dado de 2014 da Abimaq) enquanto na Alemanha é de 5 e nos EUA de 7 anos (dados da Gardner Business Media). Essa realidade não é muito diferente na prestação de serviços.

Portanto, hoje, convivem no País dois tipos de desenvolvimento de carreira. Um na empresa tradicional, mais protegido legalmente com maior oferta de emprego. Outro é o da lógica da startup, mais promissor e mais arriscado. A escolha é de cada um, ressalvado o fato de que se deve saber exatamente o que se está escolhendo. Sem deixar de notar a opção que fez, por exemplo, o rei da Suécia.

(abril 2017)

Claudia Bozzo
O timing é perfeito. O lançamento do documentário “My Way”, pelo serviço de streaming Netflix chega em meio à convulsão criada pela divulgação de centenas de nomes de políticos envolvidos em corrupção no Brasil e na data próxima aos  100 dias do presidente Donald Trump na presidência dos Estados Unidos. Em todas as mentes, um nome é lembrado: Sílvio Berlusconi, o “Cavalieri”, que durante vinte anos dominou a cena política italiana, e como diz reportagem do jornal La Stampa, “mostrou ser Trump antes de Trump”.

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 “My Way” é de 2016 e baseia-se em livro do jornalista norte-americano Alan Friedman – uma biografia autorizada pelo próprio político – que lhe diz, logo no início do documentário:

“Durante anos, muitos jornalistas pediram-me para lhes contar a história da minha vida. Sempre recusei. Aceitei colaborar com Alan Friedman por confiar nele. Como disse Steve Jobs ao seu biógrafo: ‘eu contarei minha história, você escreverá o que quiser’”. Bom, quem assistir “My Way” verá que a adulação não inibe as investidas de Friedman. Nem muda a história.

É um trabalho imperdível. Friedman, que decidiu morar na Itália tem outros importantes livros em seu currículo. Ainda jovem, foi colaborador da administração Jimmy Carter (1987-1981) .  Depois correspondente do jornalFinancial Times, enviado especial do International Herald Tribune, editorialista do Wall Street Journal e produtor e diretor de vários programas de TV na Grã-Bretanha, Estados Unidos e Itália (onde trabalhou na RAI e Sky).

Ao todo, realizou 28 horas de diálogos com o político, registradas em vídeo e incluindo centenas de outras entrevistas, realizadas num período de 18 meses, que somadas completam 100 horas de conversas. O Leone Film Group, dirigido pelos filhos do cineasta falecido em 1989, Sergio Leone (“Era Uma Vez no Oeste” de 1968, “Por um Punhado de Dólares” 1964 e “Era uma vez na América”, 1984, entre outros), adquiriu direitos sobre o livro. O acordo garante que Raffaella e Andrea, filhos de Leone, ficarão com 50% dos direitos de distribuição do filme em todo mundo, além da série romanceada, inspirada na história do fundador de Forza Italia.

Friedman mostra de onde veio a fortuna de Berlusconi, criada a partir de empreendimentos imobiliários (mais uma semelhança com Trump, além da exagerada vaidade, temperamento histriônico, e amizades cultivadas em nome do interesse. As entrevistas são feitas em sua “Villa” em Arcore, com 73 hectares de área e uma mansão com 72 cômodos, recheada por obras de arte de valor incalculável. O ex-político tem quartos e quartos, usados apenas para guardar presentes recebidos de outros políticos, de eleitores e prêmios.

Mas não há espaço que contenha seu ego. Chegou à política como “o novo”, e acabou sendo o mandatário que por mais tempo manteve o cargo no período após a II Guerra. Foi ele o responsável pela “americanização” dos meios de comunicação da Itália, por meio de seu império de comunicações, a Mediaset. Ele se orgulha de ter levado “Dallas” e “Dinastia” para a terra de Michelangelo, e a RAI até hoje mantém o look berlusconiano, com toda a breguice de seus programas. Era proprietário do clube de futebol italiano A. C. Milan, até que vendeu o clube por R$ 2,5 bilhões a um grupo chinês.

Muitos críticos, italianos ou não, consideraram o documentário meio déjà-vu e até mesmo pouco crítico em relação ao retratado. Claro, faltou a virulência de um Nanni Moretti em “Il Caimano” (nome com o qual a esquerda italiana define o político, considerado um crocodilo, ou o predador por excelência). Mas é muito interessante a reconstrução do poderoso – que em muitos aspectos remete também ao personagem retratado em “Cidadão Kane”, obra-prima de 1941, de Orson Welles, que retrata o magnata da mídia norte-americana, Willian Randolph Hearst.

Além disso, é muito rica a pesquisa de imagens, o registro de passagens da vida do retratado, sempre à frente dos holofotes. Em companhia de outros políticos, como Bettino Craxi, o socialista que de 1983 a 1987 foi primeiro-ministro durante uma das fases mais turbulentas da turbulenta Itália, na crise do Banco Ambrosiano e que morreu no exílio na Tunísia aos 65 anos, além de Marcello Dell’Utri, suspeito de ligações com o mundo mafioso. Outro de seus grande amigos – o paralelo chega a ser irônico – é Vladimir Putin, que o “Cavaliere” sempre teve em alta estima.

Embora com mais luvas de pelica, o documentário lembra ainda o famoso encontro de Richard Nixon e David Frost. Friedman entrevista autoridades de peso, como o ex-premier espanhol José Luiz Zapatero e José Manuel Durão Barroso, atual presidente do Banco Goldman Sachs International, que na época da queda de Berlusconi era presidente da Comissão Europeia (2004 a 2014). As câmeras o acompanham ao vestiário do Milan, onde conversa com os jogadores.

Há até mesmo uma incursão ao famoso recinto onde eram realizadas as orgias das quais supostamente Berlusconi participava (ele chegou a ser condenado por manter relações com uma menor de idade) o famoso quarto do “bunga bunga”. O rumo ao declínio, depois de ocupar o cargo de primeiro-ministro em três períodos, mostra um homem que se considerava acima de tudo e todos, quase fragilizado. Ego é ego, mas tem uma hora em que o personagem percebe que é história, passado. Tomara.