Klaus Kleber
A semana que está iniciando será marcada por incertezas mais agudas que as habituais. Afora a litania diária de delações que domina o noticiário, poucos analistas arriscam previsões sobre a votação da reforma trabalhista (PL 6787), que está marcada para ir a plenário na Câmara dos Deputados na próxima quarta-feira, dia 26. Acabou prevalecendo o regime de urgência para a votação, mas foram propostas 200 emendas ao projeto do governo, não obstante as mudanças propostas pela comissão especial instalada para examinar as mudanças na CLT.

Assim, ainda que aprovada a reforma, haverá uma longa discussão quanto aos destaques. De qualquer forma, será um teste para a votação da reforma da Previdência. Por precaução, o relator desta, que é a mãe de todas as reformas, deputado Arthur Maia (PPS-BA), resolveu adiar a sua votação para maio.

Além das denúncias de corrupção cada vez mais amplas e detalhadas – e talvez venha aí a delação do ex-ministro Antonio Palocci –, outra grande sombra se projeta sobre o ambiente político nesta última semana de abril. Está marcada para o dia 28 uma greve geral, convocada por oito centrais sindicais, que representariam 10 milhões de trabalhadores.

Pelo que se tem ventilado, a paralisação não se limitaria ao setor de transportes, que, por si só, causaria uma tremenda confusão. Sem ônibus e metrô, milhões de pessoas não teriam condições de chegar ao trabalho. Mas, como estão dizendo, até funcionários públicos estariam dispostos a decretar ponto facultativo por conta própria para protestar contra o corte de privilégios da categoria pela reforma da Previdência.

Pelos e-mails que lotam a caixa de entrada de muita gente, convocando para a paralisação, poderíamos ter uma greve geral à maneira argentina, com tudo parado? A data não foi escolhida ao acaso. Como os dias 29 e 30 serão sábado e domingo e há feriado em 1º. de maio, Dia do Trabalho, se a greve geral tiver a adesão que as centrais sindicais esperam, o País ficará praticamente paralisado por quatro dias em seguida.

Pode ser que a crescente mobilização para a greve influencie a votação sobre a reforma trabalhista. Ainda que isso não ocorra, uma paralisação generalizada tornará mais ingrato o percurso da reforma da Previdência. Sob o aspecto estritamente econômico, a perda de muitas horas de trabalho com tantos feriadões pesará nos resultados de abril, afetando a lenta recuperação do ritmo de atividade e criará mais incertezas daí para frente.

Claudia Bozzo
O cinema pode ser considerado uma arte eclética por excelência, ao abrigar generosamente em suas telas todas as outras manifestações artísticas. Poucos ambientes recebem com tanta reverência, respeito e amor, talentos expressos em dança, música, teatro, artes plásticas, poesia, literatura e outras, quanto salas de projeção.

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Prova disso é o novo filme de Carlos Saura, “Argentina” (de 2015), que com uma direção de arte à altura de seus filmes anteriores, emociona ao fazer par com os dançarinos músicos e poetas que dão e deram sua contribuição ao rico folclore argentino, numa coprodução que reúne Argentina, Espanha e França. O diretor espanhol, hoje com 85 anos, mantém a jovialidade de sua cinematografia e traz os ritmos, canções, conjuntos musicais e intérpretes de expressões como a zamba, chacarita, chamame, todas bem desconhecidas para nós, acostumados ao tango como a definitiva expressão musical argentina.

O próprio Saura, em 1998 nos trouxe “Tango”, em 2010 o documentário “Famenco, Flamenco”, e tantos outros, numa carreira iniciada em 1955. Se ante o franquismo expressava sua irreverência com alegorias sutis ou nem tanto, depois se firmou como diretor, ator, roteirista e diretor de fotografia. São dele clássicos do cinema mundial, como “Ana e os Lobos” (1973), “Fados” (2007), “Amor Bruxo” (1986), “Mamãe faz 100 anos” (1979), “Bodas de Sangue” (1981), “Cria Corvos” (1976), entre tantos outros.

Sempre em atividade, há notícias de que prepara duas novas obras, uma delas um documentário sobre o arquiteto Renzo Piano (autor, com Richard Rogers do ousado Centro Georges Pompidou em Paris). Também está em seus planos “33 Dias” um filme sobre Picasso e a criação do mural Guernica.

“Argentina”, em exibição desde a semana passada, é uma mistura de musical e documentário. Seu nome original é “Zonda”, e traz uma reverência ao folclore argentino “em estado puro”, como próprio Saura definiu em entrevista a um jornal de Buenos Aires. É um registro histórico, despretensioso, que reúne um punhado de artistas dedicados à preservação do que há de mais original e popular no cancioneiro popular das várias regiões do país. São letras de uma poesia emocionante, canções em estado puro, cercadas de um cenário sem pirotecnia, mas com uma beleza que se alia às músicas em harmonia poética e emocionante.

Não há uma história, nem a preocupação didática. É um filme que vai direto à veia da emoção. Como as homenagens a Mercedes Sosa, numa imagem de arquivo, apresentada a escolares que a acompanham de suas carteiras. Outro homenageado é Atauhalpa Yupanqui, certamente outro dos maiores nomes do folclore da Argentina.

No jogo de luzes, sombra e cores, está o olhar de Saura. “O cinema é uma grande mentira. A realidade existe apenas ao vivo e na hora, o resto é uma ficção inventada. Nesse sentido, este é um musical per se. Não há roteiro, nada mais que interpretações, cenografia, luz e um grande respeito pelos artistas”, disse ele em entrevista a jornal argentino.

Talvez esse seja o segredo de um filme que consegue emocionar, apenas reunindo os artistas com suas canções, danças e repertório, em um enorme galpão na região da Boca, em Buenos Aires, mostrando que a arte supera barreiras geográficas e se ela é legítima, sincera, verdadeira, une as pessoas, independente de fronteiras ou background cultural. Esse encontro, numa linguagem atual, constitui um verdadeiro documento cultural para o futuro, ao qual Saura empresta seu magnetismo e originalidade como cineasta.

Ainda segundo o diretor espanhol, “queremos mostrar, através da música e da dança tradicional argentina, uma cultura e um país. A ação visual está focada ao redor das diversas regiões que formam a Argentina e por sua vez formam um mapa de variantes musicais tais como o carnavalito, a zamba, a chacarera, a copla, o chamamé, a tonada e muitas outras expressões arraigadas na geografia e na alma das diversas comunidades do país”.

Leonardo Trevisan
O rei da Suécia, no começo deste mês, visitou o Brasil. Entre muitos compromissos, Carlos XVI Gustavo fez questão de encontrar com startups desenvolvidas por suecos que atuam aqui. O rei não dispensou, óbvio, falar com empresas suecas tradicionais instaladas no Brasil. Mas, cuidou bem de suas startups. Por que?

Entender este interesse específico do rei em startups exige saber que nas economias ricas, cerca de 40% dos novos investimentos privados são destinados a este modelo.

As startups avançaram também no Brasil. Grandes empresas já perceberam o potencial desse modelo. E que é muito lucrativo conviver com ele. Essa inovação atingirá também qualquer carreira.

Diferentes setores da economia brasileira já aderiram à lógica das startups. Os bancos saíram na frente. Em março, o Bradesco anunciou investimentos significativos em parceria com 2 startups de TI, uma de computação cognitiva, outra, uma espécie de “Uber de caminhões”. O Itaú, desde o ano passado, faz os seus “hackthons”, seguidos leilões de disputa de parceria com o banco, para desenvolvimento de softwares.

As montadoras fazem o mesmo. No ano passado, a Ford, fez parceria com o app que conecta smartphones com o carro. O agronegócio foi na mesma linha. Repetem-se, desde 2015, os “AgTech”, a disputa por investimento “anjo” em tecnologias que automatizam produção agropecuária.

É claro que o futuro das carreiras no Brasil não está só nas startups. Basta visitar qualquer escola que forma técnicos industriais para ver que tem uma classe de mecatrônica para pelo menos 4 de “manutenção industrial”. Motivo: máquinas industriais no Brasil têm idade média de 17 anos (dado de 2014 da Abimaq) enquanto na Alemanha é de 5 e nos EUA de 7 anos (dados da Gardner Business Media). Essa realidade não é muito diferente na prestação de serviços.

Portanto, hoje, convivem no País dois tipos de desenvolvimento de carreira. Um na empresa tradicional, mais protegido legalmente com maior oferta de emprego. Outro é o da lógica da startup, mais promissor e mais arriscado. A escolha é de cada um, ressalvado o fato de que se deve saber exatamente o que se está escolhendo. Sem deixar de notar a opção que fez, por exemplo, o rei da Suécia.

(abril 2017)

Claudia Bozzo
O timing é perfeito. O lançamento do documentário “My Way”, pelo serviço de streaming Netflix chega em meio à convulsão criada pela divulgação de centenas de nomes de políticos envolvidos em corrupção no Brasil e na data próxima aos  100 dias do presidente Donald Trump na presidência dos Estados Unidos. Em todas as mentes, um nome é lembrado: Sílvio Berlusconi, o “Cavalieri”, que durante vinte anos dominou a cena política italiana, e como diz reportagem do jornal La Stampa, “mostrou ser Trump antes de Trump”.

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 “My Way” é de 2016 e baseia-se em livro do jornalista norte-americano Alan Friedman – uma biografia autorizada pelo próprio político – que lhe diz, logo no início do documentário:

“Durante anos, muitos jornalistas pediram-me para lhes contar a história da minha vida. Sempre recusei. Aceitei colaborar com Alan Friedman por confiar nele. Como disse Steve Jobs ao seu biógrafo: ‘eu contarei minha história, você escreverá o que quiser’”. Bom, quem assistir “My Way” verá que a adulação não inibe as investidas de Friedman. Nem muda a história.

É um trabalho imperdível. Friedman, que decidiu morar na Itália tem outros importantes livros em seu currículo. Ainda jovem, foi colaborador da administração Jimmy Carter (1987-1981) .  Depois correspondente do jornalFinancial Times, enviado especial do International Herald Tribune, editorialista do Wall Street Journal e produtor e diretor de vários programas de TV na Grã-Bretanha, Estados Unidos e Itália (onde trabalhou na RAI e Sky).

Ao todo, realizou 28 horas de diálogos com o político, registradas em vídeo e incluindo centenas de outras entrevistas, realizadas num período de 18 meses, que somadas completam 100 horas de conversas. O Leone Film Group, dirigido pelos filhos do cineasta falecido em 1989, Sergio Leone (“Era Uma Vez no Oeste” de 1968, “Por um Punhado de Dólares” 1964 e “Era uma vez na América”, 1984, entre outros), adquiriu direitos sobre o livro. O acordo garante que Raffaella e Andrea, filhos de Leone, ficarão com 50% dos direitos de distribuição do filme em todo mundo, além da série romanceada, inspirada na história do fundador de Forza Italia.

Friedman mostra de onde veio a fortuna de Berlusconi, criada a partir de empreendimentos imobiliários (mais uma semelhança com Trump, além da exagerada vaidade, temperamento histriônico, e amizades cultivadas em nome do interesse. As entrevistas são feitas em sua “Villa” em Arcore, com 73 hectares de área e uma mansão com 72 cômodos, recheada por obras de arte de valor incalculável. O ex-político tem quartos e quartos, usados apenas para guardar presentes recebidos de outros políticos, de eleitores e prêmios.

Mas não há espaço que contenha seu ego. Chegou à política como “o novo”, e acabou sendo o mandatário que por mais tempo manteve o cargo no período após a II Guerra. Foi ele o responsável pela “americanização” dos meios de comunicação da Itália, por meio de seu império de comunicações, a Mediaset. Ele se orgulha de ter levado “Dallas” e “Dinastia” para a terra de Michelangelo, e a RAI até hoje mantém o look berlusconiano, com toda a breguice de seus programas. Era proprietário do clube de futebol italiano A. C. Milan, até que vendeu o clube por R$ 2,5 bilhões a um grupo chinês.

Muitos críticos, italianos ou não, consideraram o documentário meio déjà-vu e até mesmo pouco crítico em relação ao retratado. Claro, faltou a virulência de um Nanni Moretti em “Il Caimano” (nome com o qual a esquerda italiana define o político, considerado um crocodilo, ou o predador por excelência). Mas é muito interessante a reconstrução do poderoso – que em muitos aspectos remete também ao personagem retratado em “Cidadão Kane”, obra-prima de 1941, de Orson Welles, que retrata o magnata da mídia norte-americana, Willian Randolph Hearst.

Além disso, é muito rica a pesquisa de imagens, o registro de passagens da vida do retratado, sempre à frente dos holofotes. Em companhia de outros políticos, como Bettino Craxi, o socialista que de 1983 a 1987 foi primeiro-ministro durante uma das fases mais turbulentas da turbulenta Itália, na crise do Banco Ambrosiano e que morreu no exílio na Tunísia aos 65 anos, além de Marcello Dell’Utri, suspeito de ligações com o mundo mafioso. Outro de seus grande amigos – o paralelo chega a ser irônico – é Vladimir Putin, que o “Cavaliere” sempre teve em alta estima.

Embora com mais luvas de pelica, o documentário lembra ainda o famoso encontro de Richard Nixon e David Frost. Friedman entrevista autoridades de peso, como o ex-premier espanhol José Luiz Zapatero e José Manuel Durão Barroso, atual presidente do Banco Goldman Sachs International, que na época da queda de Berlusconi era presidente da Comissão Europeia (2004 a 2014). As câmeras o acompanham ao vestiário do Milan, onde conversa com os jogadores.

Há até mesmo uma incursão ao famoso recinto onde eram realizadas as orgias das quais supostamente Berlusconi participava (ele chegou a ser condenado por manter relações com uma menor de idade) o famoso quarto do “bunga bunga”. O rumo ao declínio, depois de ocupar o cargo de primeiro-ministro em três períodos, mostra um homem que se considerava acima de tudo e todos, quase fragilizado. Ego é ego, mas tem uma hora em que o personagem percebe que é história, passado. Tomara.

Klaus Kleber
A experiência mostra que, quando a inflação dispara, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central não hesita em convocar reunião extraordinária para elevar a taxa básica de juros. Isso nunca aconteceu, porém, quando a inflação despenca, um fenômeno raro, aliás.

Assim sendo, só esta semana, nos dias 11 e 12, o Copom, de acordo rigorosamente com o cronograma anunciado fim do ano passado, se reunirá para reduzir a Selic. Fala-se até em uma baixa de 1,0 ponto percentual, trazendo a taxa de 12,25% para 11,25 a.a. Terá o Copom coragem para tanto ou ficará o corte da taxa em 0,75 p.p., fixando a Selic em 11,50%?

Só vamos conhecer a decisão na próxima quarta-feira, mas, ao que tudo indica, a rápida queda da inflação em decorrência da recessão em que o País ainda está metido tem dado um baile no BC. Numa posição muito desconfortável, os ferrenhos monetaristas que compõem a chamada autoridade monetária gostariam, ao que parece, que a inflação, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fosse deslizando para baixo, mas a uma velocidade menor.

Pode ter sido mesmo uma trabalhada burocrática, mas como se viu, o BC já teve de rever as projeções de inflação em 2017 e em 2018. Primeiro, o Relatório da Inflação do BC, para o primeiro trimestre, estimou o IPCA, ao fim de dezembro, em 3,9% e, no próximo ano, em 4,0%. Chamados a atenção por analistas de mercado, os infelizes autores do Relatório confessaram, logo depois, um “erro operacional” e mudaram suas projeções de inflação para 3,6% em 2017 e 3,3% em 2018.

Vê-se agora que o IPCA, nos últimos 12 meses terminados em março, ficou em 4,57%, atingindo praticamente o centro da meta para este ano (4,5%). Salve, salve! Acontece, porém, que os analistas já preveem que, ao fim de abril, a inflação fique aquém da meta e tende a cair mais a longo do ano. O próprio presidente Temer já admitiu que a meta para a inflação no ano que vem pode ser alterada, mas evitou dizer em quanto ela será fixada.

O problema para o Copom, ainda que baixe a Selic para 11,25% na reunião desta semana, é que parecerá, cada vez mais, em desarmonia com a evolução da inflação. Depois desta quarta-feira, o Copom só poderia baixar a Selic novamente, segundo o cronograma em vigor, na reunião de 30/31 de maio, quando a inflação acumulada no período anual poderá estar bem próxima de 4%.

Assim, o Copom continuará mantendo uma diferença de 6,5 p.p. ou 7,0 p.p. entre a taxa de inflação e a taxa básica de juros, que pode continuar sendo apontada como uma das mais elevadas do mundo. É possível que o Copom justifique essa defasagem afirmando que, embora as taxas de inflação estejam em queda, não há segurança de que manterão essa tendência enquanto não for aprovada a reforma da Previdência, um argumento que vem a calhar.

Há uma outra reforma que a autoridade monetária gostaria: a que daria independência ou autonomia total ao Banco Central, fixando mandatos para seu presidente e diretores. Não há ambiente para isso agora e só poderia haver no futuro se, além da função de guardião da moeda, voltado sobretudo para o combate à inflação, o BC também tivesse alguma responsabilidade com relação ao crescimento econômico, como outros bancos centrais, como o Federal Reserve (Fed) dos EUA.

Dirão alguns que o Brasil não está pronto para isso, como não estava pronto para sofrer a maior recessão econômica de sua história.

Leonardo Trevisan
Qual a melhor projeção de carreira se a economia brasileira acelerar? A capa da The Economist (de 15/03) incluiu o Brasil no conjunto de países que devem voltar a crescer. Um fato: depois de 22 meses de queda o País voltou a abrir vagas em fevereiro. Mas, em que direção estão essas vagas?

Observar o que aconteceu durante a crise ajuda a perceber este rumo. Números do IBGE, divulgados em 8/03, mostraram que o setor de serviço já representa 73,3% da economia. Em 2004 era 64,7%. A indústria de transformação, nos mesmos 12 anos, despencou de 17,8% para 11,7%. Nesse tempo a fábrica encolheu, enquanto restaurante, manicure, banco ou técnico em informática avançaram.

O que aconteceu com indústria e serviços têm muito a ver com produtividade. Nos últimos 3 anos, dados do IBGE, a produção da indústria caiu 4,7% em 2014. No ano seguinte despencou 10,4% e em 2016 outros 5,25% de queda. Os serviços caíram menos, mas caíram: em 2014 ainda cresceram 1% e recuaram os mesmos 2,7% tanto em 2015 como em 2016.

É preciso correlacionar esses números com projeção de carreira. O recuo da indústria tem vários motivos, mas a dificuldade de absorver tecnologia para poder enfrentar o competidor internacional é o maior deles. Nos serviços quase não há competidor externo. Nesse caso, por falta desse competidor também pouco se absorveu tecnologia e menos ainda cresceu a produtividade. Em 2015, 54,8% da população estava empregada em “serviços tradicionais” (comércio, turismo ou trabalho doméstico, por exemplo) enquanto só 12,8% trabalhava em serviços ligados à inovação.

Esses números indicam baixo vínculo com novas tecnologias, tanto na indústria como nos serviços. Pouca produtividade, em ambos, indústria ou serviços, têm a ver com pouca tecnologia. Portanto, projeção de carreira com “bom futuro” exige entender que emprego de qualidade quer dizer, primeiro, desemprenho com produtividade. E, setor com capacidade produtiva quer dizer amistosa convivência com novas tecnologias. Tanto faz se na indústria ou nos serviços.

Gente começando a vida, saindo da escola, ou os mais vividos, que pensam em transição de carreira, precisam definir como “interessante” a empresa que adota novas tecnologias como obrigação. É isso que gera produtividade e sustenta, de verdade, carreiras “de futuro”. Como os dados do IBGE revelam.

(março 2017)

Klaus Kleber
Já li e ouvi várias explicações para o fracasso das manifestações do domingo passado (26 de março). Só uns gatos pingados apareceram diante do vão do MASP, na Av. Paulista, nas proximidades da Candelária, no Rio, na Praça Sete, em Belo Horizonte, e em outros locais públicos nas grandes capitais. Não se tem notícia de manifestações no interiorzão do País. Os noticiários das TVs falaram em centenas de pessoas portando faixas, mas tudo sem alarde.

Prevendo um grande movimento, o aparato militar era forte em São Paulo, com sobrevoo de helicóptero, mais a passeio do que para garantir segurança. A própria Polícia Militar evitou apresentar seus cálculos sobre o número de manifestantes. Para não ter de dizer que gastou dinheiro público à toa.

Dizem que as últimas manifestações falharam porque a pauta era difusa: a favor da Lava-Jato, contra a reforma da Previdência, contra a terceirização do trabalho, contra e a favor disso ou daquilo (houve inclusive uma faixa a favor da volta da ditadura). Mas a melhor explicação que ouvi para o fracasso do protesto – desta vez sem pato da Fiesp, graças a Deus! – foi de um grupo de garotões reunido na padaria aqui perto de casa.

Uma senhora com camisa da seleção brasileira perguntou a eles que bebiam cerveja se eles iriam para a Av. Paulista. Um deles respondeu: “Manifestação não dá emprego!”. Seus amigos riram – e o garçom também. Entre um e outro gole de café, um senhor comentou que o único emprego criado por manifestação foi o de Fernando Holiday, coordenador do Movimento Brasil Livre, eleito vereador em São Paulo nas últimas eleições municipais. Rá-rá-rá.

Se fosse a manifestação de 26 de março fosse contra o desemprego, que já atinge 13,5 milhões de brasileiros, o comparecimento talvez fosse maior. Digo talvez, porque muitos desempregados não gostariam de mostrar a cara em protestos públicos, cercados por uma belicosa PM, o que poderia prejudicar o seu currículo. Mas, obviamente, este é o grande problema do País e que não pode ser resolvido no grito. Ao que tudo indica, a situação pode piorar. Há quem afirme que, antes de começar a baixar, o desemprego deve chegar a 15 milhões.

O País está se ajustando. A previsão é de que a inflação feche o ano em 4%, a balança comercial deve produzir um superávit de mais de US$ 50 bilhões, as reservas internacionais já chegam a US$ 375 bilhões, o governo está cortando desonerações para evitar que o déficit público dispare, o conceito internacional do Brasil está subindo como aquele balãozinho meia-boca na capa da revista The Economist (18/3), as privatizações tardaram mas começaram, afinal, com quatro aeroportos vendidos ao capital estrangeiro, a indústria dá alguns sinais de recuperação, sobe o consumo industrial de energia elétrica, etc. e tal. Mas cadê o emprego?

O quadro, afirmam alguns, vai começar a mudar partir do segundo semestre deste ano, mas tudo irá acontecer muito, muito lentamente… A grande pergunta é: chegaremos às eleições presidenciais de outubro de 2018 com dez milhões, 12 milhões de cidadãos na rua da amargura? E daí, e daí?

Leonardo Trevisan
A pergunta está longe de ser inocente: o que acontece com os humanos quando chegam os robôs? De qualquer tipo. Inclusive os que chegam embutidos nos softs mais baratinhos. Uma resposta é a necessidade de desenvolver o conceito de emprego híbrido o que pede “nova combinação de habilidades”. Este formato convive bem com automação.

Artigo da The Economist (https://economist.turtl.co/story/5846a4eca95bd66532d773d2.pdf?showall=true) discute como pessoas se reinventam na hora de sobreviver à experiência digital. Quando as máquinas envergonham os humanos com maior produtividade e menor custo, é preciso procurar que habilidade os computadores têm mais dificuldade de aprender.

Pesquisa de David Deming (Harvard) mostrou como avançar neste caminho: o mercado recompensa bem “habilidades sociais”. Estas são compostas tanto por criatividade, como por capacidade de solução de problemas e, principalmente por “empatia”. Todas úteis e complementares à automação.

Como sugeriu a Economist, para preservar emprego quando as máquinas chegam é preciso ter a capacidade de “manter-se aprendendo”. Aqui nasce o emprego híbrido. Nesse formato procuram-se pessoas “intelectualmente curiosas”. Empresas automatizadas preferem quem quer “treinar coisas novas” (com o risco do mais capacitado trocar de emprego) a preservar quem “não quer ter novas experiências para ficar onde está”.

A convivência amistosa com sucessivos ciclos tecnológicos desenvolve a necessidade da “inteligência de carreira”. Esse é o ponto. O conceito significa a constante procura do que são novas habilidades típicas das demandas impostas pela evolução tecnológica. Principalmente, buscando novas habilidades na própria empresa. Ou seja, automação pode gerar empregos e não os extinguir. Depende de como se lida com ela.

Nessa lógica, o perfil do profissional que procura apoio na “inteligência de carreira” inclui curiosidade, ambiguidade, flexibilidade e adaptabilidade, exatamente as habilidades que o robô ainda tem dificuldades para conquistar.

Tudo gerando dificuldade extra: empresas que querem conviver com automação devem passar a contratar por capacidade cognitiva. Critérios de obediência passiva e méritos consolidados ficam em segundo plano. Não será um cenário tranquilo.

(março 2017)

A idade da carreira

29 / 03 / 17

Elza Veloso
Em uma visão atual, o que importa para o mundo corporativo é a idade da carreira e não a idade da pessoa. Então, no momento de contratar ou de promover, as experiências profissionais e pessoais mais relevantes deveriam ter prioridade. Porém, o que se vê, atualmente, é a existência de crenças quanto à idade das pessoas que seriam mais adequadas a cada situação ou mesmo a cada empresa.

A visão de que os jovens são imaturos e inconstantes ou de que os mais velhos são desatualizados permeia essas crenças e, muitas vezes, faz com que profissionais experientes sejam descartados apenas por sua idade.

De fato, a carreira perdeu a linearidade em termos de hierarquia. Pessoas jovens, muitas vezes, têm experiências mais valiosas do que os mais velhos para determinados momentos e demandas empresariais. Por outro lado, o fato de um jovem assumir um cargo de liderança de uma equipe com subordinados mais velhos não significa que o respeito à geração anterior deva ceder lugar à arrogância.

O texto de Joanne Kaufman, do New York Times, reproduzido no Estadão, menciona uma executiva com 30 anos de experiência, que ocupava um cargo de vice-presidente de uma associação sem fins lucrativos. Ela teve seu chefe, o diretor-presidente, substituído por um jovem com 36 anos de idade. A partir daí, passou a receber textos e e-mails a qualquer hora do dia ou da noite e a sentir que sua ampla vivência profissional pouco importava. O que chama a atenção no seu depoimento é que ela chegou a se perguntar, quanto ao novo chefe: “que tipo de relação ele teria com sua mãe”.

Nessas situações, também pode acontecer de subordinados mais velhos simplesmente não aceitarem o jovem chefe por sentir que ele, simplesmente, não deveria estar naquela posição. Esse mesmo texto do N Y Times traz uma pesquisa apontando que, já em 2014, 38% dos trabalhadores americanos tinham um chefe mais jovem do que eles. O conflito geracional fica evidente em algumas passagens do texto: quando o chefe ouve algo como “no meu tempo”, logo pensa “seu tempo está errado”. E enquanto trabalhadores mais velhos são levados a pensar que seus chefes acham que eles são dinossauros, de fato, seus chefes têm certeza disso.

Nesse contexto, cabe às empresas, além de promover ações voltadas à melhor convivência entre as diferentes gerações, buscar o amadurecimento de seus processos de escolha de pessoas. É preciso, então, entender que a idade da pessoa nem sempre reflete a idade da carreira que, além da quantidade de experiências profissionais e da formação educacional, inclui a maturidade proveniente da experiência de vida.

Fonte: http://economia.estadao.com.br/blogs/radar-do-emprego/2017/03/21/conflito-de-geracoes-quando-o-chefe-tem-a-metade-da-sua-idade/

Klaus Kleber
Para quem viveu 21 anos sob a ditadura militar, a frequência de manifestações de autoritarismo no Brasil já preocupa. Nunca entendi a necessidade de condução coercitiva de cidadãos que não chegaram a ser intimados pela Justiça. Seria para evitar que o acusado ou denunciado destruísse provas se fosse intimado? Isso justificaria entrar na residência de uma família nas primeiras horas da manhã para revirar todas as gavetas, remexer nas camas e nos sofás e acabar levado documentos, papéis pessoais, computador, celular? “Provas” assim obtidas seriam sempre válidas?

Vá lá que isso seja necessário em alguns casos, mas é preciso tanto estardalhaço, convocando a imprensa para documentar? Será que operações desse tipo são realizadas apenas para “mostrar trabalho”? O caso da operação Carne Fraca é exemplo de como a Polícia Federal resolve agir por conta própria, sem, pelo menos, avisar o ministro da Justiça, que deveria ser seu superior hierárquico, e outros órgãos da administração que poderiam ser afetados.

Tendo havido uma denúncia de irregularidade por funcionários de um Ministério – no caso o da Agricultura – este poderia ser consultado sobre aspecto técnico, pelo menos. Mas a autossuficiência da PF exclui essa possibilidade, e os estragos estão aí. Em apenas uma semana, os frigoríficos perderam US$ 160 milhões em exportações, ou seja, em divisas que o País deixou de auferir. A PF cobre esse prejuízo?

Embora não envolva dinheiro, é ainda pior o caso do blogueiro Eduardo Guimarães, que teve a sua condução coercitiva ordenada pelo juiz Sérgio Moro. O motivo: o blog de Guimarães antecipou em fevereiro uma operação sigilosa determinada pela Lava Jato para conduzir coercitivamente o ex-presidente Lula, como de fato ocorreu. Moro não considerou que o blogueiro estava protegido pelo direito do jornalista de não revelar a fonte, isto porque Guimarães não teria registro profissional, sendo apenas um “comerciante”.

Depois, Moro voltou atrás, dando uma desculpa esfarrapada, em sua linguagem própria, por sua decisão anterior, tomada aparentemente para punir um ato sacrílego. Já em Brasília, vazamentos abundam, todo dia tem um listão “off” de políticos denunciados, e nenhum procurador ou juiz protesta. Como perguntou, o ex-ministro Nelson Jobim, em artigo na Folha de S. Paulo (26/3): “ é admissível o tratamento diverso de situações iguais?”

Antes que venham com pedras na mão, não estou dizendo que isso invalida a Operação Lava Jato. Só que, como todo gato escaldado, tanto mandonismo mexe com a gente.