Leonardo Trevisan
Na véspera da posse de Donald Trump na presidência dos EUA o mundo ficou tomado por outro tipo de curiosidade. Bem diferente da característica destes momentos. Por exemplo, em Davos, no Fórum Econômico Mundial, o ponto comum de políticos, empresários, economistas, banqueiros não é a sensação de mudança com todos os riscos inerentes. Isso todo mundo sabe.

A questão que mais intriga é a velocidade dessa mudança. A lógica é simples: se as mudanças acontecerem de modo mais suave, de forma mais distribuída no tempo, os impactos serão menores. Não só em Davos, óbvio, mas especialmente lá, todos percebem que a vitória de um pensamento mais conservador em política e muito antiglobalização em economia está apenas começando.

O que se esperava é que a velocidade dessa mudança fosse algo controlada. Não é o que parece. Os primeiros sinais não foram de ritmo moderado na consolidação dessa vitória. O tom belicoso de Donald Trump – em todas as direções – foi só o aviso. O exercício prático dessa vitória ficou por conta da primeiro ministro britânico, Theresa May. O anúncio que ela fez anteontem sobre o formato que terá a Brexit é para não deixar qualquer dúvida sobre a velocidade escolhida para impor as mudanças no ciclo de globalização que o mundo vive desde o começo dos anos 90.

Quem exigia definições de Londres, sobre o ritmo da Brexit, já as encontrou. E não foram as mais agradáveis. Artigo do El País fez interessante classificação em 12 pontos do formato com que a Inglaterra pretende ativar o Artigo 50, que regula a saída do Tratado da União Europeia.

Primeiro, é a ostensiva declaração de May: o Reino Unido fala de uma posição de força. Custe o que custar, Londres quer de volta o “pleno controle”, ou seja, denuncia a jurisdição do Tribunal de Justiça Europeu. Em outras palavras, a livre circulação de capitais, mercadorias, serviços e pessoas (base da UE) terá o entendimento que o governo inglês quiser dar. Ponto!

E de forma imediata. A frase de May tira qualquer dúvida dos limites da negociação: “para o Reino Unido é preferível que hão haja qualquer acordo do que ocorra um mau acordo”. É neste contexto que Londres avisou: abre mão já do mercado único europeu (500 milhões de consumidores) porque quer resolver “o quanto antes possível” a questão dos direitos dos estrangeiros no seu território nos termos da legislação inglesa e não europeia. Isto é, Londres está disposta a pagar já, sem negociação, os custos de perder mercado para manter essa soberania anti europeia.

Na prática, May impôs condições que definem a não negociação da Brexit. Instantânea. Cabe a União Europeia só aceitar ou recusar. Sem muita conversa. O ritmo da Brexit será este. O artigo do El Pais mostra como os 12 pontos, incluindo o que será da Escócia e da Irlanda sem Europa, já estão definidos. Este artigo está no endereço:

http://internacional.elpais.com/internacional/2017/01/17/actualidad/1484670601_895879.html

É neste contexto que um dia antes de Theresa May ditar as regras de uma Brexit “feroz”, Donald Trump, definiu a OTAN (a aliança militar ocidental) como “obsoleta”, antecipou que outros países devem seguir o exemplo inglês e deixar o bloco europeu e, sem qualquer freio diplomático, disse que a chanceler alemã, Angela Merkel, cometeu “erro catastrófico” ao aceitar que um milhão de “ilegais” entrassem na Alemanha. Dois jornais conservadores europeus (Bild alemão e Times inglês) foram escolhidos para ouvir Trump afirmar: “para os EUA não tem nenhuma importância e não me interessa se os europeus estão unidos ou não”.

As mudanças antiglobalização terão um ritmo bem apressado. Motivo: deter, pela surpresa, qualquer reação do outro lado. A lógica dessa velocidade é a de criar o “fato consumado”. No caso da Brexit essa pressa tem a ver com inibir a reação do parlamento. Ontem, os parlamentares ingleses – inclusive do partido Conservador de May – queriam saber se a Casa será ouvida ou não para discutir a proposta de saída inglesa da União Europeia.

Tem mais. Em dezembro a Justiça inglesa deu razão a um grupo de cidadãos que reclamou o básico: foi o Parlamento que colocou o país na União Europeia, portanto, só ele a retira. Thereza May recorreu à Suprema Corte britânica. O resultado dessa decisão será divulgado em 24 de janeiro. Todos sabem que a Brexit não tem maioria no Parlamento, inclusive entre os conservadores. O motivo da pressa é esse: fazer valer o referendo antes que o eleitorado perceba bem o que a decisão significa economicamente.

Na verdade, nada é muito diferente na “pressa” de Trump. Matéria do Financial Times, assinada por Barney Jopson, publicada em 17/01, mostrou o grau de divergência da bancada dos Republicanos no Congresso quanto às ideias mais radicais do presidente eleito. O modo pouco ortodoxo de fazer declarações bombásticas , via twitter, visa derrubar ideias e movimentos nos quais os deputados e senadores republicanos trabalharam por meses.

A rejeição de Trump das propostas de reforma tributária dos republicanos é o ponto mais forte de discórdia entre o presidente e o Congresso. O artigo do FT mostra o quanto a ideia de Trump de “ajuste tributário na fronteira” prejudicaria , por exemplo, propostas de redução do imposto de renda, que os republicanos tanto prometeram aos eleitores. A violência das palavras de Trump e a pressa na execução de certas medidas radicais visa “avançar” rápido para dobrar essa resistência.

O mundo, principalmente quem está em Davos, percebeu bem o perigo dessa pressa. O jogo de criar “fatos consumados” para impor decisões nunca deu muito certo. Nem para os interesses da maioria das pessoas, muito menos para os negócios.

A pressa na imposição do pensamento conservador mais radical – em política e em economia – embutido na Brexit e na vitória de Trump, para ficar no começo da conversa (este ano teremos eleição na França, Alemanha, Holanda e possivelmente Itália), pode custar caro. Bem caro. Por isso a curiosidade com Trump não está nas mudanças prometidas, bem conhecidas, mas na velocidade delas. E com toda razão.

Klaus Kleber
A primeira semana de 2017 foi uma das mais trágicas da história do Brasil. O morticínio nos presídios de Manaus e Roraima dominaram o noticiário e ao que parece isso não deve acabar tão cedo (leio que, no último semana mais quatro presos foram massacrados em Manaus encontraram presos mortos e enterrados em prisão de Roraima). Diante desse verdadeiro genocídio, desencadeado por fações criminosas, o governo federal demonstrou uma insensibilidade quase inacreditável.

O presidente Michel Temer, só quatro dias depois do primeira matança achou que deveria se pronunciar e o fez de forma medíocre, enquanto seu ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, dava declarações desmentidas pelos fatos sobre a ajuda federal em uma crise anunciada.

Enquanto isso, foram divulgados previsões deprimentes sobre as possibilidades de crescimento da economia este ano. Alguns esperam que, na próxima quarta-feira, dia 11, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) possa dar uma injeção de ânimo no País se baixar a taxa básica de juros de forma significativa. Chegam a falar em uma redução de 0,75 pontos percentuais, trazendo a Selic para 13%. Isso talvez seja otimista demais. No máximo, o BC pode reduzir a Selic em 0,50 pontos, dizem os mais céticos. A decepção será profunda se fizer menos do que isso.

Seja como for, na situação melancólica a que chegou o País, só uma figura se destaca: a da ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). Logo em seguida ao massacre de Manaus, ela deslocou-se para a capital do Amazonas onde se reuniu com desembargadores dos Tribunais de Justiça da região Norte, numa tentativa de chamar-lhes a atenção para, pelo menos, desburocratizar o sistema judicial-penitenciário.

Ao mesmo tempo, como presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) Cármen Lúcia solicitou ao IBGE um levantamento sobre o número e o perfil dos encarcerados no Brasil. Ela já sabe o que mostram pesquisas preliminares: mais da metade dos presos são jovens, que cumprem pena por roubo ou pequenos delitos e não faltaram inocentes ou presos que já haviam cumprido suas penas quando foram trucidados. Isso tem de mudar.

Sensibilidade social, tão escassa no governo, a presidente do STF tem de sobra. Esse traço de caráter fez com que ela concedesse liminares para evitar o bloqueio pela União de R$ R$ 181 milhões e R$ 192 milhões destinados às contas do Estado do Rio de Janeiro. Esses recursos seriam retidos para pagar empréstimos contraídos pelo Estado e não pagos. A ministra justificou a sua decisão dizendo que o bloqueio prejudicaria, “de modo grave e irreversível, a execução de políticas públicas e a prestação de serviços essenciais à população”.

O desbloqueio irritou o presidente Temer, que foi à casa da ministra para conversar. O que resultará disso não se sabe. Outro encontro está marcado com o ministro Henrique Meirelles, que também está fulo da vida, falando em quebra de contratos, etc..Mas a decisão final, ao que tudo indica, ficará para fevereiro, quando o plenário do STF volta a se reunir. Comenta-se que, se o STF mantiver o entendimento da ministra Cármen Lúcia, o governo federal poderá revidar, tomando medidas de contenção em detrimento dos Estados.

Seria muito melhor, é óbvio, se houvesse um diálogo construtivo entre a União e os Estados, inclusive sobre o problema penitenciário. Mas isso exigira uma liderança com amplo descortino dos problemas nacionais, o que mais faz falta ao Brasil nesta etapa histórica.

Claudia Bozzo
“Eu, Daniel Blake” é mais um dos filmes do talentoso diretor britânico Ken Loach que entra na categoria “soco no estômago”, como “Rota Irlandesa” (2010, em exibição no Netflix) ou “Ventos da Liberdade” (2006) e “Pão e Rosas” (2000). Foi premiado com a Palma de Ouro em Cannes e aqui em São Paulo, aplaudido em uma sessão de quinta-feira à tarde do Cine Belas Artes. Não dá mesmo para deixar de saudar com palmas, de ouro ou não, tanto talento. Ainda mais por um filme tão próximo dos seres humanos reais, como esse.

Trata-se da história de um carpinteiro de 59 anos, afastado do trabalho por problemas de saúde e às voltas com o kafkiano sistema previdenciário britânico. Chega no momento em que o tema reforma da previdência aqui no País é assunto em qualquer ônibus, trem, ou fila na qual se esteja, sempre gerando um muro de lamentações.

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Embora Loach não seja apenas um ‘pugilista’ cinematográfico, e alterne filmes sobre duras realidades com obras de poesia e ternura ímpares, como “A Parte dos Anjos” (2012), “À Procura de Eric” (2009) ou “Meu Nome é Joe” (1998), sua câmera está sempre voltada para os mais frágeis, menos favorecidos e ele sempre o faz com grande talento, em companhia do roteirista Paul Laverty, uma parceria de mais de 20 anos.

Loach está com 80 anos e no momento, empenhado em divulgar seu documentário (“In Conversation With Jeremy Corbyn”) sobre o deputado que, desde 2015, é líder do Partido Trabalhista, um político cujas aspirações estão próximas das do senador norte-americano Bernie Sanders, que até poderia ter sido eleito presidente dos Estados Unidos, se a democrata Hillary Clinton não o atrapalhasse. Corbyn também está a milhas de distância de outro trabalhista de triste memória, Tony Blair. Em entrevista ao El País, publicada no site brasileiro do jornal, Loach afirmou que tem esperanças: “sim, sou otimista. Sanders, Podemos, Syriza… Existe uma sensação de que outro mundo é possível. A ascensão de Corbyn traz muita esperança, mas é sistematicamente atacada por toda a imprensa, pela BBC, e até pelos jornais de esquerda. É uma grande batalha, mas é muito popular entre as bases”.

Em depoimento ao jornal britânico The Guardian, Ken Loach declarou, dias antes de o filme ser lançado na Grã Bretanha (em outubro de 2016): “Se você não estiver revoltado, que tipo de pessoa você é”? Ele é descrito como um espinho cravado na carne do establishment, desde que filmou “Cathy Come Home”(1966) e “Kes” (1969).

E agora, aos 80, faz o mais indignado de seu filmes. “Eu, Daniel Blake” é sobre um homem que dá murros em ponta de faca ao enfrentar os meandros surrealistas do sistema de benefícios do Reino Unido. Habilidoso em sua profissão, e até mesmo com dons artísticos para criar móveis e esculturas em madeira, vê-se obrigado a aprender como preencher irritantes e inúteis formulários pela internet. Ele, que mal sabe como lidar com um mouse. A história está ficando parecida com a realidade? Pois não tira o pé do chão em momento algum.

O carpinteiro resolve ajudar uma jovem mãe solteira, também envolvida no emaranhado de “nãos” e “impossível” do sistema oficial Esse personagem surgiu das pesquisas feitas por Loach e Laverty sobre o tema. Ambos relatam ter conversado com um jovem que nada tinha em sua geladeira e não comia há três dias: com uma mulher envergonhada por ter de recorrer aos bancos de alimentos; um homem chamado para uma fila às 5h30 da manhã, mas dispensado uma hora depois porque não havia necessidade de sua presença. O diretor se rebela: “Essa humilhação constante, pela sobrevivência. Se você não fica indignado, que tipo de pessoa é você”?

Daniel Blake, interpretado por Dave Johns, ator pouco conhecido por aqui, pois a maior parte de seu trabalho está em teatros, onde faz apresentações do tipo stand up comedy, ganhou o Bafta de 2016, como melhor ator, e dá grande consistência ao personagem, uma pessoa divertida, que se relaciona com os vizinhos e colegas de trabalho e cria laços com Katie, mãe solteira de uma garota e de um menino, interpretada por Hayley Squires. Ambos entram em tal sintonia que é difícil refrear as lágrimas, em muitas passagens mais dramáticas.

Sem violinos ao fundo, Loach emociona o espectador. Ainda mais por sua lucidez e coerência. Como disse ao El País: “o cinema norte-americano cultua a riqueza. Os personagens têm dinheiro e casas bonitas. E nunca se explica de onde vem esse dinheiro. Há uma agenda de direita nesse cinema”. Segundo Loach, o Estado, que deveria apoiar pessoal como Daniel e Katie, leva à ilusão de que, “se uma pessoa é pobre, a culpa é dela”.

Essa é uma obra que remete a outra, francesa: “O Valor de um Homem”, de 2015, que em francês tem um título bem mais interessante: “La Loi du Marché”, dirigida por Stephane Brizè com atuação impecável e premiada, também em Cannes, de Vincent Lindon. O filme, apresentado em 2015 no mais importante dos festivais de cinema, recebeu longos e demorados aplausos.

Nele, Lindon, também é um desempregado, bem mais jovem, e segue por caminhos semelhantes, preenchendo os inúteis formulários, participando de seminários sobre currículos e submetendo-se a seguidas humilhações. Até conseguir um emprego de segurança num supermercado. Uma lei implacável que rege o mercado: trabalhadores cada vez mais mal pagos em empregos cada vez menos qualificados. Como se a culpa pela má qualificação fosse do trabalhador.

Leonardo Trevisan
De novo, não aconteceu o previsto. Nos dois primeiros dias úteis do ano, as bolsas no mundo inteiro avançaram. No primeiro dia, a alta foi bem forte – na Bovespa superou 3,7% – e, ontem, as bolsas ficaram estáveis, sem devolver o lucro do dia anterior. A maior parte das previsões sinalizavam exatamente o contrário. O principal motivo da subida é bem conhecido: China. Embora alta no petróleo também tenha ajudado.

Antes de traçar cenários muito dramáticos para 2017 é melhor prestar um pouco mais de atenção no que efetivamente ocorre na China nos últimos tempos. As bolsas dispararam porque o Índice de Gerentes de Compras (o PMI da consultoria internacional Markit) alcançou em dezembro o maior índice dos últimos seis anos. O PMI chinês ficou um ponto percentual a frente de qualquer cotação prévia . O PMI é relevante porque sinaliza, a grosso modo, os pedidos de insumos já feitos pelos gerentes, ou seja, dá sinal real do ritmo de produção.

Como mostrou artigo do Financial Times de 4/1, assinado por Gabriel Wildan e Yuan Yang, o crescimento do PIB chinês de 2015 foi responsável, sozinho, por um terço da expansão do PIB Mundial. Em outras palavras: as bolsas subiram porque muito gente acha que se a China cresce, o mundo acompanha.

A última edição da The Economist de 2016 já tinha antecipado a tendência de revisão para cima das expectativas sobre China para 2017, baseadas em uma série de evidências sobre o comportamento da economia chinesa durante o ano passado que são:
1 – a longa deflação chinesa, persistente ao longo dos últimos 54 meses, finalmente ”inverteu a tendência” e os preços de atacado voltaram a subir, com os lucros das empresas voltando a expansão no segundo semestre de 2016.
2 – as promessas oficiais de reverter a superprodução de carvão e aço, bem como a redução da oferta de casas “não vendidas” deram certo ao longo de 2016.
3 – no terceiro trimestre de 2016 já estavam bem definidas as tendências de que a expansão oficial prevista de 6,7% do PIB neste ano seria “efetivamente alcançada”.

Na raiz dessa expansão, como notou a Economist, está o bom resultado no controle da bolha imobiliária por Pequim. O governo definiu, desde meados de 2015, um conjunto de restrições determinando “quem pode comprar casa, onde e com que tipo de hipoteca”. A revista mostrou que a “micro administração” regulou a baixa oferta de casas e agiu sobre a bolha nos preços dos imóveis nas grandes cidades chinesas, ajustando o mercado da construção civil ao perfil regional da população.

Na prática, o governo chinês dirigiu a procura de baixa renda para fora do mercado das cidades maiores, regulando a oferta e controlando preço. Pequim, como apontou a Economist, enfrentou o risco desse “controle” e ganhou a aposta. Controlada a bolha imobiliária, a economia ganhou mínima estabilidade para preservar expansão.
A íntegra do artigo da Economist está no endereço:
www.economist.com/…/21712139-risks-lurk-outside…

A economia chinesa, na verdade, também avançou no troca do modelo. O artigo do Financial Times acima mencionado, mostrou cenários de como a batalha para estimular consumo está baseada em uma “nova economia”, com forte apelo para a expansão do setor de serviços. Com o governo sinalizando, lentamente, o declínio do setor de aço e carvão.

O FT escolheu três cidades para acompanhar esta “troca” de modelo. Em Shandong o jornal observou um contexto de estímulo de consumo, até de iates, sim iates, que tem preço mais barato do que um apartamento de dois dormitórios em Pequim.

Depois, em Sichuan, outro cenário. o de cidade “estagnada”, mas com fábricas “trocando de produto”, com forte apoio de financiamento oficial, para “não virar Japão, da década perdida”. O terceiro cenário, o de Shanxi, em que o consumidor “baofahu” (o que vive explosão de riqueza sem uma mínima sofisticação cultural e financeira) é o motor da chegada da economia de serviços na China. Há serviços em expansão para todos os “baofahu”, os que enriqueceram muito e para os que enriqueceram só um pouco.

É este conjunto de cenários que empurra a economia chinesa para um crescimento, se não pleno, ao menos perto das melhores expectativas. O PMI da Markit só captou essa realidade . E as bolsas perceberam.

Sem esquecer o essencial em todo o processo chinês. Em outubro, como mostrou com todo rigor a Economist, começa o “grande encontro quinquenal” do Partido, que definirá o poder das atuais lideranças, especialmente o poder de escolha do sucessor de presidente Xi Jinping daqui a cinco anos. Ou seja, 2017 não pode ser um ano de crise na China. Custe o que custar.

Como sempre, desde que o mundo é mundo, a política decidirá a economia. Não será diferente neste ano na China. E o mundo agradece.

Portanto, convém ter alguma cautela com previsões muito apocalípticas sobre 2017 nas economias emergentes dependentes do desenvolvimento chinês. Esta é uma das razões, talvez a maior, que levaram o economista chefe do itaú, Mario Mesquita, a falar (Valor Econômico de 22/12) em um crescimento de 1,5% no País em 2017 e de 4% em 2018. Esta previsão é quase três vezes maior do que a mediana das previsões acumuladas para o período.

O contexto chinês, dono de mais de um terço das expectativas de expansão do PIB mundial, sinaliza realidade menos dramática. As bolsas captaram isso, com a volatilidade de sempre. Talvez, fique melhor vender um pouco menos de tragédia para a economia neste ano. A prudência, mais os dados de Pequim, sugerem esse cuidado.

Claudia Bozzo
Um é pouco, dois é bom, três é melhor ainda. Estamos falando do seriado “A Ponte”, uma produção conjunta das TVs dinamarquesa e sueca, apresentada pela primeira vez 2011. Depois disso, espalhou-se pelo mundo, sendo vista em cem países. Ganhou duas adaptações importantes, uma norte-americana, “The Bridge”, que pode ser vista no Netflix, e a versão franco-britânica “O Túnel”, transmitida pela HBO em 2016.

Embora os roteiros das três séries sigam a história original, que vinha sendo gestada por Hans Rosenfeldt, seu roteirista e criador, desde 2006, há importantes adaptações, o que só acrescenta interesse às tramas.

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Os personagens centrais nas três séries continuam sendo um detetive de cada país. No caso da temporada original, são a policial sueca Saga Noren (interpretada por Sofia Helin) e o inspetor dinamarquês Martin Rohde, papel de Kim Bodnia. Eles são designados para o caso pois uma mulher foi encontrada morta exatamente no meio da bela ponte Øresund, que liga Copenhague a Malmo. Metade do corpo em um país, metade em outro. E descobre-se que a vítima não é uma, são duas: o torso de uma importante autoridade e da cintura para baixo, de uma prostituta desaparecida há meses. Aí não há retorno: os dois policiais terão de trabalhar juntos.

A série explora as idiossincrasias entre suecos e dinamarqueses, com personagens muito bem construídos. A policial Saga, por exemplo, chegou a ser descrita como uma portadora de autismo, e a talentosa Sofia Helin dá consistência à personalidade no mínimo estranha, que leva para as três primeiras temporadas (a boa notícia é que uma quarta série está em gestação pelos nórdicos). São 10 episódios por temporada, que provavelmente ainda estão à disposição dos assinantes pelo Now, da Net.

“A Ponte” (“Bron, Broen”, em sueco e em dinamarquês) tem episódios que envolvem ecoterrorismo e serial killers, tudo recheado com interessantes abordagens sobre seus participantes, sejam os dois policiais, como o inspetor-chefe ou familiares. Em seu blog, o roterista e criador de toda essa riqueza em personagens e histórias, Hans Rosenfeldt, explica que sua intenção era fugir dos estereótipos de policiais, em sua maior parte divorciados, com um complicado ou nenhum contato com ex-esposas e filhos, pouco conversadores, “mantendo para si a maior parte de suas emoções, bebendo muito e ouvindo ópera ou jazz. Eu queria algo mais, alguém diferente. Um personagem aberto, com empatia e uma grande família amorosa”. E a série deixa bem claro, desde o início, que Martin fez uma vasectomia, pois tem vários filhos de mais de um casamento.

E ele continua, dando pistas sobre a construção de Martin e Saga: “eu queria alguém que gostasse de bater um papo, tivesse curiosidade a respeito de seus colegas e se ligasse às emoções deles”. Daí veio Martin. “Mas quem eu traria da Suécia? E se o detetive sueco fosse uma mulher, sem qualquer interação social com seus semelhantes?”

É uma descrição de Saga: “ela aprende tudo que lê, mas quando se trata de interagir com outra pessoa, fica completamente. Agora, a mídia e o público decidiram que ela é portadora da síndrome de Asperger. Mas ela nunca recebeu esse diagnóstico na série”, completa Rosenfeldt, que é sueco e atua como roteirista, apresentador de rádio, romancista e ator.

A versão norte-americana

Logo após a apresentação de “Bron, Broen”, veio em 2013 a versão norte-americana de “The Bridge”, com 26 episódios, produzida nos EUA e trazendo Demian Bichir como o policial mexicano Marco Ruiz e Diane Kruger como a norte-americana Sonia Cross, unidos para investigar uma morte na Ponte das Américas, entre El Paso e Ciudad Juarez. Ele é de Chihuahua. A adaptação ao clima local é feita com a indolência das autoridades policiais mexicanas e o grande peso exercido pelas drogas, tráfico de mulheres e cartéis de traficantes nessa região. Essa versão, bem competente, está no Netflix.

Agora, a produção franco-britânica, da Sky e Canal + com duas temporadas, de 2013 a 2016, reflete todo o talento dos profissionais desses dois países. “The Tunnel” tem como local do crime o Eurotunnel, e se passa na região de Calais (tristemente nos noticiários das últimas semanas, pelos acampamentos de refugiados) e Folkstone – e os policiais Elise Wasserman, interpretada por Clémence Poesy e pelo britânico Stephen Dillane no papel de Karl Roebuck (quem acompanha “Game of Thrones” deve tê-lo visto, e também em “The Crown”). A primeira temporada destaca as diferenças entre franceses e britânicos, com o senso de humor do detetive Karl sendo meio que espezinhado pela francesa. As diferenças gastronômicas dizem presente e o roteiro dedica-se também aos desafios que a União Europeia enfrenta.

A adaptação é interessante e a segunda temporada traz a forte preocupação com o terrorismo, com um ângulo abrangente. A serie é falada, como seria de se esperar, em francês e inglês, mas todo mundo acaba se entendendo, apesar de algumas dificuldades.

Sendo uma produção meio a meio, a equipe de filmagem de “The Tunnel” é uma mistura dos dois países e segundo os produtores, nenhuma das partes teve o controle final. Foram contratados roteiristas britânicos e franceses e diretores e claro, o script foi escrito nos dois idiomas. Cinco diretores convocados, três britânicos e dois franceses. A inglesa Jane Featherston, principal executiva da produtora Kudos, comentou essa colaboração: “nós trabalhamos de forma bastante colaborativa para garantir que o programa fosse atraente para os espectadores dos dois países. Honestamente, ainda não sei se tivemos total sucesso nisso. Os franceses gostam das coisas um pouco mais lentas, e nós gostamos delas mais ágeis”.

Para Julia Readside, do jornal britânico The Guardian, a série “confirma Dillane como um de nossos melhores atores”. Ela elogia a atuação e Poésy e o relacionamento entre os dois protagonistas, que “revela a desconfortável química que há entre eles”.

Seja qual o idioma ou país de origem escolhido, “A Ponte” e “O Túnel” merecem ser vistos. Inclusive pelas adaptações feitas para cada um dos países fronteiriços nos quais se passa a ação

Leonardo Trevisan
“Fomos avisados”. Com estas duas palavras, um dos principais articulistas do Financial Times, Lionel Barber, fechou o texto em que descreveu 2016 como “o ano em que a demagogia avançou”. Pela ordem, no longo artigo, Barber responsabiliza Brexit e Trump pelo avanço. Mas não só. Bem longe disso.

O importante neste texto não é a constatação, mas a resposta de por que e como os demagogos avançaram. E, por que, em 2016 a democracia perdeu.

É interessante cruzar este texto do FT com a percepção de Margaret Sullivan, crítica de Mídia do Washington Post, sobre a inesperada vitória de Trump, contra a opinião de toda a mídia americana mais tradicional. “Acho que a imprensa viveu seu ano do pensamento mágico”, resumiu Sullivan, explicando: “você vê a coisa diante dos olhos, mas pensa que é óbvio que aquilo não vai acontecer. Quem fala o que Trump fala, quem faz o que ele faz, era óbvio que não iria ganhar. E passamos o ano desse modo”.

Essa percepção sobre “pensamento mágico” ajuda bem a entender o que não foi feito quando eram visíveis os sinais do avanço dos demagogos pelo mundo. Nesse ponto, observar o debate prévio ao Brexit é essencial. Barber chama a atenção para figuras como Nigel Farage, líder do Partido da Independência do Reino Unido, pela saída da União Europeia, amigo de Trump. Embora não seja só ele, muito longe disso, Farage foi o primeiro a ter grande sucesso como exato representante do “demagogo canastrão, que explora as paixões da multidão, sustentado pelas emoções e pelo preconceito”.

É inadequado fazer comparações automáticas com a década de 1930 e ver em Trump, Farage ou Duterte, das Filipinas, como “fascistas principiantes”. Semelhanças com os anos 30 exigiriam uma Grande Depressão. E estamos bem longe de uma dessas: a economia americana, por exemplo, se aproxima do pleno emprego, a britânica, pré Brexit, abriu 2 milhões de vagas desde 2010, a Alemanha vai bem obrigado. O lucro das empresas subiu muito como mostrou Barber.

O problema é outro: quem mora na periferia das grandes cidades, seja onde for, não tem a sensação de que a economia cresceu. Nos EUA, 95% das famílias tinham, em 2015, renda média inferior à de 2007, dados do Economic Policy Institute. O desemprego na zona do euro não cai. Mas, o patrimônio da faixa do 1% mais rico, como apontou Barber no FT, note-se bem no Financial Times, “continua a crescer forte”. Só se entende bem essa aparente distorção entre sensação de economia frágil de quase todos e renda de muito poucos crescendo muito, quando se assimila, sem pré – conceitos de qualquer espécie, o impulso da acelerada mudança tecnológica.

Inteligência artificial impulsionou bastante a mudança na produção, nos últimos dois anos, em qualquer setor de atividade. Se o smartphone deu voz e conexão a todos, o impacto da inteligência artificial sobre o emprego (que o celular com internet acelera) mal começou a aparecer. Quem quer entender isso, basta pensar no Uber bem além do táxi. O Uber quer entregar de tudo a todos, não só movimentar gente no lugar do antigo táxi. Nenhum emprego ficará do jeito que está hoje nos próximos anos. Todo mundo percebe isso.

Mudança tecnológica nessa rapidez, mais concentração de renda bem acelerada teve efeito demolidor em outras esferas. Especialmente, na política. O artigo do Barber bota o dedo nessa ferida: Brexit e Trump atestam o fim do sistema partidário (nos dois casos, conservadores e progressistas tradicionais foram derrotados impiedosamente) e da divisão esquerda/direita. Centro esquerda, então… Nela, o declínio é quase fatal no mundo todo.

O desdobramento mais violento dessa “desilusão generalizada” nas democracias ocidentais atingiu em cheio a globalização. O artigo de Barber vê 3 tendências na globalização. Primeira, desregulamentação, desde os anos 80, os de Thatcher e Reagan (de consumo e especulação financeira); segundo, o Acordo da Rodada Uruguai, de 1994, que liberalizou comércio no mundo e, terceiro, China, como economia de mercado.

Um bom resumo da ascensão e queda da globalização foi o mercado comum europeu, lugar em que efetivamente aconteceu o abandono progressivo do controle de movimento sobre capitais, produtos, serviços e mão de obra, sem fronteira entre países. O apogeu dessa “união” da Europa foi no terceiro trimestre de 2007. Em 2016, na sentença trágica de Barber, a “Globalização 2.0 acabou”.

O ponto central desse raciocínio é que ficou bem mais difícil vender a ideia de livre comércio para quem está preocupado com estabilidade no emprego e concorrência de produção de país em desenvolvimento. Não só a China. Acelerar livre comércio, via TPP ( o acordo Trans-Pacífico) por exemplo, é acelerar esse medo e aumentar a instabilidade.

Os demagogos de plantão pegaram essa percepção e deram a ela bem acabada feição política. Em especial, no que diz respeito a movimento de pessoas sem controle rigoroso, típico da União Europeia, para citar um exemplo. Daí transformar imigração em “inimigo eleito” foi apenas um passo natural para qualquer demagogo de esquina.

Alguns políticos de democracias consolidadas não nasceram demagogos, mas preferiram o caminho fácil para o poder. Melhor exemplo, Thereza May, a nova primeiro ministro britânica pós Brexit, que foi escolhida depois de um ataque fulminante de Thereza ao multiculturalismo, impensável até então: “quem acha que é um cidadão do mundo é um cidadão de lugar nenhum”. Sem comentários. A tragédia da frase é explícita.

Falta entender o procedimento operacional para que os demagogos avançassem como avançaram em 2016. O fosso econômico entre vencedores e perdedores da globalização apareceu inteiro, primeiro no Brexit, depois com Trump. O problema é que esse alvo, a globalização, era irreal. A razão da vida piorar não estava no livre comércio, no imigrante, na visão esclarecida do mundo. Não eram estes os culpados pela instabilidade, pela crise de emprego e pela concentração de renda. Mas, não interessa a racionalidade, a exposição de fatos bem articulada.

Em 2016, o avanço do demagogo foi feito exatamente nesse ponto, o “fim dos fatos”. Esse é o x da questão do nosso tempo. Ao longo de 2016, na luta política em todo canto do mundo, na imagem precisa de Barber, os fatos passaram a ser “conceitos elásticos”.

Em 2016, o mundo despertou para a realidade eficaz das “notícias falsas” patrocinadas por ativistas políticos de qualquer origem. Como reproduziu o FT, foi Nell Hughes, comentarista da CNN, partidário de Trump, que fez o resumo certo: “o interessante na campanha eleitoral americana é que as pessoas dizem que fatos são fatos, quando não são realmente fatos. Todo mundo pode interpretar tudo como se fosse verdade ou não verdade. Infelizmente, não há mais tal coisa como fatos”. Bingo!

Este talvez seja o resumo mais eficiente da “era da pós verdade” de que falava a The Economist quando Trump ainda era visto só como um “canastrão”. A era da “pós verdade” significa que o político não tentará convencer o eleitor com argumentos, com “fatos” e sim tentará apenas açular os preconceitos já arraigados nesse eleitor. Nada mais. É exatamente nesse sentido que não importam os “fatos”, sejam eles quais forem. A mentira absurda e escandalosa, que apenas concorda com o preconceito já existente, vira verdade. Ponto!

É indiscutível que a demagogia de Trump rompeu todos os tabus clássicos, mexicanos como “estupradores”, ataque gratuito a mulheres, a muçulmanos, jornalistas e ao que fosse. Nada importa, nem mentir sobre a saúde da candidata democrata. O Washington Post provou que o candidato Trump mentiu sobre caridades a fundações que dizia ter feito. Mentiu sobre seu imposto de renda. Não interessa isso são “fatos”, não é o que vale na vigência da “pós verdade”, a “realidade”que parcela considerável do eleitorado queria acreditar. Na Inglaterra da Brexit, nos EUA de Trump, na França da Le Pen, na Alemanha da “Alternativa”, na Itália de Beppe Grillo, nas Filipinas de Duterte….

Nesse processo, ainda mais interessante foi o “pensamento mágico” do jornalismo. Tanto no Brexit como em Trump, a mídia mais tradicional apostou todas as suas fichas no que ela gostaria de ver acontecendo. Não no que estava acontecendo. “Pensamento mágico” é exatamente isso.

A trágica realidade, aquela construída pela “notícia falsa” e pela “pós verdade”, não foi captada pela mídia tradicional, nem pelas pesquisas eleitorais. Barber está assustado com os resultados do “populismo desenfreado” pelo mundo. O grave, de verdade, deste texto, é a frase final: “Fomos avisados”. Não adianta continuar a praticar “pensamento mágico” frente a este alerta.

Aos interessados, a íntegra do artigo de Lionel Barber no Financial Times está no endereço:

https://www.ft.com/content/7e82da50-c184-11e6-9bca-2b93a6856354

Bom Ano Novo a todos!

Klaus Kleber
Melhor seria que o governo não lançasse “pacote” algum a pretexto de estimular a economia do que o arremedo que o presidente Temer anunciou na semana passada. O que se esperava é que o governo, afinal, resolvesse colocar em prática o prometido programa de conclusão de obras inacabadas e desse a partida para valer ao programa de concessões. Mas, como isso exigiria recursos orçamentários, o presidente deixou que a Fazenda apresentasse sua versão do que seria um estímulo, o que resultou em uma decepção generalizada.

Se se pode falar em algum refresco, foi a adoção pelo BNDES de uma nova política operacional para ajudar as micro, pequenas e médias empresas. Se o governo ficasse por aí não faria muita diferença.

Sim, há alguns benefícios, como a possibilidade de o FGTS, além da remuneração de 3% mais Taxa Referencial (TR), ser engordado por 50% do rendimento dos projetos financiamentos pelo seu Fundo de Investimentos (FI-FGTS). Mas isso beneficia só quem está empregado e os saques, naturalmente, só podem ser feitos se os trabalhadores forem demitidos ou quando se aposentarem. A ideia de que saques do Fundo poderiam ser permitidos para pagar dívidas ficou de fora, por pressão, alega-se, da construção civil.

Fizeram também um Refis mal-ajambrado, possibilitando que pessoas físicas e jurídicas com débitos tributários ou previdenciários vencidos até 30 de novembro paguem 20% à vista e obtenham financiamento do restante por 60 meses, podendo usar créditos tributários. Com isso, o governo pensa em arrecadar de imediato R$ 10 bilhões. O problema, como me disse um endividado, é como arrumar esses 20% para candidatar-se ao Refis do Temer, como vem sendo chamado, e que é mais uma forma de cobrança da dívida ativa.

Mexeram também com cartões de crédito, mas ninguém acredita que os juros canibais cobrados nessa modalidade vão cair. Fala-se também que os bancos públicos poderão puxar para baixo as taxas de juros cobrados pelo sistema bancário, mas tudo ficou no papo. Enquanto isso, a crise política só se agrava com o desenrolar das delações da Odebrecht e um novo confronto entre o Judiciário e o Legislativo.

Feliz 2017!

Leonardo Trevisan
A expressão “indústria 4.0” se aproxima do cotidiano das empresas brasileiras de forma vagarosa. Não poderia ser diferente. Não há cenário estável que incentive fortes investimentos para tanta renovação tecnológica. Isto não quer dizer que aqui ninguém queira saber do assunto. O ritmo de adesão à indústria 4.0 é mais lento do que no contexto europeu, americano, asiático. Mas, existe. E, apesar do ritmo, terá impacto na carreira de todos.

O conceito indústria 4.0 funciona como mistura de diferentes etapas de evolução tecnológica: adotar robôs na produção, fazer as máquinas conversarem sem intervenção humana (a internet das coisas) e, especialmente, usar registro de dados para decidir o que, quando e quanto produzir.

No mundo o conceito já avançou bastante. E não do jeito “cinematográfico” de fábricas “sem gente”. Aliás, bem ao contrário. Artigo do The Wall Street Journal, assinado por Andrew Tangel, mostrou como em setores de alta produtividade industrial os robôs agem como “ajudantes de operários” e não substitutos.

A lógica é a do “robô colaborativo” que ajuda a fazer o serviço mais pesado. O alvo  é aumentar eficiência da função repetitiva, buscando redução de custo. Em 2015, dado da Robotic Industries Association, 28 mil robôs colaborativos foram instalados nos EUA.

A proposta é de uma “internet industrial” em qualquer setor. Começa com formas diversas de robô adaptando-se ao maquinário antigo. Em todos os sentidos e setores. Em especial, prestações de serviço ou escritórios. Por essa razão, o conceito indústria 4.0  não está restrito à manufatura. Apenas, começa por ela.

Inclusive no Brasil. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria, em 2225 indústrias de diferentes tamanhos, 48% delas já usa ao menos uma das 10 tecnologias listadas como essenciais para a produção digitalizada. No Brasil, o projeto mais ambicioso é a digitalização em siderurgia, na Gerdau. O mais avançado é o das “Fábricas Digitais” da Volkswagen. O projeto de automação bancária avança muito. E, milhares de empresas de porte médio já deram passos na “colaboração digital”.

O vocabulário empresarial já inclui expressões como realidade virtual, internet das coisas e big data. Com usos diferentes e contextualizados a cada empresa. Como reduz custo, essa evolução virá. Apesar da crise.

Essa realidade pedirá novas “habilidades comportamentais” para a convivência com cenários de digitalização. Sem exceções. Seja de quem for.

Klaus Kleber
A inflação baixou para 6,99% nos 12 meses até novembro e a expectativa é de que possa fechar o ano em 6,5%, supreendentemente na margem superior da meta. Tendo desgostado a todos, mesmo dentro do governo, parece que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) vai finalmente baixar a taxa Selic em 0,50 pontos percentuais em sua reunião marcada para o dia 11 de janeiro. Apesar de algumas intervenções do BC – praticamente desnecessárias – a taxa de câmbio parece ajustada em um nível próximo a R$ 3,40 por dólar.

A balança comercial deve fechar o ao com um saldo positivo de US$ 45 bilhões, garantindo um déficit em transações correntes a ordem de US$ 18 bilhões/US$ 20 bilhões. O Congresso deve aprovar, no próximo dia 13, em segundo turno a MP do teto de gastos. E o governo, finalmente, divulgou o seu projeto de reforma da Previdência Social.

Aparentemente, este seria um quadro muito favorável à retomada do crescimento em 2017, mas acontece que o País está dominado por um pessimismo agudo. Algumas autoridades se queixam agora de “vazamentos seletivos” que expuseram “a privatização” da alta cúpula do governo, no dizer de um executivo da Odebrecht, e dezenas de integrantes do Congresso Nacional, através de crimes do caixa dois e outras patranhas. O presidente Michel Temer amarga seus piores índices de popularidade e há muitas dúvidas de que será capaz de concluir seu mandato até o fim de 2018.

Não se vislumbram saídas viáveis. Para que haja nova eleição direta de presidente da República, Temer teria de renunciar até o dia 31 deste mês. Até lá, ele aguenta, ajudado pelas comemorações natalinas. Se não renunciar nas próximas semanas e tiver de fazê-lo em 2017, o novo presidente será escolhido pelo Congresso Nacional – e não há nenhuma liderança política que possa inspirar confiança neste momento crucial.

O pior que poderia ocorrer agora é que, encurralado, o governo se deixe dominar pela paralisia.. O presidente não pode deixar-se enredar mais por uma política de arrocho, doa a quem doer. Tem de tirar da gaveta aquele programa que deve permitir a conclusão de mais mil obras públicas paralisadas e definir, logo, um programa de estímulo às empresas, que não pode ser um novo e ruinoso Refis, mas forma de liberação de crédito. Se for o caso de usar mais os bancos públicos, que o faça. E as concessões não podem ficar esperando tanto. Com Moreira Franco ou sem ele, é urgente dinamizar essa área.

Se tais medidas seriam capazes de salvar o governo, ninguém sabe. O problema é que 12 milhões de desempregados dificilmente sustentaram um governo que até agora se tem preocupado unicamente com questões fiscais, enquanto a Lava-Jato ruge…

Klaus Kleber
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) poderá citar diversos motivos por ter reduzido os juros em apenas 0,25 pontos porcentuais, trazendo a taxa básica de juros para 13,75% a.a., em sua reunião no último dia 30. Na semana passada, a cotação do dólar teve uma disparada, indo para R$ 3,48, sob pressão da eventual alta de juros nos EUA, do efeito Trump e da crise política interna deflagrada pela saída de Geddel Vieira Lima da Secretaria de Governo da Presidência da República.

Com a inflação em queda – o IPCA-15 fechou em 0,26% em novembro, trazendo a taxa nos últimos 12 meses para 7,64% — não seria temerário que o Copom baixasse a Selic em 0,50 pontos percentuais, mas o colegiado manteve o pé atrás, apesar do montante de queixas quanto à paradeira da economia.

Na ata da reunião a ser divulgada nesta semana, o Copom vai abordar todos esses pontos, menos a crise política, que é a questão mais grave neste momento. Não só o governo Temer sofreu um grande desgaste com o “affair” Geddel, mas o todo poderoso ministro da Fazenda Henrique Meirelles passou a ser alvo de um processo de fritura.

Nada contra a capacidade de Meirelles de dar tesouradas para valer nos gastos públicos, mas restrições têm sido feitas à sua competência como articulador de uma política de retomada do crescimento, como têm mostrado os dados decepcionantes sobre o comportamento da economia neste fim de ano, fazendo prever um 2017 de dolorosa estagnação.

Depois de especulações de que o PSDB estaria pressionando para colocar alguém do partido no lugar do ministro do Planejamento Dyogo Oliveira, tido como pau mandado de Meirelles, o presidente Temer apressou-se a dar uma entrevista ao Estadão, afirmando que o atual ministro da Fazenda continua a contar com seu “total apoio” e que o governo não cogita de compartilhar o comando da política econômica. Como se sabe, Meirelles, para assumir o cargo, pediu que o presidente lhe desse carta branca na área econômica.

Com isso, o presidente pode ter esvaziado uma manobra, mas o apoio a Meirelles está longe de solucionar a crise que ameaça tornar-se político-institucional, Com as manifestações deste domingo contra um “Congresso corrupto”, torna-se ainda mais difícil pra Temer encontrar um substituto de Geddel que não venha a ser contaminado pela Lava-Jato e que, ao mesmo tempo, tenha reconhecida capacidade de articulação política.

Temer não quer e não pode ir para confronto com o Congresso, mas talvez precise de coragem para dizer não a alguns amigos, como Rodrigo Maia, que pleiteia ser eleito para a presidência da Câmara, o que seria contrário ao regimento da Casa.

Na área econômica, sabe-se que Meirelles, que foi presidente do BC no governo Lula, respeita sem discutir as decisões da autoridade monetária. Contudo, Ilan Goldfajn, presidente do BC, poderia dar uma ajudinha ao ministro se o Copom em sua primeira reunião de 2017, marcada para 11 de janeiro, baixasse a Selic m 0,50 pontos percentuais, sem tanto medo assim da cara feita de Trump, que assume a presidência dos EUA daí a nove dias, precisamente em 20/01/2017.