Klaus Kleber
Ao se confirmar a hipótese levantada pela Folha de S. Paulo (15/7) de que a turma do Palácio do Planalto já admite que só em setembro haveria quórum de 342 deputados para votar a denúncia por corrupção do presidente Michel Temer, não é improvável que ele saia fortalecido desse imbróglio.

É irônico o fato de que até há alguns dias atrás, o presidente preferia que a denúncia fosse julgada logo na próxima semana, antes do recesso do Congresso, confiante em que teria votos para rejeitá-la. Chegou-se a aventar a possibilidade de que um quórum de 257 deputados, ou seja maioria simples dos 513, poderia ser suficiente para abrir uma sessão tão importante. Mas, como se noticiou, o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, resistiu às pressões e manteve a exigência da presença de 342, o que significa que a denúncia só seria votada em plenário em 2 de agosto, depois do recesso.

Isso, que parecia ser contra os interesses do presidente, agora pode jogar a seu favor. É duvidoso agora o raciocínio de que, se fosse dado mais tempo para votar a denúncia, o presidente estaria sujeito a novas denúncias da Procuradoria Geral da Justiça e do surgimento de fatos novos provenientes de delações premiadas de Lúcio Funaro ou, principalmente, do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha.

Acontece que fatos novos, por mais graves que sejam, não seriam mais incriminadores do que a gravação da conversa do presidente com Joesley Batista no porão do Jaburu. Afinal, os chamados “fatos novos” são mais relevantes do que velhos costumes políticos que o presidente tem usado com tanta mestria? O troca-troca de membros do da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ da Câmara, à custa de liberação de emendas e distribuição de cargos é apenas uma amostra do rico repertório do Jaburu.

A constatação é de que, depois da aprovação pelo Congresso da reforma trabalhista, o compromisso do presidente com as reformas e com a austeridade fiscal é só da boca para fora. O senador Romero Jucá, um dos pilares de sustentação de Temer no Congresso, já fala em reforma “fatiada” da Previdência, o que pode significar manutenção dos privilégios corporativos e aumento do prazo para o trabalhador comum se aposentar. E vêm aí um Refis ainda mais ampliado, com perdão de dívidas e outras concessões já feitas ou por fazer, sempre oriundas de emendas apoiadas pelo mui leal Centrão.

De outra parte, o governo aumenta a aposta na divisão do PSDB. A facção do partido que não quer abandonar o governo parece ter hoje mais força ou mais capital que os que desejam que o partido entregue os cargos que detém, embora não para fazer exatamente oposição. O equilíbrio é difícil com um pé em duas canoas.

Neste sentido é simbólico que, depois de rejeitar o parecer do deputado Sergio Zveiter, a CCJ tenha aprovado o parecer do deputado Paulo Abi-Ackel, do PSDB de Minas. ligado ao senador Aécio Neves. É sabido também que tanto o governador Geraldo Alckmin como o prefeito de São Paulo João Doria, potenciais candidatos ao Planalto em 20l8, não querem saber de Rodrigo Maia na presidência da República, podendo vir a se candidatar pelo DEM em eleições diretas o ano que vem.

E Temer vai ficando…

Claudia Bozzo
Quando o ex-presidente norte-americano Barak Obama visitou a Turquia, seu aliado na Otan, em 2009, foi recebido pelo então primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, atual presidente do país. Ambos visitaram um dos cartões postais de Istambul, a catedral de Santa Sofia e lá deixaram-se seduzir pelo charme de Gli, o gato da basílica. A foto correu o mundo e Gli virou estrela. Meses depois, em visita à mesma catedral, o que mais atraia turistas era o gato: todos queriam fotografá-lo ou tirar uma selfie com ele.

Esse é um símbolo muito forte do amor que os turcos dedicam aos gatos e por Istambul, como dizem os anúncios de “Gatos” (Kedi, gato, em turco), documentário de Ceyda Torun, que estreou esta semana e tem recebido enorme atenção em todo mundo. Só nos Estados Unidos, por exemplo, foi uma surpresa o sucesso nas bilheterias pois rendeu mais de US$ 2,7 milhões. No site sobre cinema, Rotten Tomatoes recebeu um índice de aprovação de 98% e chegou a ser considerado “O ‘Cidadão Kane’ de documentários sobre gatos”, como relata o jornal britânico Guardian.

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Como a proporção de fãs de gatos só aumenta (nos Estados Unidos o número de ‘gatófilos’ duplicou em apenas 20 anos) há uma primeira e simples explicação para o sucesso do filme que traz a narrativa sobre as andanças de sete deles por uma das mais fascinantes metrópoles do mundo. A diretora Ceyda Torun comentou em entrevistas que muito tem mudado no país.

“As pessoas estão deprimidas e ansiosas… tentam mostrar resistência frente aos acontecimentos, mas é realmente difícil: há uma espécie de nuvem pairando sobre todas as coisas. Tudo aconteceu de forma distante enquanto filmávamos, no verão e 2014. Charlie (Charlie Wuppermann, cinegrafista e parceiro na empreitada) e eu debatíamos todo dia se era defensável fazer um filme sobre gatos, ao mesmo tempo em que ocorriam os problemas dos refugiados sírios ou as rebeliões no país. São tópicos muito importantes a serem explorados, mas ao mesmo tempo exigiam uma perspectiva que não tínhamos condições de prover na ocasião”, conta a cineasta, que viveu em Istambul até os 11 anos e atualmente mora em Los Angeles.

O que ela pretendia era “escrever uma carta de amor à cidade e aos gatos. Com o documentário eu podia imortalizar a beleza de Istambul – essa é a minha forma de resistência”.

Ela escolheu os gatos de rua que resumem as características: independentes, com personalidade, cada qual com sua típica atitude felina. Alguns não sobreviveram nos últimos anos, mas como conta Ceyda Turon, “outros são resistentes e jamais morrerão. Psikopat é um deles. Gamsiz vai muito bem, embora o padeiro que o alimentava tenha mudado”.
 
A cidade, que é a união de dois continentes, com o Bósforo cortando-a no meio, tem uma intensa atividade pesqueira e é de lá que vem boa parte da alimentação que os gatos recebem. Existe ainda o fato de os muçulmanos reverenciarem os felinos: há múltiplas referências de que o profeta Maomé tinha o seu gato. Segundo a diretora, a população, que era de quatro milhões em sua infância, supera os 20 milhões atualmente.

A paixão vem de longe. Para filmar “Zedi” foram entrevistadas muitas pessoas, entre elas escritores, poetas, cientistas e arqueólogos. Um zoólogo mostrou um esqueleto de gato com 3.500 anos, encontrado durante a escavação do novo túnel sob o Bósforo. Foi possível verificar que ele tivera uma pata quebrada, que só sarou porque certamente um humano a enfaixou, cuidando dele. O filme, com apenas 79 minutos, conta ainda que muitos dos gatos chegaram à cidade a bordo de navios, onde tinham a missão de controlar a população de ratos. Também são entrevistadas pessoas que cuidam de inúmeros gatos e o pescador que sai para seu trabalho na companhia de quatro deles.

Mas esse não é o único filme sobre felinos à vista. Depois do tolinho “Virei um Gato” (2016), com Kevin Spacey, há o britânico “Um Gato de Rua Chamado Bob” (2016) de Roger Spottiswoode, que entre muitas outras películas, entre elas um 007, em 1989 dirigiu o ótimo “Uma Dupla Quase Perfeita”, no qual Tom Hanks interpreta um policial, encarregado de cuidar de um cachorro cujo dono foi assassinado. O gato chamado Bob é sobre um rapaz, viciado em drogas, que tocava em esquinas de Londres para conseguir uns trocados que alimentassem seu vício. E ao passar a se apresentar ao lado do ruivinho Bob virou um sucesso de público, foi parar na internet, virou livro e filme também.

Leonardo Trevisan
Se existia, a dúvida sumiu. Automação e vida profissional viraram complementos. A prova mais consistente da velocidade dessa “mistura” aconteceu agora no setor bancário. Os dois maiores bancos privados do País sinalizaram significativas alterações na sua prestação de serviço. E no ritmo de startup.

A essência da mudança não é a automação ou a digitalização. Esta é só a ferramenta. Em maio, o Itaú comprou a XP Investimento, uma corretora, que opera como shopping. Por contrato, a gestão da XP permanece independente. Muita gente notou a “desbancarização”, isto é o Itaú comprou um negócio que quer tirar o banco do “meio campo” dos investimentos.

No começo de junho o Bradesco lançou o Next, um banco 100% digital. Com aviso explicito: o Next não pode ser contaminado pelos “vícios” dos grandes bancos.

Os dois movimentos têm o mesmo sentido. O banco digital terá função bem complexa: se envolver, de forma intermitente, na vida dos usuários. Com outro alvo: o correntista sabe que não há intermediário. Seja qual for o serviço pretendido, o contato (ou a “solução”) será direta, sem “meio campo”. Automatizada enquanto operação. Digital enquanto ferramenta.

A lógica dessa nova forma de prestação de serviço bancário é diferente da anterior, mediada por influência humana operacional. É a mesma lógica de serviço, por exemplo, do Google, Amazon ou Netflix. Quando se quer uma informação, comprar qualquer coisa, ou consumir lazer em uma tela, não se consulta ninguém, não se espera permissão, nem tem hora definida. Sumiu o “meio campo” que fazia isso.

O novo formato do serviço bancário foi nesse caminho. E irá se inserir, cada vez mais, na vida do usuário. Como todas as gigantes da internet já fazem.

Discutir automação no mundo do trabalho exige entender esse movimento. Quem se apegar a lógica de continuar a ser o “intermediário” vai sofrer. Na era da automação, pensar carreira exige outra “atitude mental” sobre o que é aprender, criar e superar dificuldades. É exatamente isso que quer dizer transformar emprego em “plataforma de negócio”.

Por culpa da internet, ganhar a vida vendendo “meio campo” entre oferta e consumo, seja do for, está no fim. Como dois negócios, do tamanho do Itaú ou do Bradesco, já descobriram.

(junho 2017)

Klaus Kleber
Mais que a recomendação do ex-presidente Fernando Henrique para que o presidente Michel Temer renunciasse ao seu mandato, tiveram mais repercussão as declarações do senador Tasso Jereissati sobre “ingovernabilidade” do País e o anseio geral de “estabilidade” que viria presidente da Câmara, Rodrigo Maia, passasse a despachar no Palácio do Planalto em lugar do peemedebista.

Não porque Jereissati é presidente em exercício do PSDB, mas porque ele é um rico empresário e falaria também pela sua classe. Pelo sim, pelo não, o fato que, enquanto permanece a incerteza, as chamadas lideranças empresariais vêm aproveitando para tirar suas lascas da fraqueza do governo.

Ninguém na equipe econômica, nem o ministro Henrique Meireles, chiou com a decisão da comissão mista da Câmara dos Deputados de modificar a MP 774, pela qual teria fim em 1º de julho a desoneração da folha de pagamento, benefício concedida em 2011 no governo da presidente Dilma Rousseff a um monte de setores empresariais, exatamente 56.

Agora, a desoneração só vai começar a partir de 1º. de janeiro de 2018, excetuados cinco setores em que será mantido o critério de dobrar a contribuição previdenciária sobre o faturamento. Com isso, o governo vai deixar de arrecadar R$ 8 bilhões no restante do ano.

Certamente foi uma derrota do governo Temer e mais uma vitória do lobby de entidades empresariais, que falam em reformas da boca para fora, mas cuidam sobretudo de manter antigos privilégios. Foi o mesmo lobby que derrubou Maria Sílvia Bastos Marques da presidência do BNDES, acusada de ter “fechado” a burras da instituição, embora os empréstimos da instituição para as empresas de menor porte tenham aumentando 200% nos cinco primeiros meses deste ano.

Para seu lugar foi designado o economista Paulo Rabello de Castro e, segundo se comenta, a equipe econômica não gostou. Agora sabemos por que. Dois diretores do BNDES, economistas também de renome, pediram demissão na semana passada por divergência com Rabello de Castro.

A briga não se deu por questões bizantinas que tanto dividem opiniões de economistas. É muito simples: Maria Sílvia é tinha decidido substituir, depois de um período de transição, a Taxa de Juros a Longo Prazo (TJLP), fixada a cada trimestre pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), pela Taxa de Longo Prazo (TLP), que seria baseada na taxa de juros de títulos do Tesouro NTN-N.

Rápido e rasteiro, o lobby fez lá suas continhas e concluiu que isso constituiria uma pisada no calo mais sensível dos empresários. Isso porque a TJLP está em 7% a.a. para o trimestre janeiro/setembro deste ano, o que e uma bondade em face das taxas que os bancos vêm cobrando em suas empréstimos normais.

Com a modificação proposta pela equipe de Maria Sílvia, a TLP seria, mais ou menos, igual à taxa básica de juros fixada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, atualmente em 10,25%. Ainda seria uma taxa caridosa, mas, alegadamente, representaria “aumento de custos”, embora Selic esteja com tendência de queda, o que se refletiria na TLP.

Bem falante, Rabello de Castro é capaz de falar duas horas para justificar sua decisão. Só não dirá os nomes dos empresários que foram lá cochichar no seu ouvido sobre as inconveniências da TLP.

Claudia Bozzo
“Perdidos em Paris” é certamente uma das melhores comédias dos últimos tempos. Claro, não é para público de chanchada, ou que gosta de diálogos e situações rudes, escatológicas e vulgares. É exatamente o contrário de tudo isso. E é um refresco em época de férias escolares, com os cinemas atolados em blockbusters.

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Fiona Gordon (canadense) e seu marido Dominique Abel (belga), juntos há 40 anos, criam o roteiro, atuam e dirigem seus filmes, dois deles já exibidos no Brasil. Foram “Rumba”, de 2008, sobre um casal de dançarinos que enfrenta uma tragédia, mas mantém o ânimo e a poesia e “Iceberg” de 2005, que conta a história da gerente de um fast-food que uma noite fica presa por acidente no refrigerador do restaurante e percebe no dia seguinte que ninguém se deu conta de sua falta. Há outro filme do casal, “A Fada” (“La Fée”, 2011), que pode ser visto em versão integral com legendas em espanhol no YouTube.

Ambos são também atores de teatro e explicaram em entrevista a uma emissora francesa que no palco, o riso e as reações da plateia funcionam como música, e é no seu ritmo que eles seguem. No cinema, vão pela intuição, muitas vezes no improviso, com dois pés no surrealismo e sempre dá certo. Impossível não se enternecer com “Perdidos em Paris”.

Fiona, bibliotecária no Canadá, recebe uma carta da tia, que mora em Paris e pede ajuda, pois há quem queira colocá-la em um asilo. “Imagine, tenho apenas 88 anos” conta a tia, Martha, interpretada por Emmanuelle Riva, que foi indicada para um Oscar por sua dramática participação em “O Amor”, ao lado de Jean-Louis Trintignant, falecida este ano, dois meses após o lançamento do filme na França.

Fiona parte em busca da tia, com sua imensa e desajeitada mochila mas há um desencontro, pois Martha quer se esconder para não ser conduzida pela assistência social a um asilo. Nesse desencontro ela conhece Dom (Dominique Abel), um vagabundo de bom coração, que vai ajudá-la, de forma canhestra, a encontrar a tia. Outro par é formado, quando a tia conhece Duncan, interpretado pelo talentoso cômico francês Pierre Richard, nas telas desde 1958. Os dois veteranos atores interpretam uma das mais belas cenas do filme, ao formarem dupla numa delicada dança num banco. Com Fiona e Dominique, formam um quarteto irresistível.

Conhecidos na França como Abel e Gordon, os dois atores reinventam o burlesco ao optarem pela comédia física e homenageiam ícones como Jacques Tati, Chaplin, Harold Lloyd, o mímico Marcel Marceu, entre tantos outros, sem jamais se afastarem do bom gosto, da ironia e sutileza. Outra das belas cenas é Fiona sendo conduzida… por um cego, até o consulado canadense, a fim de conseguir novo passaporte, pois perde a mochila nas águas do Sena.

“Perdidos” é desses filmes que deixam o espectador leve, e o riso no cinema acaba sendo contagiante. E comprova que fazer humor é mesmo muito difícil. Afinal, são tão raras obras simpáticas e comoventes como essa, que não dá para deixar passar.

Klaus Kleber
O presidente do Banco Central, Ilan Goldfjan declarou há pouco que o Brasil está hoje menos vulnerável a crises internas e externas. Isso só é verdadeiro com relação ao setor externo. Não é possível abstrairmos da crise política, mas a sinalização do BC quanto ao ritmo de atividade de da economia doméstica até o fim do ano vai depender da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), em reunião marcada para os próximos dias 25 e 26 de julho.

Nesta encruzilhada em que nos encontramos, se o Copom reduzir a taxa básica de juros em 0,75 ponto percentual, já teríamos uma taxa de um dígito (9,50%), o que é alguma coisa, mas ainda frustrante. Se, porém, houver coragem para baixar a taxa em um ponto percentual, trazendo-a para 9,25% a.a., baseando-se no fato de que o IPCA está em 3,60% nos últimos 12 meses terminados em maio, não seria otimismo demais acreditar em um crescimento do PIB este ano superior talvez a 0,5%, apesar das trapalhadas políticas.

Aí, sim, o presidente do BC poderá se gabar de evitar que o país resvale novamente para a recessão. Quanto ao desempenho excepcional das contas externas, é um resultado que não pode ser creditado à autoridade monetária. Foi graças a uma safra agrícola recorde que as exportações deram um salto de quase 20% de janeiro a maio, alcançando US$ 87,712 bilhões em comparação com US$ 73,175 bilhões no mesmo período do ano passado.

Se os manufaturados e semimanufaturados tiveram algum respiro foi por causa da taxa de câmbio, que estacionada por muito tempo em R$ 3,10 por dólar, gira hoje em torno de R$ 3,30, a despeito das repetidas intervenções do BC via swaps para conter a elevação das cotações.

O real se desvalorizou, como muitos economistas recomendavam, mas isso não foi por decisão do BC, apesar da retórica de manutenção do câmbio flutuante E, bem ao contrário que seria de esperar, a desvalorização do câmbio não teve um efeito prejudicial ao combate à inflação que continua caindo, a ponto de encorajar o BC a baixar o centro da meta da inflação para 4,25 em 20l8 e a 4% em 2019, com três pontos percentuais para cima ou para baixo.

Em contraposição à disparada do superávit comercial que alcançou US$ 27,973 bilhões de janeiro a maio, a conta de serviços não estourou, ficando o déficit em US$ US$ 12,359 no período considerado, um avanço pouco significativo em relação a 2016 (US$ 11,220 bilhões), isso se deve a uma economia em recessão.

A constatação é de que as projeções do BC quanto ao comportamento do balanço de pagamentos parecem agora mais furadas do que nunca. Nos cinco primeiros meses deste ano, o déficit em transações corrente ficou em magérrimos US$ 616 milhões, dez vezes menor em comparação com US$ 5,998 bilhões no mesmo período do de 2016. Apesar desse fenômeno, o BC projeta um déficit em conta corrente de US$ 24 bilhões em 2017, o que é um exagero.

De qualquer forma, o Brasil hoje tem um escudo mais forte para resistir à vulnerabilidade externa. Isso é bom, mas não responde aos anseios da população.

Claudia Bozzo
Nicole Garcia, a diretora do delicado, denso e sensível “Um Instante de Amor”(2016), já exibido na Mostra Varilux e agora em circuito normal teve, como atriz, mestres diretores como Bertrand Tavernier e Alain Resnais, com o qual fez o já clássico “Meu Tio na América” (1980). Já o seu prestígio como diretora permitiu-lhe ter em suas histórias atores como Catherine Deneuve e Jean-Pierre Bacri (“Place Vendôme”, 1998), Daniel Auteuil e François Cluzet (“O Adversário”, 2002) Gérard Lanvin e Jean Marc Barr (“O Filho Preferido”, 1994). E agora Marion Cotillard. Em “Um Instante de Amor” ela interpreta Gabrielle, uma instável e enigmática jovem.

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Bela, elegante, inteligente e talentosa são características que definem as duas, diretora e atriz, mesmo que algumas décadas de idade as separem. No momento, Cotillard é uma das mais requisitadas em vários países, e tem no currículo um Oscar, um Bafta e um César por seu papel em “Piaf: Um Hino ao Amor”, de 2007 e outros 75 prêmios. Foi indicada de novo ao Oscar por interpretar uma combativa trabalhadora, prestes a ser demitida, em “Dois Dias, Uma Noite” (2014).

No papel de Gabrielle, Cotillard traz uma intensidade que choca, ao passar do desejo praticamente irrefreável a um distanciamento misterioso e incompreensível, uma espécie de melancolia. De forma espontânea e imprevisível. O filme é baseado no livro ‘Mal de Pierres’ de Milena Agus, e Nicole Garcia explicou, em entrevista dada em Cannes, quando o filme foi exibido que “foi a própria natureza da personagem, mulher feita desejo que não se reprime e reza a Jesus pedindo que lhe dê ‘la chose principale’. A expressão mexeu comigo. Essa coisa é o sexo, mas também é sagrada. Nós, mulheres, não somos estimuladas, na vida social, a externar nosso desejo, e menos ainda dessa maneira franca e direta.”

Vivendo no campo, em meio a plantações de lavanda, com os pais e a irmã, uma família tradicional e católica, na década de 1950, ela cria constrangimentos que levam sua mãe a sair em busca de um marido que lhe traga a desejada contenção. E o casamento é acertado como se fora um negócio, com o pedreiro José (interpretado pelo catalão Alex Brundemühl, que em 2013 fez o papel de Joseph Mengele em “O Médico Alemão”). Gabrielle alerta o marido de que não terá intimidade com ele e ainda indaga se isso será um problema. “Não”, ele responde. “Há outras mulheres para isso”.

A construção do filme é bastante interessante. Começa com Gabrielle, José e o filho, no banco de trás, dirigindo-se para um concurso de piano em Lion, quando ao passar por uma rua ela nota um endereço. Desce do carro e diz aos dois que sigam, ela os encontrará depois. Há um corte e voltamos à história da jovem, que sofria de dores definidas como câimbras pela mãe.

Já casada, ela vai ao médico, que lhe recomenda uma internação em clínica na Suíça, para tratar-se de ‘mal de pierres’, ou pedras nos rins. O local é o mesmo retratado no livro de Thomas Mann, A Montanha Mágica, escolhido porque na França todas as instituições desse tipo foram renovadas e essa mantém a arquitetura original. Lá ela conhece O tenente André Sauvage (interpretado por Louis Garrel), também em tratamento e vindo da Indochina. Do interesse ela rapidamente passa à paixão e ao amor sem freios.

Nicole Garcia explicou em entrevista o que representa a história para ela: “para mim o cinema está conectado à imaginação. A imaginação tem a função de consertar as coisas que não funcionam na vida. Isso é cinema para mim e é o que a imaginação faz por Gabrielle”. É uma bela explicação para o final escolhido. E uma boa notícia: um filme francês sem final em aberto….

Klaus Kleber
Não é a primeira vez nem será a última que autoridades monetárias, quando cogitam de tomar medidas impopulares, lançam balões de ensaio para testar a reação do público. Se os protestos forem muito fortes, os governantes põem a viola no saco, desistindo da medida, ou então propõem algo mais disfarçado.

À primeira vista, este é o caso da medida “em estudo” de parcelar a liberação para saque do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), bem como da multa de 40%, em caso de demissão por justa causa de trabalhador com carteira assinada. Ninguém apoia esse confisco a prazo, nem mesmo aqueles que são a favor da política de ajuste fiscal, tal como o atual governo tem procurado implementar.

Como muitos têm assinalado, o FGTS é dinheiro do trabalhador e constitui uma reserva que ele pode usar para enfrentar as agruras do desemprego ou para adoçar sua aposentadora, muitas vezes forçada, na era dos Programas de Demissão Voluntária (PDVs).

Além disso, há uma motivação política forte contra essa medida sacana. Em uma fase em que o exército de desempregados está na casa dos 14 milhões e pode aumentar até o fim do ano e no momento em que a aprovação do governo do presidente Temer cai a 7%, a menor taxa de qualquer presidente em 28 anos, uma medida como essa parece suicídio político.

Parlamentares que pretendem buscar a reeleição e que ainda fazem parte da base de apoio ao governo serão chamados a explicar aos eleitores uma medida inexplicável como esta, que faz recair sobre as costas do trabalhador o ônus de ajudar o governo a cumprir a meta do de um déficit primário de R$ 139 bilhões este ano.

Por todos esses motivos, o passa-moleque proposto no FGTS – “de uma insensibilidade social infinita”, como disse o senador José Serra — é mais que um simples balão de ensaio. Na realidade, embora o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, diga que a medida está sob análise técnica, o governo nunca cogitou seriamente de tomá-la. O que o governo está tentando fazer é dar um enorme blefe.

Com a arrecadação tributária em queda e sem esperanças de revertê-la, principalmente em face do agravamento da crise política, a equipe econômica não desistiu de manter o déficit primário dentro da meta. Como não é aceitável mexer no FGTS, o que o governo vai fazer é aumentar a carga tributária e, para sermos factuais, o ministro Meirelles nunca negou a uma medida como esta, se ela se fizesse necessária.

Aumentar a tributação sobre as grandes empresas está fora de questão, principalmente em um momento em que o governo luta para dar fim às desonerações concedidas no governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Essas desonerações, cujo impacto sobre a atividade econômica foi pífio, devem acabar em 1º. de julho, se o governo conseguir evitar que o fechamento essa válvula de escape seja prorrogado para 2018, como querem empresários e seus aliados no Congresso.

Fazer reforma tributária também não é viável. Tudo considerado, as micro, pequenas e médias empresas, portanto, que se cuidem para não serem elas as vítimas da blitz fiscalista.

Claudia Bozzo
“Uma Família a Dois” (2016), o filme francês já exibido no Festival Varilux, que entra em cartaz esta semana, é um caso raro no cinema francês. Embora à primeira vista pareça ser o remake do ótimo “Kramer Versus Kramer”, de 1979, dirigido por Robert Denton e tendo Dustin Hoffman e Meryl Streep, suas origens são mais singelas. É um remake sim, mas de um filme mexicano de 2013, “No se aceptan devoluciones”, de Eugenio Derbez. 

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Promete grande bilheteria, pois traz como chamariz o companheiro de François Cluzet em “Os Intocáveis”  –  a história do milionário quadriplégico que reencontra o prazer de viver graças ao seu irreverente cuidador, no caso, Omar Sy. Esse filme fez grande sucesso na França em 2014 (quando tornou-se o mais rentável do cinema francês e rendeu um César de melhor ator a Omar Cy). 

O diretor de “Uma Família a Dois”, Hugo Gélin, vem da aristocracia cinematográfica, pois é neto de um dos mais famosos atores do país, Daniel Gelin. Também é autor do roteiro de “A Gaiola Dourada”(2013) sobre um casal de portugueses, que durante 30 anos vive em um elegante prédio na capital francesa e decide então retornar à terrinha. Lançado no Brasil em 2014.

A narrativa de “Uma família” tem toques edulcorados e é descaradamente melodramática ao contar a história do folgado e festeiro Samuel que ao acordar com fortes batidas à porta acaba recebendo um bebê de uma bela jovem (Clémence Poésy) bem no estilo “toma que o filho é seu”. Ela ainda lhe pede dinheiro para pagar o táxi. Por esse caminho, lembra outro filme francês, de alta qualidade, “Três Homens e um Bebê” (1986, de Colie Serreau), que também rendeu remakes, como o norte-americano, e uma continuação, “18 Anos Depois” (2003), da mesma diretora e com o elenco original. 

Samuel, todo inseguro para cuidar da filha Gloria (Gloria Colston), sabendo que a mãe (Kristin) partira para Londres, vai à sua procura, tentando devolver a bebê. Não a encontra, é claro, mas torna-se um dublê de sucesso, ganha muito dinheiro e dá à filha um elevado padrão de vida na caríssima Londres, graças à amizade com Bernie (Antoine Betrand) que lhe abre muitas portas na cidade. Um pai ideal, uma filha perfeita, amigos leais, uma escola perfeita. Precisa mais para retratar a felicidade? 

Sim, a bruxa malvada, que vem na figura da mãe, acompanhada do namorado, pedindo a guarda da filha. O filme derrapa em todos os clichês possíveis, incluindo a interpretação de Omar Sy, bem “over”. Ele está bem em “Chocolate” (2016) e “Samba“ (2014) e seu currículo inclui incursões em blockbusters. Mas essa família de dois deve ser evitada por diabéticos. E também por quem gosta de um pouco mais de sutileza.

Klaus Kleber
Está cada vez mais difícil escrever sobre a conjuntura econômica no País enquanto não se resolve o problema político-institucional. Em sua maioria, os analistas políticos acreditam que o presidente Michel Temer sobreviverá à denúncia do procurador-geral da República, que deve ser apresentada à Câmara nos próximos dias. Talvez ainda durante a viagem que presidente fará, a partir desta segunda-feira, à Rússia e à Noruega. Talvez logo depois.

Mesmo que Temer continue no Planalto, a expectativa é de que tenderá a ceder às pressões do Congresso e dos empresárias para se manter no poder. Virou moda falar-se em “sarneyzação” de Temer de ora em diante — e o termo foi lançado por Mailson da Nóbrega, que como se recorda, foi ministro da Fazenda e o responsável pela política do “feijão com arroz” nos estertores do governo de Sarney.

É verdade que, como mencionou Mailson (Estadão, 11/6) não temos hoje crise do balança de pagamentos – as exportações vão muito bem e têm entrado capital estrangeiro em bom volume e a inflação está em baixa. Mas, simplesmente, o atual governo será obrigado a desistir, na prática, à sua política de austeridade fiscal e de ambiciosas reformas.

Quem dá um tostão furado pela manutenção da MP 774, de março e que deveria acabar com as generosas desonerações fiscais concedidas em 2011 pelo governo da ex-presidente Dilma Rousseff? Se a MP não for aprovada até lá pelo Congresso – e há o recesso parlamentar no meio — perderá validade.

Com isso, segundo se tem afirmado, Temer ganha pontos com o empresariado, que está jogando duro, ameaçando demitir ainda mais se não continuar a desoneração “ad infinitum” da folha de 50 setores industriais.

O problema é sério porque a arrecadação federal persiste em queda, apesar de um sopro de alívio no ritmo de atividade. Indo a MP 774 pro brejo, o governo deverá deixar de arrecadar R$ 4,8 bilhões entre agosto e dezembro. Junto com outra “bondades” que o governo vem fazendo, com tendência a aumentar, como fica a meta de déficit primário do setor público consolidado em 2017, fixada em R$ 143,1 bilhões?

É curiosa também uma notinha de pé de página da Folha de S. Paulo: a reforma trabalhista seria aprovada pelo Senado da forma que saiu da Câmara. Mas Temer pretende corrigir algumas distorções da nova lei trabalhistas. Entre estas, estaria prorrogar a cobrança o imposto sindical por mais três ou quatro para dar tempo aos sindicatos se reajustarem… Com essa prorrogação malandra, à qual se seguiriam certamente outras, Temer também ganhará pontos com os pelegos.

Sim, o presidente cada vez mais fraco vai ganhando pontos para continuar como Sarney sentado na cadeira presidencial.