Klaus Kleber
Com uma dívida monstruosa, a Petrobrás tinha mesmo de vender ativos e, na semana passada, fechou mais um grande negócio ao transferir para a iniciativa privada 90% do gasoduto no Sudeste por US$ 5,2 bilhões. A desestatização vai continuar em marcha batida, prevendo o plano de negócios apresentado recentemente pelo presidente da estatal, Pedro Parente, a venda de ativos no valor de US$ 19,5 bilhões em 2017 e 2018, nas áreas de fertilizantes, petroquímica e biocombustíveis, entre outras.

Fala-se também na possibilidade de refinarias entrarem no bolo. Isso não está confirmado, mas é possível que a Petrobrás, se as condições permitirem, abra a porteira para sócios, principalmente nas refinarias Abreu e Lima, em Pernambuco, e a que deve operar no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).

Parece lógico que a Petrobrás saia de muitas empreitadas em que entrou levada de roldão por uma política de desenvolvimento muito ambiciosos, mas a coisa é diferente quando se trata do “core business” da estatal. Pelo que milhões de brasileiros entendem, a Petrobrás foi criada em resposta a aspiração nacional de produzir petróleo e derivados em território nacional.

Se a empresa se desfizer de suas refinarias no exterior, entre as quais a malfadada unidade de Pasadena, nem a Federação Única dos Petroleiros (FUP) — patrocinadora do movimento “Pára, Pedro” contrário às privatizações feitas pela estatal — vai reclamar.

O caldo vai mesmo engrossar se a empresa começar a vender refinarias construídas no País ao longo dos anos com vistas à auto-suficiência tanto em petróleo em bruto como em derivados. Ao que consta, as refinarias mais antigas estão operando no azul, com os preços da gasolina e do diesel no patamar em que estão agora. Se deram prejuízo tempos atrás foi por causa do grande erro do governo de Dilma Rousseff de manter os preços dos combustíveis congelados.

Isso acabou. Parente promete que os preços dos combustíveis deverão ser fixados de acordo com o mercado internacional, sendo decididos pela própria empresa sem interferência dos escalões superiores, mas, se isso acontecer, será em futuro não definido. É duvidoso também que a Petrobrás possa cumprir com as metas de produção, mesmo com o corte de 25% nos investimentos previstos nos próximos cinco anos, que não deverão passar de US$ 74,1 bilhões.

Seja como for, vender refinarias prontas e em funcionamento em território nacional equivaleria amputar um dos braços da empresa. Independentemente de ideologia, seria péssimo negócio, que comprometeria a solidez futura da estatal, como qualquer bom empresário pode atestar. Pedro está fazendo o que é preciso, mas só não pode fazer essa burrada.

Claudia Bozzo
Que bela janela abriu-se em nossas TVs, com a chegada do Netflix. A série que estreou há pouco, “Billions”, por exemplo, nas mãos de dois atores de primeira, Paul Giamatti e Damian Lewis, traz uma história que teria tudo para ser um grande “déja-vu” ao misturar 11 de setembro, Wall Street e advogados. Mas não é.

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A abordagem do conflito entre dois machos alfa, no caso Giamatti, no papel do Procurador-Geral Chuck Rhoades, que sai à caça do dono de um dos maiores fundos de hedge, Bobby “Axe” Axlerod tem um forte roteiro que se sustenta com base no tripé infalível: boa história, excelentes atores e uma produção de alto nível. O elenco de apoio tem destaques no mesmo padrão. E o melhor: não vai parar na primeira temporada. Na verdade, logo depois da apresentação dos dois primeiros episódios, a Showtime, produtora da série, anunciou uma segunda temporada, que deve ser lançada em breve, em horário nobre.

Pelo enredo, a justiça busca provar que o fundo opera com informações privilegiadas, na conquista de lucros astronômicos, para o falado 1%, grupo que engloba os norte-americanos muito, mas muito ricos. Mas na verdade o que realmente sustenta a trama é o duelo entre o procurador e o bilionário. O procurador, Rhoades, é casado com uma psiquiatra, interpretada por Maggie Siff, que ao mesmo tempo trabalha para a empresa do financista, como coach para ajudar no desempenho dos funcionários. E a sombra de um conflito de interesses que pode vir à tona é mencionada desde o início, acrescentando mais um elemento de suspense, num roteiro que cruza a história equilibrando-se em uma corda bamba.

No elenco destacam-se, claro, Giamatti, que já interpretou o presidente do Federal Reserve em “Grande Demais para Quebrar”, de 2011, e outros personagens memoráveis, como o tímido Miles, que acompanha o amigo em uma viagem de despedida de solteiro pelos vinhedos da Califórnia, em “Sideways, Entre Umas e Outras”, de 2004. Do outro lado do ringue, um britânico já bem aclimatado aos Estados Unidos, onde participou de “Homeland” (iniciada em 2011 e já na 4ª temporada) e que pode ser visto em outra interessante série apresentada pelo Netflix, “Wolf Hall”, produção de 2015 da BBC, na qual interpreta Henrique VIII, em trama sobre a atuação de Cromwell. Em “Billions”, uma das boas frases vem de seu personagem, Axelrod: “ser um bilionário, quando se entra em uma sala, é o mesmo que ser uma mulher com um belo par de seios. Você sabe exatamente o que cada pessoa está olhando e sabe exatamente o que ela quer”.

“Billions” atravessa inúmeros “twists and turns”, as famosas reviravoltas no roteiro, e é difícil prever qual será a próxima jogada, de qualquer um dos lados envolvidos. E como boa história norte-americana, é uma saga sobre dinheiro, mais dinheiro, ambição e poder. Um dos roteiristas é Andrew Ross Sorkin, que escreve há 20 anos sobre o setor financeiro e trabalha para o The New York Times. Em entrevista à Vanity Fair, disse que a autenticidade dos personagens – mesmo que não tenham sido baseados em pessoas em particular – era o mais importante para ele. E criou os personagens a partir de sua experiência, observando o comportamento de muitos magnatas e promotores públicos.

Um dos detalhes mais interessantes, que de certa forma dá o tom da disputa entre os dois personagens principais, é a referência a “Cidadão Kane” (1941), de Orson Welles. Sabe-se que Welles, justificadamente considerado um gênio, tinha uma birra pessoal com Willian Randolph Hearst, o magnata da imprensa que lhe serviu como base para a criação do personagem Kane. A visceralidade da relação entre ambos – dois machos alfas, como o procurador e o financista – extrapolou as telas e além de resultar em um dos mais cultuados filmes da história do cinema, foi a pá de cal na carreira de Welles, pois o poder de Hearst não era contornável.
No caso de “Billions”, os predadores embutidos no conflito entre as duas figuras centrais mantém o interesse pelo enredo. O melhor de tudo é que, mesmo nesse clima de caça e perseguição, não há os bons ou os maus. Só figuras maquiavélicas, que visam o poder, ambicionado por cada um dos personagens, principais ou secundários.

A aposta da Showtime na série é evidenciada pela caríssima produção e pela direção de arte, que estabelece com brilho a ambientação dos habitats das feras urbanas que habitam o cenário. A área onde está o Procurador Geral é sóbria, com ambientes fechados, envoltos em madeira, quase um bunker. Já o mundo do financista é inundado de helicópteros, iates, automóveis de luxo, casas de praia imponentes em Hamptons o luxuoso retiro dos ricos de Nova York e “celebridades”. Difícil mesmo é ter de deixar a série para o dia seguinte, mesmo porque são doze episódios e haja tempo para acompanhar…

Klaus Kleber
O atual governo deu nova embalagem ao programa de concessões da ex-presidente Dilma Rousseff, que não avançou por inércia administrativa durante a fase mais aguda da crise política que o País vem passando desde o início de 2015. Agora, parece que as concessões vão mesmo ser feitas, com Programa de Parceria em Investimentos (PPI), com o codinome de “Crescer”, sendo os principais leilões previstos para ser realizados em 2017. Foram feitas alterações importantes para facilitar a privatização., mas se constata que o governo ainda não tem confiança que atrairá investidores sem lhes conceder doces vantagens creditícias.

Uma trava foi eliminada – a chamada Taxa Interna de Retorno (TIR), fixada em níveis considerados muito baixos, e que inviabilizava na prática concessões mais amplas. Agora, ganha o leilão aquele grupo nacional ou estrangeiro que, além de apresentar padrões de qualidade e experiência no setor, der o maior lance.

Assim, o governo tende a estimular a concorrência, o que deve se traduzir em uma maior receite para o Tesouro. Se as tarifas a serem cobradas – como pedágio, taxa de embarque, preço da energia, etc. — forem excessivos, espera-se que a correção venha pela maior ou menor demanda, Além disso, as agências reguladoras, que devem ser tecnicamente reformuladas, deverão, em tese, ter autoridade para coibir futuros abusos.

Outra medida de bom alvitre é o cuidado do governo de fazer concessões apenas depois de o projeto contar com a aprovação do Tribunal de Contas da União (TCU) e pelos órgãos ambientais. Isso, claro, exige tempo na maioria dos casos, mas evita que os investimentos pelo futuro controlador sejam objeto de contestações que atrasem a sua conclusão. Isto é, se os procuradores da República não sentirem o cheiro de corrupção…

O mais esquisito no pacote é o oferecimento aos futuros concessionários de generosos financiamentos pelo BNDES e pelo Fundo de Investimento do FGTS (FI-FGTS). O governo oferece aos futuros concessionários de aeroportos, portos, distribuidoras de energia, rodovias, ferrovias, empreendimentos na área do petróleo e gás, mineração, empresa de saneamentos, além de loterias hoje administradas pela Caixa – financiamentos de 50% ou mais do total de investimentos, a juros bem camaradas –Taxa de Juros a Longo Prazo (TJLP), hoje em 7,5% a.a. Pra isso, haverá uma dotação de R$ 30 bilhões. (Felizmente, os fundos de pensão de estatais — tão utilizados, principalmente nas privatizações dos governos Collor e FHC – ficarão de fora desta vez).

Ora, no governo anterior, financiamentos igualmente generosos eram oferecidos porque os vencedores dos leilões deviam aceitar uma determinada taxa de retorno. Como esta desapareceu, esperava-se que o volume de financiamentos fosse bem reduzido. Em alguns casos, em que o risco é maior, pois é mais difícil avaliar qual será a demanda — como ocorre com as ferrovias, o financiamento pode ser justificado. Mas será preciso dar dinheiro tão barato para concessionários de rodovias, portos, aeroportos. áreas de mineração e loterias? .

Outra coisa que causa espécie: o atual governo incluiu no pacote de concessões três empresas de saneamento – dos Estados do Rio, Pará e Rondônia. Sabendo-se que menos de 50% dos brasileiros são servidos com esgoto em casa, havendo carências gritantes também no fornecimento de água encanada, especialmente n o Norte e no Nordeste, pergunta-se por que só empresas de saneamento de três Estados foram selecionados?

Mais ainda: por que o governo federal não apresenta um plano nacional de saneamento básico para todo o País? Se não existem recursos, concessões poderiam ser feitas também para outros Estados. Lembra-se que o financiamento do BNDES nesse caso pode chegar a 80% dos projetos, o que poderia atrair investimentos também para o Piauí ou para a Bahia, para citar apenas dois Estados não contemplados.

Claudia Bozzo
O diretor de “Capital Humano” (2013), Paolo Virzì, visualizou seu próximo filme, “Loucas de Alegria” (2016) – em exibição em São Paulo – exatamente nas cenas finais do anterior (que acabou recebendo sete prêmios David de Donatello, o “Oscar” italiano). Virzì filmou dois finais para “Capital”, como contou em entrevista a um jornal italiano: “Rodamos aquele que acabou fazendo parte do filme, com a esposa acompanhando o marido e um outro, com a mesma personagem, que opta por fugir, e toda elegante, nos seus saltos, vai parar em uma área escarpada”.

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Virzì havia imaginado a contratação de um figurante para o papel interpretado por Valeria Bruni Tedeschi, e em vez disso, ela mesma, “feliz e com os pés ensanguentados, voltou da escarpa e chamou a equipe: ‘vamos rodar de novo’. Foi aí que nasceu a personagem Beatrice Morandini Valdirana”, interpretada com brilho pela própria Valeria diz o diretor, uma das grandes figuras do atual cinema italiano.

“Capital Humano”, por sinal, já chegou à TV a cabo, depois de uma temporada bem-sucedida nos cinemas. E “Loucas de Alegria” foi um sucesso de bilheteria na Itália, atraindo 2 milhões de espectadores, em apenas dez dias.

A obra pode ser encaixada na categoria de ‘comédia dramática’ e traz um retrado de duas mulheres que engendram uma improvável amizade, em Villa Biondi, chamada de “comunidade terapêutica para mulheres com distúrbios mentais”, no interior da Toscana. Valeria e Micaela Ramazzotti interpretam Beatrice e Donatella. A primeira, com seus ares de ricaça, logo se encanta com a outra, que chega em situação muito difícil, magra, malcuidada, tatuada, claramente infeliz com suas cicatrizes de um mal sucedido suicídio e isolada do mundo com seu MP3. Vê-se de imediato que a verdadeira loucura das outras internas a entedia, e o personagem mais complexo, rico e extremamente triste da recém-chegada Donatella mobiliza seus sentimentos.

O filme tem diálogos – e monólogos – muito divertidos e a rica Beatrice (aos poucos vamos sabendo mais e mais sobre ela), a todo instante cita “o presidente”, e acabamos sabendo que sim, é de Berlusconi que ela está falando… Seu celular tem o registro até de George Clooney e mesmo que ninguém preste atenção ao que diz, suas observações sobre moda, política, arte, são tudo, menos delírios de louco.

Em ritmo cadenciado pela evolução da trama, o filme vai mostrando, com flashbacks e diálogos, a história daquelas duas mulheres, que quando encontram uma chance, fogem do sanatório. Numa fuga pela bela Toscana, poderiam até lembrar “Thelma & Louise” (1991), as inesquecíveis heroínas de Ridley Scott. Mas o próprio Virzì declarou em uma entrevista que ambas estão mais para o personagem interpretado por Jack Nicholson em “Um Estranho no Ninho” (1975), de Milos Forman. Para ele, há também traços de Blanche Dubois, do “O Bonde Chamado Desejo” de Tennesee Williams em Beatrice (Bruni Tedeschi).

A trama encara de frente o tema dos problemas mentais com comédia na aventura e traços comoventes que dão destaque ao contraste entre doença e saúde, ao cruzar a rota das duas personagens com a de pessoas “oficialmente sãs”, que fazem parte de suas vidas: mães nada afetuosas, os pais distantes, companheiros egoístas e ausentes.

Valéria Bruni Tedeschi, atriz com um interessante histórico no papel de diretora conta que conhece bem a loucura. “Não me considero louca, e nem ‘não louca’. Respeito as pessoas com tal diagnóstico. Sinto que consigo funcionar melhor porque administro a hipocrisia que nos permite viver em sociedade. Mas no fundo, sou igualmente desesperada”.

E “Loucas de Alegria” é exatamente um filme sobre a saudável loucura para a qual a vida encaminha pessoas muito sensíveis, como Beatrice e Donatella. A atriz que interpreta Donatella é a romana Micaela Ramazzotti, casada com o diretor Virzì, que depois de participar da apresentação do filme no último festival de Cannes, saudado com uma ‘standig ovation’ comentou que eles conseguiram levar à mostra competitiva “a euforia irracional do nosso filme”.

Valéria, irmã de Carla Bruni, a ex-primeira-dama francesa, levou a mãe para fazer um dos personagens do filme e mostrou-se admirada com a disposição dela de, aos 70 anos, encontrar-se ao exercer uma nova atividade. Outro ponto de destaque do filme é uma bela canção dos anos 1960, “Senza fine”, de Gino Paoli, atrelada a um dos personagens “normais” do enredo.

Klaus Kleber
A equipe econômica montada em torno do ministro da Fazenda Henrique Meirelles não se cansa de reclamar das desonerações tributárias concedidas pelo governo da ex-presidente Dilma Rousseff a diversos a setores industriais. Não é para menos: cálculos feitos pela Secretaria da Receita Federal indicam que as isenções de impostos concedidas desde 2011 a pessoas jurídicas somam R$ 458 bilhões. A arrecadação tributária tem sofrido com isso e vai continuar sofrendo porque há desonerações que só terminam em 2018.

Disso se esquecem os empresários que dizem que não querem mais “pagar o pato”. Agora, além de não pagar, eles estão querendo comer o pato. No pós-impeachment, entidades empresariais desfraldam a bandeira de uma nova edição daquele quebra-galho inventado no Brasil para que as empresas adiem indefinitivamente o recolhimento de impostos – o Refis ou programa de “recuperação” fiscal.

De muitas descaídas, pedaladas e despedaladas fiscais os governos petistas podem ser acusados. Mas não foram eles que inventaram o Refis, uma bondade feita pelo governo FHC em 2000 e que está completando 16 aninhos. Milhares empresas entraram o Refis, tido como uma taboa de salvação, com prazos para regularização de débitos tributários que às vezes se estendiam por décadas. Reportagem do Estadão (9/9) mostra o resultado daquela célebre obra de ficção: do total de débitos tributários inscritos no primeiro Refis só foram recolhidos aos cofres públicos 3,4%.

O que nem FHC seu ministro da Fazenda, Pedro Malan, desconfiavam é que estavam criando o moto perpétuo tributário. Desde a primeira edição do Refis, a Receita já fez 27 parcelamentos especiais, às vezes com nomes diversos como Paes e Paex. O mais famoso é o Refis da Crise de 2009, no governo Lula, aprovado pelo Congresso, diga-se de passagem. Saldo: 33,08% dos contribuintes já saíram do programa, deixando de pagar R$ 54,36 bilhões.

O negócio é o seguinte: a empresa entra em um Refis, não recolhe a parcela prevista do imposto ou só recolhe em parte, aí vem outro programa, ela se inscreve novamente, paga alguma coisa e deixa o saldo para um novo Refis, e vai em frente.

Segundo foi noticiado, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, alega que as empresas não conseguem recuperar a atividade econômica se não tiverem financiamento para recolher impostos e isso justifica uma nova edição revista e melhorada do Refis, já solicitada ao ministro da Fazenda. Se o pleito for atendido, empresas mil vão topar para receber uma certidão de regularidade fiscal.

Aliás, como diz Andrade, o governo federal já fez um Refis para os governos estaduais, alongando suas dívidas, e pode fazer o mesmo para as empresas.

Haja pato!

Leonardo Trevisan
Aumentou o susto. Um aplicativo novo permite agendar consultas médicas e comentar o atendimento recebido. Semelhante ao TripAdvisor (o guia dos viajantes) deixa o paciente ler opiniões sobre o médico escolhido. Tudo na rede. Sem intermediários. Só em São Paulo, em um mês, 5 mil médicos já se inscreveram no app (Estadão de 18/03).

Fica a sensação que algum aplicativo mudará tudo, em qualquer emprego. Há certo exagero nesta imagem. Na mistura entre trabalho e tecnologia, o que está em jogo é busca de eficiência e produtividade, com mudança no formato do emprego. Antes de ver tecnologia como ameaça, é melhor pensar nela como aliada. A impressão inicial é que todo avanço tecnológico destrói empregos. Não é só isto. Eles também abrem “portas’. Depende da capacidade de cada um para aceitar mudanças.

Como medir essa capacidade de ver que o mundo mudou? Como lidar com o avanço tecnológico? Bruno Michel, chefe do laboratório de microintegração da IBM em Zurique, entrevistado pela The Economist, avisou: “se você quer trabalhar com um campo novo na sua área de trabalho, não seja conduzido pela criatividade, mas preste atenção no impacto”. A entrevista está no endereço: http://www.economist.com/technology-quarterly/2016-03-12/after-moores-law

Deslumbramento com criatividade tecnológica exige cuidado. Criação é importante, mas o que mais conta é o impacto daquele avanço no trabalho. Impacto de nova tecnologia quer dizer, quanto menos tempo para fazer a tarefa, qual a produtividade alcançada e, principalmente, se altera – ou não – a relação entre oferta e procura para aquele produto ou serviço.

O envolvimento inteligente (no sentido de cognitivo) com o “impacto” de um avanço pede outra competência: o engajamento tecnológico. É este que permite enxergar aquela tarefa ou produto que recebeu inovação como “plataforma de negócio”. É este engajamento que faz o médico perceber que o novo app gera clientela “independente”, essencialmente, “sua”. Quando se mede impacto e não deslumbramento, tecnologia vira aliada e não ameaça.

O aviso do pesquisador da IBM vale tanto para o trabalhador quanto para a empresa. “Destruição criativa” não distingue capital ou trabalho. A lógica de “a fila andou” vale para todos. Sem exceção. Com regra inapelável: na mudança só fica vivo, quem a entende.

(abril 2016)

Klaus Kleber
Chegou-se a noticiar que, durante a visita do presidente Michel Temer à China, seria anunciada a criação de um fundo no valor de US$ 20 bilhões para investimentos no Brasil, devendo o governo de Pequim entrar com US$ 15 bilhões, cifra que seria complementada por US$ 5 bilhões provenientes das reservas brasileiras. Isso seria feito sob os auspícios do Banco dos Brics ou Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), criado depois de sucessivas reuniões de cúpula nos últimos anos, com a presença dos chefes de governo do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Assim, Temer colheria um dos frutos da diplomacia econômica posta em prática nos governos do ex-presidente Lula e, principalmente, da ex-presidente Dilma Rousseff. Pode ser que o tal fundo ainda saia, mas até este domingo (4), não há nenhuma menção a isso. A essa altura, a ideia parece quimérica.

O que se tem noticiado são gestões do governo brasileiro para atrair investimentos para o País, boa parte dos quais poderia vir da China. Em palestra para investidores chineses, o ministro da Fazenda Henrique Meirelles discorreu sobre um cardápio de oportunidades para investimento em infraestrutura no País, com iguarias que chegariam a nada menos que US$ 269 bilhões até 2019, dinheirão que ingressaria via mercado.

Assim, parece que aquela foto de Dilma Rousseff dando as mãos ao russo Vladimir Putin, ao indiano Manmhohar Singh, ao chinês Xi Jinping e o sul-africano Jacob Zuma, parece ser destinada a ser um retrato na parede da futura residência da ex-presidente brasileira. O Dr. Singh já cedeu sua cadeira para Narendra Modi, na Índia, e Dilma está aprontando as malas para ceder o Alvorada para o inquilino do Jaburu. Os outros permanecem no poder, mas menos dispostos a abraços.

Pode ser que a substituição de Singh por Modi tenha algo a ver a perda de projeção dos Banco do Brics. Modi é muito mais pró-mercado e poderia não estar interessado na formação de uma instituição que poderia fazer alguma sombra ao Banco Mundial (BIRD) e, quem sabe, ao Fundo Monetário Internacional FMI). E pode bem ser que o que foi tratado pelos governos petistas não valha para o governo Temer.

Por certo, com a Rússia em recessão, sofrendo muito com os embargos dos EUA e da União Europeia (UE), a África do Sul com distúrbios internos e o Brasil do jeito que está, os Brics saíram de moda e parece não existir mais clima para um a aliança econômica de grande envergadura entre eles. A China estaria mais de olho na Aliança Trans-Pacífico, embora a participação efetiva dos EUA seja contestada pelos dois principais candidatos à Casa Branca no pleito de novembro – uma rara coincidência entre os pontos de vista de Donald Trump e Hillary Clinton.

Para o Brasil, a vantagem do Banco dos Brics era proporcionar uma forma de aplicação de parte das reservas em combinação com recursos de outras fontes, para promover o seu desenvolvimento e de outros países que poderiam tornar-se parceiros comerciais mais atraentes, do antigamente chamado Terceiro Mundo.

O que o atual governo vai fazer com as reservas tão elevadas (US$ 377 bilhões), que não rendem nada, não se sabe. Provavelmente, o governo vai mexer nisso, como deixou transparecer o presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, mas tudo vai depender do andamento das tão propaladas reformas.

Leonardo Trevisan
Ninguém se surpreendeu porque a tendência é essa mesma. O Google escolheu, para desenhar seu futuro no Brasil, 15 startups (entre 850 inscritos) para receber monitoria e acompanhamento do próprio Google, além de espaço para trabalhar no prédio da empresa (Estado, 09/08, pg B16).

Esse caminho não é caso isolado. Cada vez mais empresas, de qualquer tamanho, percebem que a rota para renovar processos e produtos não está mais só nos seus quadros. Aqui entra a startup, empresa que nasceu de uma ideia que se consolida, quase sempre , via app. A operacionalidade delas é bem diferente dos mecanismos conhecidos de inovação.

A startup mexe com o “estabelecido” nas empresas. A The Economist descreveu o papel que os “desenvolvedores de software” passaram a ter nas organizações. O ponto central é que a influência dos “nerds”, como disse a revista, “agora vai além da tecnologia”. Nerds ganharam influência na cultura da empresa. De qualquer idade ou tamanho. A Economist cunhou a expressão “geek economy” para definir essa influência. Este artigo está no endereço: http://www.economist.com/news/business/21702183-forget-cool-kids-geeks-are-now-shaping-new-products-and-services-be-nice-nerds

A economia dos nerds vai mexer com o futuro profissional de todos. Exemplos não faltam. Para “aumentar lucros” a Coca-Cola contrata startups em 10 países. Uma delas desenvolveu soft para repor mais rápido prateleiras vazias. Outra startup, ajuda a empresa a entender melhor os padrões de venda em suas 10 milhões de máquinas automáticas.

Artigo do The Wall Street Journal, assinado por Christina Rogers, mostrou que a GM investiu US$ 1 bilhão em startups de direção eletrônica. A Toyota foi direto ao Vale do Silício. A Ford investiu US$ 200 milhões em desenvolvedores de computação em nuvem. Ou seja, o futuro chega pela startup.

É engano pensar que essa é solução de gigantes. Basta entrar em uma padaria renovada. Junto ao pão e cafezinho está um mundo de negócios novos que chega pela rota da startup sem nem saber que tem esse nome.

Em qualquer negócio, boa parte da inovação chega pelo nerd. Carreiras e gestão de pessoas também serão diferentes nesse processo. Sem exceções. Por motivo claro: o que está em jogo, com a ajuda da startup, é produtividade. E, é preciso reconhecer que a discussão de carreiras no Brasil passa longe da lógica da produtividade. A solução startup diminui essa distância.

(agosto 2016)

Klaus Kleber
Da torrente de juridiquês dos intermináveis debates do julgamento da presidente Dilma Rousseff no Senado, pesquei o título do presente artigo. Não disponho de conhecimentos para analisar o que a expressão significa em termos jurídicos, no contexto em que foi empregada, mas ela pode ajudar a avaliar os desafios que Michel Temer terá pela frente se for efetivado como presidente – e tudo indica que vai ser na semana que se inicia.

Se se comprovar, mais uma vez, que a primeira fase de um mandato presidencial no Brasil é devotada à tentativa de colocar em vigor o programa de governo e a segunda é dominada pela encarniçada luta política pela sucessão do detentor da faixa, pode-se dizer, por essa lógica intrínseca, que o prazo médio da política econômica de Temer é de 16 meses a contar a 1º. de setembro próximo.

Bem até o dia 31, quarta-feira, o governo terá de apresentar a sua proposta orçamentária para 2017 — o ano crucial para a gestão do paulista de Tietê – e há algum tempo a equipe do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, estabeleceu que o déficit não pode ser superior a R$ 139 bilhões no próximo ano, e não tem conversa. De fato, se essa meta escapar do controle, a equipe de econômica será desmoralizado e, se Temer continuar no baralho, não passará de um dois de paus.

A grande questão é saber será preciso ou não aumentar os impostos. Volta e meia, a voz tonitruante de Meirelles adverte que, se não for colocada em prática uma política de austeridade, o aumento de tributos será inevitável, Até agora, esses rugidos não têm surtido efeito, mas Temer tinha a desculpa que precisava de sua base parlamentar, especialmente no Senado, para se manter no cargo, mas, depois dessa semana, ele não terá mais saída tão cômoda.

`´E duvidoso que o PIB cresça 1,5% ou 2% em 2017, mas não é impossível. Isso ajudará muito a arrecadação. Além disso, segundo se noticia, o governo aumentou a previsão de receita com privatizações e concessões, que antes era de R$ 25 bilhões a R$ 30 bilhões, agora passou de R$ 40 bilhões, É uma meta ambiciosa, mas o governo se disporia a transferir para o setor privado aeroportos, portos, rodovias, hidroelétricas, campos de petróleo, loterias, além de vendas imóveis do patrimônio da União.

O tempo parece pouco para fazer tudo isso até o fim de 2017. Temer pode ser um bom vendedor, até mesmo por sua origem árabe, e vai testar suas habilidades na viagem internacional programada para o início do próximo mês, O primeiro destino é a China. É sabido o gosto chinês por ferrovias e, quem sabe, o presidente consiga vender a extensão já pronta da Norte-Sul e projetos em andamento com a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol).

Mas chinês que se preza não compra nada de um a hora para outra e, antes de mais nada, o governo precisaria de um programa para essa área, que, se for a sério, não poderia levar ao fechamento da inoperante Valec e seus penduricalhos de indicações políticas.

No terreno das intenções, tudo bem, mas poucos são aqueles que acreditam que a meta do déficit de 2017 possa ser alcançada, sem um rigorosíssimo controle de despesas, sem reajustes para o pessoal – incluindo o suntuoso Judiciário nacional – e sem algum aumento de imposto. Pode ser que tudo corra a contento até fim deste ano, mas tem gente no mercado que dá como certo, pelo menos, um aumento da alíquota da Cide sobre combustíveis.

A Fiesp não colocará pato em frente de sua sede na Av. Paulista por causa disso. O pato, engordado por desonerações para o setor industrial, não engole mesmo é CPMF.

Claudia Bozzo
Um dos mais bem sucedidos fundadores do movimento “dogma95”, ao lado de Lars Von Trier, o dinamarquês Thomas Vinterberg tem marcado sua presença com grande regularidade, depois de ter lançado com grande e merecido sucesso o demolidor “Festa de Família” (1998) no qual a comemoração os 60 anos de um patriarca transformam-se em um pesadelo de revelações e verdades jamais expostas na família.

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Ele fez, recentemente “Longe Deste Insensato Mundo” (2015), “A Caça” (2012) no qual Mads Mikkelsen, no papel de um professor primário é tomado por pedófilo, devido a um mal entendido. Fez também “Submarino”, de 2010, exibido no Brasil em 2011 e em 2005 teve lançado aqui “Querida Wendy”, um estranho faroeste (?) com roteiro de Lars Von Trier.

Agora ele está de volta com “A Comunidade”, que faz parte do festival Ponte Nórdica, lançado em horários infelizes no Belas Artes (com a maior parte das sessões às 16h00 e 18h30). Tudo bem, pelo menos existe a promessa de que esses filmes entrem em cartaz em horários mais acessíveis.

“A Comunidade” é uma visão crítica dos anos 1960/70 nos quais a geração hippie se unia em celebrações, manifestações e moradia. É um filme de 2016, e mostra a decisão de Erik, (o ator Ulrich Thomsen, o mesmo de “Festa de Família”), que ao receber de herança a imensa casa dos pais, decide, com a mulher e a filha, criar uma comunidade, chamando os conhecidos, que antes precisam passar por uma “entrevista” antes de serem admitidos na nova moradia.

O próprio Vinterberg, jovem, com 47 anos, diz que toda sua vida foi “uma experiência bastante comunitária; crescendo em uma casa cheia de felizes hippies, com jantares festivos três noites por semana e constantemente cercado de pessoas que celebravam o espírito comunitário. Quem olhar para os filmes que fiz, verá que todos eles trazem esse tema”.

Mas sempre existe um “mas”. Nem tudo são flores, paz e amor e no caso de “A Comunidade”, o elemento que vai instalar certo caos é a paixão e a queda de uma das ilusões daqueles tempos, o amor livre. O tema vai além de fidelidade, mesmo porque seguindo os mantras da época, tudo é exposto e compartilhado, tudo é explicado. Mas nem sempre bem digerido.

A paixão de Erik por uma aluna, bem mais jovem que a esposa, uma bem-sucedida jornalista de TV, cria ondas de choque e abala de certa forma, todo o grupo.

O interessante é ver que no mundo globalizado de hoje (segundo os mais realistas, a caminho da desglobalização) muito do que se sabia naquela época sobre os países nórdicos vinha de informações de livros, um ou outro filme (quando muito os do Ingmar Bergman), jornais e revistas. Mas o cinema encurta distâncias. Na Mostra de Cinema do ano passado, um outro filme, “Itsi Bitsi” de 2014, dirigido por Ole Christian Madsen (o mesmo diretor de “Jalla Jalla”) contra a história da legendária banda Steppeulven, na década de 1960, misturada a drogas, paixões, amor livre, muita música, poesia, ativismo pela paz e uma juventude que era contra o establishment.

“A Comunidade” traz para hoje o que já é história. E se une a “Janis, Little Girl Blue”, a biografia de Janis Joplin com uma época cujo fim foi acelerado pela chegada da Aids, embora no caso das drogas e rock, duas das pernas do tripé tenham se mantido. É interessante ver a real geração sexo, drogas e rock’n roll nas telas, como história. Com o pano de fundo da guerra do Vietnã, da guerra fria, de uma era nuclear completamente ativa. Na verdade, os conflitos só mudaram de endereço e os atores de nome e nacionalidade. Mas o mundo, esse continua pouco tranquilo. E cada vez mais concentrado nas mãos de poucos.