Leonardo Trevisan
É sempre a moeda. Não importam muito os disfarces usados pelo candidato Donald Trump. Na hora do “vamos ver”, o presidente Trump cuidou do essencial. A escolha do secretário do Tesouro (mais ou menos o nosso ministro da Economia), Steve Mnuchin, foi “esclarecedora”. Tanto quanto a nomeação do secretário do Comércio, Wilbur Ross, quem cuida do que os EUA devem comprar e vender do mundo.

Os disfarces para ganhar eleição, a guerra ao imigrante e ao politicamente correto, o apoio a posse de armas e `”supremacia branca” apenas sustentavam o discurso de Trump. Esse discurso, típico da nossa era, bem longe de ser só americano, era só herdeiro direto do desastre financeiro de 2008. Nada muito diferente do que já vinha sendo praticado lá (o segundo governo Obama expulsou quase 3 milhões de “ilegais”), tudo rigidamente definido pelo Congresso, bem controlado nas duas Casas pela direita republicana.

Nenhuma grande novidade nisso. Quem duvida pense, por exemplo, na tragédia operacional do Obamacare, que foi até aprovado pela Suprema Corte, mas pouco saiu do papel. Sem exageros, o discurso eleitoreiro de Trump, bem olhado os usos e costumes americanos dos últimos anos, era só “mais do mesmo”. De novo, quem duvida lembre do sucesso da “lógica Tea Party” das candidaturas republicanas nas duas eleições de Obama.

Outra coisa, bem diferente, foi a nomeação de Mnuchin para cuidar da economia americana. Nesse ponto aparece a face verdadeira da candidatura Trump que tanto assustava até a cúpula do Partido Republicano. É preciso olhar com mais cuidado quem é – e o que quer fazer – esse legítimo representante de um tipo de pensamento vigente em Wall Street. Em outras palavras, que tipo de raposa de Wall Street foi nomeada para cuidar do galinheiro econômico americano.

O fato de ser mais um banqueiro da Goldman Sachs neste posto não assusta em si mesmo. Os últimos secretários do Tesouro tiveram a mesma origem, tanto faz o presidente: Timothy Geithner, de Obama, Hank Paulson, de Bush, ou Robert Rubin, de Clinton, para lembrar três nomes. Mnuchin é mais um dessa mesma “família”. Mas, é um pouco “diferente” dos demais, para dizer o mínimo. Principalmente na coragem de dizer o que vai fazer, sem cerimonias. Desde Ronald Reagan, um representante de Wall Street nunca foi “tão Wall Street” ao exercer este o posto de secretário do Tesouro.

O histórico profissional de Mnuchin causou preocupação. A Bloomberg (matéria de Saleha Mohsin) lembrou que o Senado terá de fazer “exame rigoroso” da decisão de Mnuchin de comprar em 2009, no auge da crise, a falida instituição de crédito imobiliário Indy Mac, rebatiza-la de One West, recapitaliza-la de forma “inovadora” e revende-la depois, o que significa, “na prática lucrar muito pesado com a crise do crédito imobiliário, o subprime”. Em San Francisco há acusação formal à One West de “más práticas na retomada judicial de imóveis”.

A empresa de Mnuchin, One West, foi uma das maiores beneficiados pela quebra do mercado hipotecário americano como mostrou matéria do El Páis, assinada por Sandro Pozzi. Este texto relembra que Mnuchin e um irmão dele foram arrolados no processo para compensar os prejudicados pela enorme fraude de Bernard Madoff. A íntegra deste artigo está no endereço: http://internacional.elpais.com/internacional/2016/11/30/actualidad/1480462226_775020.html

Os problemas com tais “práticas” levaram Mnuchin a trocar de ramo, migrando para Hollywood. Os lucros com o negócio de títulos de “crédito podre” justificam o investimento na produtora de filmes Rat-PacDune, responsável por 34 blockbusters de altíssimo retorno como “Avatar”, por exemplo, a maior bilheteria da história do cinema, US$2,7 bilhões.

Quanto ao que fará, Mnuchin já avisou a que veio em termos de reforma fiscal. Como mostrou artigo detalhado de Amanda Mars no El País, o programa fiscal do secretário de Trump irá reduzir a três faixas o imposto de renda (12%, 25% e 33%) frente às sete faixas atuais. Nestas, o máximo de cobrança alcança 39,6%. A mudança de Mnuchin vai bem na direção de cobrar muito de quem tem pouco e cobrar bem pouco de quem tem muito. O mais preocupante – como já apontaram inclusive lideranças republicanas – é o anúncio de que o imposto para empresas cai dos atuais 35% para 15%. O impacto no déficit fiscal do país será razoavelmente rápido.

A mídia americana mais voltada para economia repetiu, com insistência, que o problema maior com Mnuchin é a “pressa” com que ele anunciou o plano de mudar a legislação de regulação financeira, estimulada pela gestão Obama , após a violenta crise de 2008.Na primeira entrevista após a escolha, Mnuchin avisou que todas as normas que passaram a regular o mercado financeiro após a crise, eram “demasiado complicadas” e que “restringia o crédito”. Mnuchi foi bem claro: “queremos desfazer partes da lei Dodd-Frank e essa será a prioridade número um”.

A lei Dodd-Frank é o conjunto de regras que coloca limites nos títulos de “crédito podre”. Em outras palavras, a lei que impede que bancos incentivem pessoas que não tem poder aquisitivo a endividarem-se com créditos que não podem pagar, especialmente os imobiliários.

A nomeação de Wilbur Ross, um investidor bilionário, para secretário do Comércio preocupa pela pouca familiaridade com a área. Ross foi o financiador dos empreendimentos de Trump, quando a rede de cassinos do então empresário faliu em 1990. Artigo de Matea Gold, no Washington Post, apontou em detalhes os problemas da “convivência” de Ross, um dos maiores financiadores da candidatura Trump, no comércio internacional

A senadora democrata Elizabeth Warren definiu a indicação de Mnuchin como “um tapa na cara dos eleitores que acreditaram em Trump para sacudir Washington”. A imagem é forte, mas não injusta.

Quem quis acreditou que Trump enfrentaria Wall Street. O maior receio da cúpula do Partido Republicano era quem Trump traria de Wall Street para Washington. Eles estavam certos.

Antônio Correa de Lacerda
O governo Temer obteve ampla maioria na votação em primeiro turno, na Câmara dos Deputados, da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241/2016, que limita a expansão dos gastos públicos pelos próximos 20 anos. A proposta tem encontrado expressiva repercussão e aparente apoio, num autoengano coletivo, muito do qual baseado na visão predominante, um senso comum, de que o Orçamento público funciona como o “orçamento do lar” e de que, na crise, é preciso cortar gastos.

Trata-se de um evidente equívoco, por vários motivos. Primeiro, porque não há razão para o Brasil ser o único país que trate da questão dos gastos públicos mediante emenda na Constituição e por um período tão longo.

Segundo, porque, sob o ponto de vista macroeconômico, é uma insensatez engessar a política fiscal, importante instrumento para a política econômica, sem precisar efetivamente fazê-lo.

Terceiro, porque, especialmente em meio a uma crise internacional e uma recessão interna, os investimentos públicos representam a única saída à vista. Ao contrário do orçamento doméstico, é preciso que o Estado aumente o seu investimento para que os efeitos “demonstração” e multiplicador do seu gasto fomentem o investimento privado.

Assim, há um quarto equívoco importante, que é considerar o investimento no total dos gastos a serem limitados. Vale lembrar, aqui, que esta é a rubrica mais fácil de ser cortada e é o que na prática ocorre quando o governante se vê às voltas com a necessidade de reduzir gastos.

O quinto fator a ser considerado é que, no período de abrangência da PEC 241 – até o ano de 2036 – há uma estimativa de crescimento populacional de 10,1%, um acréscimo de cerca de 20 milhões de pessoas. A população idosa, por sua vez, terá sua participação aumentada dos atuais 12,1% do total para 21,5% em 2036 (dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE). Ambos os aumentos significarão uma maior demanda por serviços de saúde e, evidentemente, previdência. Ou seja, será impraticável atender a tamanha demanda com os mesmos recursos despendidos hoje.

Sexto ponto relevante é o extraordinário custo de financiamento da dívida pública, que tem representado cerca de R$ 500 bilhões ao ano (2015) e para o qual não há qualquer limitação. Apenas a crença de que, com a aprovação da PEC 241, eles serão naturalmente reduzidos.

Alternativas. Neste cenário, é preciso discutir alternativas e levar em conta aspectos importantes no bojo da política macroeconômica: realizar uma profunda reforma tributária, com a simplificação do sistema, corrigindo distorções e ampliando o universo de tributação, e também eliminar a regressividade na incidência do Imposto de Renda, regulamentar a cobrança de impostos sobre herança, tributar lucros e dividendos, entre outros; promover uma reforma administrativa com o objetivo de aumentar a produtividade do setor público, eliminando desperdícios; reestruturar pelos mecanismos de mercado a dívida pública, premiando o longo prazo em detrimento do curto prazo, com isso diminuindo a pressão sobre os juros; promover uma desindexação de preços de tarifas e contratos para diminuir o efeito inercial da inflação.

A resistência da inflação tem sido utilizada como justificativa para as elevadas taxas de juros predominantes na economia. Além de restringir o crescimento, juro elevado também implica maior gasto com o financiamento da dívida, ampliando o déficit nominal e, consequentemente, a dívida pública; e, por último, mas não menos importante, é preciso ter consciência de que é impossível realizar um ajuste fiscal diante de uma recessão. Pelo contrário, é com a economia em crescimento que se geram maior arrecadação e a diminuição proporcional da dívida relativamente ao Produto Interno Bruto (PIB).

Portanto, recriar as condições para a economia voltar a crescer é a prioridade, e isso não vai acontecer automaticamente, ao contrário do que prega o discurso oficial.

Klaus Kleber
O presidente do Banco Central (BC) Ilan Goldfajn deu azar. Justamente na semana seguinte à sua entrevista publicada pela revista Veja (data de capa 16/11), os fatos contradisseram suas declarações. Perguntado sobre se a intervenção no câmbio deve ser usada como instrumento para ajudar o controle de preços, Goldfajn foi enfático ao responder que não. “O câmbio flutuante”, disse ele, “funciona bem para amortecer as oscilações na economia. É um dos pilares do velho e bom tripé macroeconômico: câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e inflação na meta”.

Depois da alta da taxa de câmbio na última semana, fechando o dólar a R$ 3,38, vê-se o tripé está manco. Para evitar que a cotação do dólar superasse R$ 3,40, o BC interveio várias vezes no mercado, pensando, é lógico, no feito que isso poderia ter sobre a inflação.

Pode-se argumentar que esta foi uma situação excepcional. Ninguém esperava que Donald Trump fosse eleito para a presidência dos EUA e nem que a presidente do Federal Reserve (Fed), Janet Yellen, afirmasse com tanta segurança que os juros americanos vão subir em breve. Mas o que se pergunta é se o BC vai continuar intervindo no câmbio, já que o efeito Trump não vai passar e só tende a se agravar?

Claro, o Brasil não tem acordo comercial com os EUA. Mais diretamente afetados serão o peso mexicano e o dólar canadense, se o velho especulador imobiliário, ao pisar na Casa Branca, tomar medidas para afrouxar, se não desmanchar, o Acordo Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA). Pode ser que não consiga fazê-lo de uma só tacada, mas o NAFTA parece tão condenado quanto a Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês). Com uma tarifação extraordinária sobre produtos chineses – durante a campanha falou-se em 45% — estaria declarada uma guerra comercial sem precedentes.

Ainda que isso não aconteça de imediato e que as negociações com a China sejam complicadas pelo volume de aplicações de Pequim em títulos da dívida americana, a simples perspectiva de que uma onda protecionista tome de assalto os EUA já seria motivo para que o real desvalorizasse mais.

Ou seja, estamos apenas no preâmbulo de grandes transformações e Trump fala em investir trilhões de dólares na renovação da infraestrutura nos EUA, o que deve levar o Fed a elevar ainda mais a taxa básica de juros. Nesse quadro, continuaria o BC indefinidamente a intervir no câmbio para forçar a cotação do dólar para baixo?

É oportuno lembrar que, há algumas semanas, quando a cotação do dólar beirava R$ 3,10, o BC não fez nada, deixando o câmbio flutuar. Isso, presumivelmente, seria bom para o controle da inflação. Quando a cotação do dólar subiu, o BC logo esqueceu de um dos pilares do tripé, fazendo lembrar a era dos “swaps” cambiais, um dos maiores erros de política econômica do governo da presidente Dilma Rousseff, segundo muitos críticos.

Outra questão deve ser mencionada. Há quem duvide que a Organização Mundial de Comércio (OMC) sobreviva a uma administração Trump em Washington, mas a Organização continua de pé e está pressionando o Brasil por causa de desonerações fiscais às empresas exportadoras, o que configuraria concorrência desleal.

Se essas desonerações tiverem eventualmente de ser canceladas, a desvalorização do real se tornaria um instrumento ainda mais importante de defesa. Como outros países poderiam se valer do mesmo recurso, a guerra comercial logo descambaria para uma guerra cambial aberta.

Não duvido que a diretoria do BC saiba o que está fazendo e que o Brasil tenha meios para se defender, possuindo, como disse Goldfajn, “reservas cambiais relevantes, câmbio flutuante e sistema financeiro sólido”. Só que a flutuação do câmbio, de acordo com as forças de mercado, parece até agora uma figura de retórica, quando a cotação do dólar sobe.

Claudia Bozzo
Toni Servillo, o premiado ator de “A Grande Beleza” (2013) de Paolo Sorrentino, é o grande astro do cinema italiano atual. E está de volta, em “As Confissões” (2016), sob a direção de Roberto Andò, o mesmo diretor com o qual filmou o interessante “Viva a Liberdade” (2014). E tudo indica que em breve poderemos assistir a um dos primeiros filmes da parceria entre Servillo e Sorrentino, o ótimo “Um Homem a Mais”, de 2001, apresentado na Mostra de Cinema este ano. Mostra que homenageou, com a retrospectiva de suas obras, o italiano Marco Bellochio, autor do cartaz oficial do evento.

“As Confissões”, estabelece uma ponte entre a imaginação e a realidade, como o próprio Andò definiu em entrevista a um site italiano, e o enredo faz uma interessante junção entre a condução da economia global e um thriller no melhor estilo Agatha Christie, ao reunir em um hotel em Heiligendamm, Alemanha, às margens do Báltico, os representantes do G8 e o presidente do FMI. Uma reunião com a receita usual desse tipo de encontro, pois além dos líderes dos países, há uma escritora de livros para crianças, um cantor (referência a Bono, habituée dos encontros do WEF?) e mais surpreendente – e extremamente italiano – um monge, daqueles mais rigorosamente despojados, retirados e ascéticos, interpretado por Servillo.

captura-de-tela-2016-11-20-as-19-08-14

O monge foi convidado pelo próprio diretor gerente do FMI, interpretado por Daniel Auteuil. Andò opta, no seu filme, pelo “uso eloquente do silêncio”. Palavras são de ouro e como nos filmes de mistério, elas servem de pistas para o rumo dos acontecimentos. Depois de um jantar, na primeira noite do encontro, o personagem de Auteuil, Daniel Roché, é homenageado pelo aniversário, e faz um breve discurso, mencionando o economista John M. Keynes, ao citar a parábola da maçã: num gesto teatral, larga uma maçã que cai sobre um copo e o quebra. Em seguida comenta: “para o melhor ou o pior, não somos Deus e não podemos antever todas as consequências de nossos atos”. Aí vem coisa, já se percebe.

Os convites aos personagens “de fora” foram feitos pelo próprio diretor do FMI, que mais tarde revela querer confessar-se, ao dialogar com o monge. Disse tê-lo convidado depois de ler um de seus livros. Com flashbacks, Ricardo Andò nos leva, durante o filme, a mais e mais mistérios, atiçados pelo inesperado suicídio do francês que comanda o FMI. E a grande pergunta é saber o que os levou à reunião, pois insinua-se que seriam adotadas medidas extremamente rigorosas com catastróficos resultados ao mundo. A Grécia é citada mais de uma vez. Alguém menciona mesmo a “destruição criativa”, conceito popularizado pelo economista austríaco Joseph Schumpeter em Capitalismo, Socialismo e Democracia (1942). Com a explicação: “é como um incêndio em uma floresta. Tudo limpo, parte-se do zero para criar uma outra”.

Para não deixar dúvidas sobre as simpatias (ou aversões) de Andò, um dos personagens lembra que no dia antes do suicídio, o diretor do FMI até contou uma piada: “um cardiologista diz ao seu paciente que ele precisará de um transplante. E diz: ‘tenho o coração de um menino de sete anos’. ‘Não, é muito jovem’, responde o paciente. ‘Então tenho o de um gerente de um fundo de hedge, com 40 anos’, diz o médico. ‘Também não, esse não tem coração’. ‘Bom, então tenho o coração de um banqueiro de 70 anos’. ‘Esse eu aceito, pois nunca foi usado’, replica o paciente”.

O filme e seus silêncios prendem a atenção, mesmo sem a mesma vivacidade e originalidade de “Viva a Liberdade”, no qual o secretário-geral de um partido de oposição, Enrico Oliveri, interpretado por Servillo, entediado, contrariado, simplesmente faz as malas e se manda para Paris, em busca do abrigo da amiga e antiga namorada. Seu desaparecimento gera problemas aos assessores, na véspera de importante votação, e estes recorrem ao seu irmão, internado em um hospital psiquiátrico, que não hesita e substituí-lo. Os gêmeos são interpretados pelo sempre brilhante Servillo.

No livro sobre “As Confissões”, editado na Itália com o roteiro escrito por Andò e Angelo Pasquini, o diretor explica seu ponto de vista sobre a economia atual, “que já se configura mais como uma teologia que como uma ciência. Ainda mais agora, depois que a economia foi obrigada, pela crise, a rever seus próprios parâmetros doutrinários, com o declínio de seu papel de oráculo e a série de clamorosos fracassos registrados nos últimos anos.” Andò realizou, portanto, um “giallo” (novela policial, em italiano) econômico-moral. Tese discutível ou válida, o importante é que se trata de obra com denso conteúdo, que não nos foge da cabeça ao sair do cinema e procurar pelo cartão do estacionamento.

Leonardo Trevisan
Donald Trump provavelmente assistiu House of Cards. A dúvida é se entendeu a principal mensagem. O deputado Frank tinha muito mais poder do que o presidente Underwood. Principalmente em termos de transformar intriga em fato. Quem ocupa o Salão Oval tem que fazer o inverso, desfazer a intriga por meio de fatos.

Aqui está o maior problema da era Trump, como a “entrega” das promessas de campanha já demonstra. Não só na hora de montar o governo, mas de se relacionar com o mundo. Este “relacionar” quer dizer, entre outras coisas, por exemplo, comércio. O que significa , dinheiro. Isto, o empresário Trump entende muito bem.

A melhor prova dessa compreensão foi a inesperada visita de ontem do premiê japonês Shinzo Abe a Nova York, o primeiro líder internacional recebido por Trump. Escondido nessa “visita” está a diferença entre intriga e fato na Parceria Transpacífico, o TPP. Na saída do encontro, Abe foi bem direto na avaliação: “como resultado das conversações estou convencido que o sr. Trump é um líder em que se pode ter grande confiança”.

O motivo de tanta confiança do primeiro ministro japonês é bem claro: China! O poder chinês olhou apenas a realidade e observou que as bravatas de campanha iriam custar bem caro e que ela, China, poderia tirar um bom proveito delas.

O TPP, na versão desenhada na era Obama, excluía a China (embora fixasse um tempo para aceita-la) e definia que o mercado das 12 maiores economias asiáticas ficaria muito mais próximo dos EUA do que de Pequim. Por exemplo, o produtor agrícola norte-americano venderia três vezes mais em cinco anos do que vende hoje para essas 12 economias. Em troca, o mercado americano estaria mais aberto para produtos dessas economias asiáticas em detrimento do que hoje é domínio quase exclusivo chinês.

Se Trump levar a cabo essa ruptura do TPP será excelente negócio para a China. Aliás, hoje, sábado, na conferência dos países da Ásia Pacífico, que acontece este ano em Lima, no Peru, a estrela foi o presidente chinês Xi Jinping, como mostrou matéria do site do The New York Times.

A fala de Xi foi claríssima: se Trump quer frear o livre comércio nós seguiremos sem ele, “nós não nos fecharemos, vamos nos abrir mais”. A resposta expressa ao protecionismo americano foi dada por Xi na presença dos 12 líderes dos países que assinaram o TPP.

Em outras palavras, a China já se ofereceu para substituir a liderança americana no comércio mundial. Uma liderança absoluta chinesa na Ásia ameaça em todos os aspectos o Japão. Foi exatamente isso que o primeiro ministro Shinzo Abe foi perguntar a Trump. Não foi por outro motivo que no dia seguinte da vitória republicana a Dieta, o parlamento japonês, sem surpresas, nem vacilações, ratificou por maioria absoluta o TPP.

O Congresso americano, com todos os interesses econômicos representados, fará o necessário para que os produtores americanos não percam mais espaço para os chineses no mundo todo. Especialmente na parte do mundo que mais irá crescer nas próximas décadas, a Ásia.

O discurso público é um, mas a conversa privada com o premiê japonês foi outro, bem outro, motivando a irônica frase de Abe de que Trump é um líder “de confiança”. A realidade do comércio internacional exige fatos e não intrigas, como o “presidente” Frank Underwood também rapidamente descobriu.

Nada é muito diferente no front interno. A nomeação de três conservadores ultra radicais para cargos operacionais, secretario da Justiça, comando da CIA e conselheiro de Segurança Nacional, esconde a difícil escolha do nome do secretário de Estado, algo mais do que o correspondente nosso de ministro das Relações Exteriores. Esses três cargos entregues a radicais extremados “obedecem” diretrizes, enquanto a secretaria de Estado “formula políticas”. E as opera.

Esse é o ponto. Se Trump for “obrigado” a nomear para secretário de Estado Mitt Romney, ex-candidato republicano, critico feroz da hipótese Trump no partido, na prática, estará entregando a formulação de política de volta à cúpula do Partido, ou seja, aceitando o controle do Congresso. A mídia americana especula forte com o nome de Romney. Para tentar conter esta óbvia imagem, antecipou as nomeações operacionais bem radicalizadas.

A conferir nos próximos dias… Sem esquecer que o cargo negado ao “deputado” Frank Underwood foi exatamente esse: o de secretario de Estado. O resto a série contou… Será que o Congresso atual é muito diferente daquele descrito no House of Cards? A conferir … de novo…

Leonardo Trevisan
Decisões políticas envolvendo economia são realmente curiosas. No dia seguinte da vitória de Donald Trump, o Parlamento japonês votou e ratificou a adesão do país ao TPP, a Parceria Transpacífico. Como se nada tivesse acontecido na véspera. Observar a confiança dos deputados japoneses pode ajudar a entender melhor o futuro das relações comerciais do mundo na era Trump. Até de países como o Brasil.

O exemplo do TPP talvez seja o mais significativo de que discurso e decisão são coisas bem diferentes em comércio exterior. Para começo de conversa, a Parceria Transpacífico , que abrange 12 países asiáticos sem a China, abre impressionante possibilidade para produtores americanos em um pedaço do mercado mundial que já compra 42% das exportações do agronegócio dos EUA.

Preservado o TPP, com tarifas tendendo a zero, a curto e médio prazo, exportações agrícolas americanas para a Ásia devem duplicar em cerca de cinco anos. Não será fácil convencer o produtor americano que o discurso de Trump de “sair do TPP” deve virar realidade. De novo: votar no conjunto ideológico das ideias de Trump é uma coisa; perder dinheiro com seu governo é outra bem diferente.

Aliás, o TPP era uma séria ameaça ao agronegócio brasileiro porque criava caminhos abertos e diretos para o produtor agrícola americano em toda a Ásia. O Congresso americano se incumbirá de conter essa proposta de campanha. Por essa razão, por exemplo, os deputados japoneses não alteraram a agenda de aprovar o TPP no day after da vitória de Trump.

É melhor ter cautela, portanto, nos prognósticos de forte ruptura nos grandes acordos comerciais, NAFTA inclusive. As grandes empresas americanas que fizeram enormes investimentos no México tem impressionante poder de lobby no Congresso. O mais provável é que além de impor algumas sobretaxas mais específicas sobre importações, o governo Trump aumente as aberturas de disputas contra parceiros na Organização Mundial do Comércio.

Neste ponto interesses brasileiros seriam mais atingidos. Não necessariamente os agrícolas. Até setembro, o fluxo de comércio entre Brasil e EUA alcançou US$ 39 bilhões, mas só 9% desse volume foi agronegócio. Como os dados da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) mostram, os EUA são o principal destino das exportações dos fabricantes brasileiros. Neste setor as vendas para o mercado americano cresceram 11% neste ano em relação a 2015.

Porém, o “namoro” de Trump com o “cinturão da ferrugem” pode atingir esse espaço conquistado, exatamente com abertura de “disputas”. Apenas bater às portas dos tribunais da OMC já seria suficiente para aquecer o “namoro” com trabalhadores dos setores industriais americanos. E prejudicar bastante os produtores brasileiros.

Em qualquer cenário, o maior fator de risco da era Trump para o Brasil está no setor financeiro, não nas ameaças de protecionismo comercial. Como bem mostra não só a volatilidade do câmbio. Aumentar o déficit, com disposição para gerar inflação como propõe Trump, provocará reação do FED, com maior ritmo de subida de juro. Só esta hipótese fará estragos consideráveis nas economias emergentes.

A percepção de que o Brasil vive certa “solidão estratégica” no mundo deve ficar ainda mais significativa na era Trump. E não apenas pelas oportunidades comerciais que podem diminuir.

Leonardo Trevisan
A descoberta era complicada: apenas uma em cada 5 pessoas da Geração Milênio (nascidos depois de 1985) já tinha experimentado o “sanduiche símbolo” do McDonald’s. Ou seja, o “Big Mac” apresentava sérios problemas de vendas. Pior ainda: a venda de hambúrgueres na rede estagnara, faz três anos, depois de crescer em média 2% ao ano, nas duas décadas anteriores. O que fazer?

Artigo do The Wall Street Journal, assinado por Julie Jargon, mostrou como uma empresa de 61 anos enfrentou esse problema. O McDonald’s não monitorava o que era dito sobre a empresa on line. Em pouco tempo de atenção às redes sociais a empresa descobriu coisas bem simples, por exemplo, o café da manhã terminava cedo demais. Entre outras “queixas”, além do óbvio: consumidores queriam produtos “mais saudáveis”. Este artigo está no endereço: http://www.wsj.com/articles/mcdonalds-turns-to-social-media-to-draw-millennials-1476365404?tesla=y

O impressionante nesse exemplo foi a pressão necessária para que uma empresa deste porte aceitasse conviver com o mundo digital. O caso, portanto, é bem representativo do que a The Economist (edição de 24/10) definiu como a polêmica que mais incendeia, hoje, o mundo dos negócios: a luta entre os “tecno-otimistas” versus os “tecno-pessimistas”. Os primeiros garantem que as máquinas já ganharam e o único problema será descobrir o que fazer com o emprego das pessoas. Os pessimistas rebatem e dizem que a revolução digital entregou o sistema a instituições gigantes, monopolistas, que dão mais valor a “retornos previsíveis do que a iniciativas empreendedoras”.

A Economist lembra, primeiro, o alerta do Prêmio Nobel Paul Krugman de que na última década o mundo eletrônico se preocupou mais em produzir “brinquedinhos” do que coisas essenciais, discutindo estagnação de produtividade. Depois, no outro lado, a revista recorda que o Uber e o Airbnb, por exemplo, promoveram melhorias incríveis em setores importantes (transporte e hotelaria) que há décadas estavam na modorra.

Essa discussão é essencial. A revolução digital não tem o poder de reformar o gosto do Big Mac, mas é capaz de mostrar o que as pessoas querem de “mudança” em qualquer empresa. Este processo é exatamente o mesmo com o desenho futuro das carreiras de qualquer profissional. Bom desempenho é produto de conhecimento e mérito, mas é também indiscutível que a “fila anda” o tempo inteiro com as novas tecnologias. Dessa dupla exigência nem o “eterno Big Mac” escapou.

(novembro 2016)

Klaus Kleber
Chamar de “repatriação” o processo pelo qual foi feita a regularização fiscal do dinheiro mantido por brasileiros no exterior é um exagero. O que o governo desejava era cobrar imposto e multa de quem tinha recursos lá fora, não que a grana retornasse de onde saiu. Segundo foi anunciado no início deste mês, o total chegou a R$ 169,9 bilhões, sobre os quais foram cobrados R$ 50,9 bilhões de Imposto de Renda (IR) e multa.

Pelos cálculos da Receita Federal, as Declarações de Regularização Cambial e Tributária (Dercat), documentos que oficializaram a “repatriação” de ativos mantidos no exterior, alcançaram o equivalente a mais US$ 15 bilhões. Mas, como se viu depois, o mercado calcula que só US$ 8,8 bilhões ingressaram efetivamente no País, ou seja, pouco mais da metade.

Quer dizer, muitos brasileiros com dinheiro no exterior preferiam manter depósitos lá fora, apesar de o mercado financeiro aqui oferecer os melhores rendimentos do mundo. O grosso desse time foi composto por pessoas físicas (cerca de 25 mil); só 103 pessoas jurídicas trouxeram recursos. Isso indica que há milhares de ricos cidadãos brasileiros não têm confiança na evolução da economia brasileira ou estão esperando melhor oportunidade para trazer o dinheiro.

Tudo bem, isso não é ilegal. O processo de “repatriação” poderia até ser elogiado. Apesar das pressões, o prazo final para adesão estipulado pelo governo (31/10) foi cumprido e o secretário da Receita Federal, Jorge Rachid, chegou a se gabar disso, dizendo que os contribuintes tiveram 210 dias para analisar, conversar com seus advogados e fazer sua avaliação; Em seu entender, não haveria necessidade de reabrir o programa.

Contudo, as declarações de Rachid mal tinham sido pulicadas nos sites de notícias, quando o presidente do Senado, Renan Calheiros, anunciou que um projeto vai ser apresentado criando uma nova rodada do programa a partir de 2017. O governo não reclamou, pois o que se prevê é que esse segundo tempo renda, entre IR e multa, mais R$ 30 bilhões para o Tesouro, sobrando um pequeno naco para os Estados e municípios, como ocorreu na primeira fase.

As discussões agora não são sobre as alíquotas do tributo, que deverão ser um pouco maiores e nem sobre a divisão do bolo. Como declarou a secretária do Tesouro Nacional, Ana Paula Vescovi – e depois o ministro da Fazenda Henrique Meirelles confirmou – a parte do leão vai para quitar “restos a pagar”, conta em aberto e relativa a obras paralisadas por falta de pagamento. Nem a secretária nem o ministro disseram que obras são estas.

A grande questão agora é sobre se os “parentes” de congressistas ou ocupantes de cargos no alto escalão do governo poderão trazer o dinheiro que têm lá fora. Desconfia-se que sejam alguns bilhões de dólares, ligados ao caixa dois de campanhas políticas. Suspeita-se, portanto, que o primeiro passo é a aprovação pelo Congresso Nacional de uma anistia da prática do caixa dois de campanhas passadas. o grande tema político do momento. Depois disso, os “parentes” dos políticos poderão trazer a grana – ou mantê-la legalmente lá fora, o que parece ser o mais seguro.

Klaus Kleber
A próxima semana será certamente dominada pelo noticiário sobre os resultados das eleições de prefeitos que foram decididas em segundo turno. Mas há um tema econômico que dará muita margem para discussão nos próximos dias: o resultado final da arrecadação de recursos com a repatriação de capitais. Como é tradicional, muitos brasileiros com dinheiro lá fora deixaram para a última hora para fazer as operações de transferência dos recursos para o País e o prazo se encerra nesta segunda-feira, dia 31, às 23 horas.

Há alguns dilemas no ar. Primeiro é preciso saber qual a fatia do bolo que caberá aos Estados e municípios. As pressões serão grandes sobre o presidente Michel Temer e o ministro da Fazenda Henrique Meirelles para que o naco dos Estados, todos em situação financeira crítica – e, alguns casos, como no Rio de Janeiro em situação caótica — seja elevado. O mesmo vale para os municípios.

Outro problema é o efeito sobre as taxas de câmbio, havendo dúvidas se haverá ou não intervenção do Banco Central (BC) para evitar que as cotações do dólar voltem a despencar.

Segundo os últimos dados divulgados pela Receita Federal, ingressaram, até quinta-feira, dia 27, o equivalente a US$ 133,6 bilhões de recursos repatriados. Entre Imposto de Renda (IR) e multa, isso rendeu aos cofres da União R$ 40,1 bilhão. Vamos supor que o total aumente bastante até o dia 31 e a arrecadação federal alcance R$ 60 bilhões.

Como declarou a secretária do Tesouro Nacional, Ana Paula Vescovi, o governo federal pretende usar os recursos para abater restos a pagar. Como prevê a lei, disse ela, os Estados terão direito a uma participação de 21,5% e os municípios de 23,5%,, mas somente sobre o Imposto de Renda (IR) recolhido, que é de 15%, mas não sobre a multa, também de 15% sobre os valores repatriados.

Esta é a posição da equipe econômica. Contudo, como se noticia, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e um grupo de 11 governadores afinados com o Planalto chegaram a um acordo pelo qual a participação dos Estados e municípios será calculada sobre o recolhimento total, tanto proveniente do IR como da multa. Decidirá o presidente Temer a favor da equipe econômica, cuja política comprometeu-se a respeitar, ou cederá à pressão dos parlamentares e dos governadores?

De qualquer forma, haverá uma injeção de dinheiro na economia, que será bem-vinda para o empresariado. Quitando restos a pagar, o governo dá fôlego a empresas que tocam obras inacabadas por falta de recursos e, com um reforço de caixa, os Estados e municípios poderão cumprir seus compromissos, principalmente com salários em atraso.

E o que fará o BC? Supostamente, a autoridade monetária procurará enxugar uma parte da liquidez adicional ocasionada pela repatriação. Além disso, a entrada de tanto dinheiro em dólares pressionará a taxa de câmbio novamente para baixo. O que se pergunta é se o BC intervirá no mercado de câmbio para segurar as cotações, que podem vir a bater em R$ 3,00 por dólar, ou deixará tudo como está para ver como é que fica?

Leonardo Trevisan
O anúncio era de mais um lançamento de smartphone. Mas, não era bem isso. Na primeira terça-feira de outubro, o Google avisou que estava se reinventando. Na verdade, a empresa comunicava nova estratégia: integrar hard e software no mesmo pacote. Ou seja, celulares, óculos de realidade virtual. Gmail, agenda, Chrone, todos passam a conversar entre si. Quem permitirá isso era o produto mais importante lançado, o Assistente Google.

No “Assistente” está a reinvenção da empresa. Motivo: este soft foi pensado como um jeito novo de resolver problemas. Primeiro do cotidiano, cuidar das tuas músicas preferidas, organizar a compra do mês, até suas finanças. Depois começará a resolver outros problemas. Especialmente, nas empresas.

O ambicioso Assistente é aposta concreta na mistura de “inteligência artificial” com o cotidiano. Este soft não executa apenas o programado. Ele “aprende” a encontrar respostas. Quanto mais é pressionado para buscar soluções melhor treinados ficam seus algoritmos. O conceito essencial do soft é o machine learning, o óbvio, máquina que aprende. Acessível a qualquer smartphone.

Artigo do The New York Times, assinado por Quentin Hardy, avisou: inteligência artificial permitirá que as pessoas “se concentrem no que são boas”. Na prática, o Assistente acumula e analisa o que já se sabe de qualquer problema e indica a “melhor solução”. Nosso dia a dia ficará bem diferente. Nas empresas, a mudança será ainda maior. Exemplo: o soft observará as escolhas anteriores e dirá quando e como a produtividade pode subir. Este artigo está no endereço: http://www.nytimes.com/2016/09/19/technology/artificial-intelligence-software-is-booming-but-why-now.html

Nas empresas, será ingênuo tentar desprezar esta evolução. Antes o Google organizava informações, agora oferecerá soluções. Sem dúvida, muitas profissões que vivem de criar dificuldades para vender facilidades enfrentarão sérios dramas.

A lógica do trabalho, depois do Assistente (ou de seus concorrentes) terá outra dinâmica. Avaliação de desempenho terá outro sentido, além da mera obediência. A relevância de metas aparecerá em tempo real. A evolução das carreiras passa a obedecer outros processos decisórios.

Quem acha que isto é ficção científica deve pensar sobre quanto tempo levou para o “motor de busca” dominar nossa vida. O soft que “resolve problemas” chegará em velocidade bem maior.

(outubro 2016)