Claudia Bozzo
Em mãos competentes, as câmeras cinematográficas podem abrigar, ao mesmo tempo, poesia e emoção, o momento, o passado e o futuro. É o que acontece com o mágico e belíssimo filme “Visages Vilages” (2017) de Agnés Varda, uma das mais importantes cineastas do mundo, que caminha para os noventa anos, em maio, e do fotógrafo JR.

O documentário levanta a questão várias vezes: onde foi que essas duas figuras, que 55 anos de idade separam, vieram a se encontrar? Não foi numa beira de estrada em busca de carona, nem numa padaria ou parada de ônibus. Nem num site de encontros.

O certo é que a parceria é perfeita. Os dois compartilham uma visão poética, estética, terna e emotiva pela França (país que a belga Varda adotou, e onde mora no 14eme., em Paris, tendo sido casada durante muitos anos com o cineasta Jacques Demy, falecido aos 59 anos, em 1990). Varda e JR enxergam o mundo pelas mesmas lentes, embora para Varda o foco, com a idade e uma condição clínica complicada, seja menos preciso.

O documentário concorre ao Oscar como melhor documentário de longa-metragem, e seu efeito é mágico. A leveza vem da facilidade de diálogo e convivência entre ela e o fotógrafo, ambos com um inteligente e rápido senso de humor.

É um mergulho no cotidiano das pessoas que vivem nos vilarejos do interior da França, levando o registro de seus personagens e integrando-os à paisagem. JR tem uma caminhonete que, além de fotografar as pessoas, imprime imagens no tamanho que ele quiser. São os os retratos que vão adornar o habitat daqueles cidadãos. A garçonete, o carteiro, as mulheres dos estivadores, os funcionários de uma fábrica, a moradora de uma antiga vila de mineiros que resiste à mudança, embora os vizinhos tenham ido embora. Ou a foto de um fazendeiro no galpão de sua propriedade.

Nem um enorme bloco de concreto jogado em uma praia da Normandia, rejeito ainda da segunda guerra, escapa de tornar-se personagem.

Mas o filme não é feito só de impactantes soluções estéticas. Há as histórias dos cidadãos, o respeito pelo passado e pelo ambiente, o amor à terra natal. Eles resgatam a foto de antepassados e a enquadram em uma moldura, antes de colar em uma parede. Todas as superfícies, ásperas, lisas ou deterioradas, dialogam com as fotos. Seja pelo local onde estão, como uma caixa d’água com peixes colados, a um vagão de trem com os olhos e os pés de Varda ou os contêiners com a foto das esposas de estivadores.

Uma arte efêmera, pois trata-se de papel, colado em superfícies ao ar livre. Mas multiplicada pela era digital, pois torna-se o tema de inúmeros selfies. Como comenta o dono do bar onde trabalha a garçonete, retratada descalça, com uma sombrinha: “ela chegou há pouco tempo, e agora é a pessoa mais famosa da cidade”. Entre seus fotógrafos, os dois filhos, buscando o melhor ângulo para um selfie.

Varda, personagem das mais importantes aa Nouvelle Vague, a onda que mudou o modo de fazer cinema no mundo, menciona várias vezes o cineasta Jean-Luc Godard, comparando à JR, pois como o cineasta mais amado e mais odiado em todos os tempos, JR também não se separa dos óculos escuros. Ela quer o tempo todo, que JR tire seus óculos. E há uma cena de Goddard sem os seus, com lágrimas nos olhos, que Varda filmou e reproduz no documentário.

A viagem de ambos pela França inclui uma visita ao túmulo de outro ícone da cultura francesa, o fotógrafo Henri Cartier-Bresson, em um pequeno cemitério com apenas 14 tumbas, no pé dos alpes.

O gato de Varda é personagem do documentário, às vezes nos ombros dela, ou deitado na estante ao lado da janela. Na semana passada, impossibilitada de ir a Hollywood para um almoço de candidatos ao Oscar, ela mandou fotos suas, em tamanho natural, que JR levou para ficar ao seu lado e uma delas, ao lado do diretor de “A Forma da Água”, Guillermo del Toro, tem Varda e seu gato.

Que não reste a menor dúvida: esse é um filme para quem quer sair feliz do cinema. Duvida? Pois veja o trailer, no YouTube, ou qualquer outro lugar. E não é o tipo de filme que se pode sentar no sofá e esperar que ele chegue pelo Netflix, ou pela TV a cabo. É na telona que ele está em seu ambiente e passa melhor toda a emoção da arte no cinema. Pura magia.

Turbilhão de dólares

04 / 02 / 18

Klaus Kleber
Há quem já preveja que a redução dos impostos para as empresas e para os mais ricos nos EUA, a única vitória importante do presidente Donald Trump até agora, vai prejudicar o Brasil, carreando menos dólares para cá. Isso sem falar no recrudescimento do protecionismo, outra marca do controverso ocupante da Casa Branca.

Isso pode ocorrer em algum ponto no futuro, mas até onde se pode prever, esta é uma perspectiva remota. Como foi noticiado, a captação de empresas brasileiras no mercado internacional em janeiro não foi impactada pelo rebaixamento da nota do País pela Standard & Poor’s (S&P), ensaiado também por outras agências ede classificação de risco.

Até 29 de janeiro, essa captação já tinha chegado a US$ 7,155 bilhões. É verdade que houve o lançamento de US$ 2 bilhões de bônus pela Petrobrás, em condições muito favoráveis. Mas algumas empresas privadas estrearam no mercado externo com sucesso, como a Natura e a Hidrovias do Brasil.

Além disso, o saldo da balança comercial em janeiro (US$ 2,76 bilhões) foi muito bom, com um avanço de 13,8% das exportações em comparação com o mesmo mês de 2017, somando US$ 16,96 bilhões). Essa performance mostra que o ciclo de alta das commodities ainda está em curso. As importações estão reagindo, tendo tido um crescimento de 16,4%, chegando a US$ 14,19 bilhões, mas isso está longe de comprometer o saldo comercial.

A continuar nessa marcha, é possível que o País venha ter um novo superávit comercial recorde em 2018. O Banco Central prevê um saldo de US$ 59 bilhões, mas, como ocorreu em 2017, isso pode ser uma subestimativa.

A grande preocupação é com investimentos estrangeiros diretos (IED). Trump quer que as multinacionais com sede nos EUA abram mais fábricas ou laboratórios no território americano, aproveitando a redução da carga tributária. Acontece que, no Brasil, os maiores investimentos estrangeiros têm vindo da China e, em casos específicos, como do petróleo, da Noruega e outros países.

E não deixa de ser duvidoso que companhias americanas, há décadas instaladas no País, venham a ceder espaço para concorrentes, deixando de investir aqui. De qualquer forma, se as privatizações forem em frente, a entrada de IED pode superar US$ 80 bilhões este ano, que a projeção do do BC.

Em suma o turbilhão de dólares não deve encolher tão cedo, apesar de este ser um ano eleitoral. Bem a propósito, as reservas internacionais do Brasil continuam subindo e entraram fevereiro na marca de US$ 383,47 bilhões.

Klaus Kleber
Com a condenação do ex-presidente Lula pelo Tribunal Regional Federal da 4ª. Região (TRF-4) no último dia 24, pode-dizer que se encerra um ciclo histórico iniciado com a promulgação da Constituição de 1988. A rigor, o ciclo de 30 anos chegaria ao fim em outubro, mês em que foi promulgada a Carta Magna, mas o virtual afastamento de Lula do pleito presidencial deste ano é um dos acontecimentos mais marcantes deste período.

Caberá aos historiadores analisar a ascensão e queda de Lula e do PT, depois da maior recessão de nossa história. Os que escreverem sobre esses tempos bicudos, não deixarão de salientar também a exacerbação das atribuições do Poder Judiciário, a agressividade da direita, o clima de violência que toma conta do País e, para completar, o surgimento de uma epidemia de febre amarela.

Sob o ponto de vista puramente econômico, esse ciclo começou com o Brasil altamente endividado no exterior, com hiperinflação, com a economia crescendo ainda que tropegamente, mantendo o emprego em níveis razoáveis, com péssima distribuição de renda, mas havia muita esperança no futuro, em um ambiente de euforia democrática, com imprensa e eleições realmente livres.

O ciclo termina com o País com reservas de US$ 380 bilhões, com uma dívida interna pífia, com uma inflação em torno de 3% ao ano, mas com uma crise fiscal ao lado de um desemprego altíssimo e com poucos avanços na distribuição de renda. Diriam alguns que o País trocou a dívida externa pela interna e deu no que deu. A economia começa a reagir, mas o governo só acena para o povo com novos sacrifícios. E nunca talvez tantos brasileiros emigraram ou pensam em emigrar.

Há pitonisas por todo canto, mas ninguém é capaz ainda de esboçar um cenário crível para as eleições presidenciais. Estando excluída a hipótese de uma candidatura de Lula, embora alguns graduados petistas insistam que o ex-presidente será candidato, o que se procura discernir é se qual será o vencedor do pleito de outubro: a direita, o centro-direita, o centrão ou a centro-esquerda.

A meu ver é que tudo vai depender de como Lula e cúpula do PT vão agir daqui em diante. Se tiverem bom senso – e bom senso não é uma das características do partido – não levarão a candidatura do ex-presidente “até o fim”, mesmo estando ele preso.

A melhor alternativa para o partido, a meu ver, seria apoiar um dos candidatos da centro-esquerda no plano presidencial, fortalecer os governadores petistas que buscarão a reeleição e procurar garantir uma boa bancada no Congresso. O candidato apoiado pelo PT pode perfeitamente ir para o 2º. turno e talvez chegar ao Palácio do Planalto.

Tudo isso é especulação, mas o certo é que o ciclo de Lula acabou e a questão agora saber em que medida o ex-presidente, ainda tão popular, poderá influenciar o ciclo seguinte.

Claudia Bozzo
Em entrevista recente, Tom Hanks definiu o filme de Steven Spielberg, “The Post – A guerra secreta” como “a história da semana em que Katharine Graham tornou-se Katharine Graham”. Mais uma das razões que tornam o filme bastante atual e interessante, pois trata da atuação de vários presidentes que mentiram descaradamente ao povo americano sobre a condução da Guerra do Vietnã, contando com um roteiro bem amarrado e uma narrativa esclarecedora. A história traz temas atuais, pois os EUA de agora enfrentam um mandatário que acusa a imprensa de mentir (o ataque é a melhor defesa?) e uma espécie de ‘nova’ revolução feminista, quando um novo senso ético se impõe, com o movimento #MeToo, de denúncia dos casos de assédio sexual, contra mulheres e contra homens.

De qualquer forma, a bravura do The Washington Post, assim como do The New York Times – que na verdade foi responsável pelo furo – naqueles longínquos anos setenta (no século passado!) – é a saga de época em que ficou mais evidente o compromisso da imprensa com a ética, a denúncia de violações e o serviço público. No caso, a opção de Steven Spielberg, claramente, foi de fazer um filme didático, onde não faltam informações sobre o tema central da trama, o vazamento dos Papéis do Pentágono. Esses documentos faziam parte de um estudo encomendado pelo então secretário da Defesa, Robert McNamara, a uma empresa chamada Rand Corporation, sobre as possibilidades de vitória no conflito do Sudeste Asiático. O presidente na época era Richard Nixon.

Os documentos vieram a público graças ao esforço de um pacifista e ativista que trabalhou na Rand Corporation como analista militar, Daniel Ellsberg, que como John Snowden (no século XXI), sacrificou sua vida pessoal em nome de ideais. Nos EUA, tais pessoas são chamadas de “whistleblower” sem qualquer conotação negativa – alguém que “assopra o apito”, e expõe a público delitos ou infrações cometidas por uma organização com a finalidade de dar um fim a isso. Ele chegou a ser considerado “O Homem Mais Perigoso da América”, título do filme de 2009 que conta sua história. É interpretado pelo ator britânico Matthew Rhys.

Sempre competente, Meryl Streep faz o papel da dedicada e sábia dona do jornal, Khatarine Graham, empresa que era de sua família e estava sob o comando do marido Philip Graham. Depois de uma crise de depressão, ele se suicidou, e ela, que jamais trabalhara fora, viu-se à frente do jornal. Na época desses acontecimentos, a empresa estava abrindo o capital, mas sem abrir mão do controle editorial e Katharine mostra sua intenção de investir o dinheiro captado na Bolsa com a contratação de pelo menos 25 novos jornalistas. Ela tinha como homem de confiança um dos grandes editores que o país teve, Benjamin Bradlee, já interpretado com elevada competência por Jason Robards (Em “Todos os Homens do Presidente”, de 1976), mas agora nas mãos de um inócuo Tom Hanks e sua estranhíssima peruca, que deve dar inveja até ao Kim Jong-un.

Além de ser ‘a semana que revela Khatarine Graham’, os acontecimentos elevam o The Washington Post ao nível dos jornais de primeira linha do país, nos eventos que serviram para consolidar a importância da liberdade de imprensa no país. A posição é consolidada apenas um ano depois, graças à atuação corajosa do mesmo jornal no caso Watergate, com o mesmo Bradlee à frente da redação.

O fato de ser um filme didático não o desmerece, porque tais fatos, do século passado, estão presentes provavelmente apenas na cabeça de jornalistas de uma certa faixa etária. É importante que as novas gerações saibam o que pode ser a função de um jornal, como em “Spotlight: Segredos Revelados” de 2015, vencedor do Oscar de melhor filme, que traz o relato sobre a denúncia que o Boston Globe fez, de casos de pedofilia em meio ao clero local. Por coincidência, um dos chefes daquele jornal era o filho de Bradlee, Ben Bradlee Jr. Outros filmes ressaltam o mesmo tema, como “Snowden: Herói ou Traidor”, de 2016, dirigido por Oliver Stone. Há também a história do “whistleblower” do Watergate, “Mark Felt – O Homem que Derrubou a Casa Branca”, de 2017, que deixa muitas interrogações para quem não estava familiarizado com os acontecimentos e não sabia nem quem era o famoso “Deep Throat”. “O Quinto Poder” de 2013, tem Benedict Cumberbatch no papel de Julian Assange, o criador do Wikileaks.

A rivalidade entre os jornais, o poderoso NYT e o bravo Washington Post torna-se uma aliança em defesa da liberdade de imprensa quando ambos são processados – e absolvidos na Corte Suprema – por traição e conspiração contra o governo Nixon. Como alertou McNamara a Katharine Graham, pois eram amigos, “cuidado com Nixon. Ele é mau e fará tudo que puder para acabar com seu jornal”. Também Daniel Ellsberg foi processado e condenado a 115 anos de prisão, por espionagem e traição, mas teve a pena revogada por falhas no processo.

É uma viagem no tempo, de volta às redações esfumaçadas, aos telefones de discagem, ou telefones públicos, ao grande avanço tecnológico que era máquina de Xerox, aos tempos dos tipos de chumbo e rotativas gigantescas, em geral no subsolo dos jornais e de jornalistas com terno e gravata.

E quem se saiu mal, no final das contas, foram Richard Nixon e seus cúmplices. Uma lição a ser aprendida.

Klaus Kleber
Finalmente, o governo parece ter acordado para as tentativas de certos setores industriais para reforçar o protecionismo, convindo lembrar que o Brasil continua sendo um dos países mais fechados do mundo em matéria de comércio exterior.

Rejeitando pressões, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) decidiu em reunião extraordinária na semana passada não elevar as sobretaxas sobre a importação de chapas laminadas de aço procedentes da China e da Rússia, que hoje variam entre 10% e 14%. A imposição de uma nova sobretaxa vinha sendo reivindicada por siderúrgicas com alegação de “dumping”, com apoio do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

Prevaleceu, no entanto, o ponto de vista do Ministério da Fazenda de que a imposição desse gravame poderia ter efeitos maléficos sobre a cadeia produtiva e sobre a inflação. Além disso, como se manifestaram o Ministério da Agricultura e o Itamaraty, a sobretaxa poderia provocar retaliação por parte de mercados como os da China e da Rússia que são grandes importadores de produto agropecuários do Brasil.

A decisão tomada pela Camex não podia ser mais adiada, vencendo no dia 20/1 fixado, de acordo com a lei que rege a aplicação de direitos antidumping. Em reunião em novembro, o tema foi colocado, mas houve divergências que acaram tolhendo uma deliberação pela Camex. De qualquer forma, como deixou claro o ministro do Planejamento, a decisão não significa que o País tenha se tornado condescendente com a prática de “dumping”, desde que ela seja perfeitamente configurada. Por esse motivo, o ministro do Planejamento Dyogo Oliveira disse que o governo vai investigar cinco empresas suspeitas de praticar preços artificialmente reduzidos, em desacordo com as normas da Organização Mundial de Comércio (OMC). Assim, a imposição de um novo gravame sobre essas importações fica suspensa por um ano.

Como seria de prever, empresas do setor siderúrgico reclamaram, mesmo porque este é um caso raro em que o governo adota uma postura claramente antiprotecionista. O fato é que, como notou a Camex, tem havido redução das importações de laminados de aço, sendo as empresas estrangeiras que vendem o produto para o País responsáveis por apenas 6% do mercado.

Como tem sido noticiado, a China desativou várias de suas siderúrgicas mais antiquadas, sob o controle do Estado, que vinham praticando preços irrealistas e que eram praticamente insolventes. Isso fez com que a oferta de aço da China se reduzisse bastante no mercado internacional.

Como os insumos (minério de ferro e carvão) também estão em alta, isso tem levado a um aumento do preço do aço, em benefício inclusive das siderúrgicas nacionais. Segundo relatório de analistas desse mercado do BTG, de autoria de Leonardo Corrêa e Gerard Roure, “estamos mais otimistas com o setor como jamais estivemos em anos”. (Infomoney, 12/1). Uma prova disso é que as exportações brasileiras de produtos laminados de ferro e aço alcançou US$ 2,204 bilhões em 2017, um aumento de 38,2% em relação ao ano anterior (US$ 1,595 bilhão).

Pesou também na decisão da Camex o impacto do aumento de preços para os setores consumidores de aço, podendo levar a uma redução da atividade econômica, afetando a indústria de bens de capital, a produção de vários bens duráveis de consumo, indo de eletrodomésticos a veículos. e também a construção civil, que vem empregando cada vez mais aço.

Estudo da ICA Consultores, por encomenda da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), estimou que o aumento pretendido da alíquota do Imposto de Importação (II) para laminados de aço levaria a aumento de custos de R$ 1,5 bilhão.

A suspensão da sobretaxa é um desafio às siderúrgicas instaladas no País, que, pois da crise pela qual passaram, têm oportunidade de demonstrar se têm ou não condições de competir em um mercado globalizado, sem as muletas do aumento de tarifas alfandegárias.

Klaus Kleber
A não ser o ministro da Fazenda Henrique Meirelles, ninguém esquenta mais a cabeça com as notas dadas ao Brasil pelas agências internacionais de classificação de risco. Os técnicos da Standard & Poor’s resolveram na semana passada dar um susto nos brasileiros baixando a nota de crédito do País de BB para BB-. Os mercados não reagiram como se estivesse sendo anunciada uma catástrofe — a Bolsa pouco se mexeu e o dólar também não disparou.

Aí veio a explicação, que o próprio Meirelles comprou depois de se refazer de uma declaração infeliz: o mercado já havia “precificado” a baixa da nota de crédito do Brasil, pois, como todo mundo sabe, está difícil equacionar a questão do déficit das contas públicas em 2019, sem quebrar a chamada regra de ouro. Um amigo meu comentou que, na realidade, o mercado brasileiro já “precificou” as próprias agências de risco, cujas notas só valem para dar ou tirar grau de investimento. Baixar de BB para BB- não diz nada.

Brasileiro só dá importância quanto seu time ou sua escola de samba ganha o campeonato. Ser vice interessa tanto como ser terceiro ou quarto lugar. Um tracinho numa nota não sensibiliza ninguém. Além disso, dizer que a nota da S&P tira o selo de bom pagador do Brasil é conversa fiada. O País está pagando tudo lá fora, inclusive aquela multa que a Justiça americana impôs a Petrobrás de US$ 2,95 bilhões.

Aliás, a S&P fez uma ressalva: o Brasil está em boa situação quanto à dívida externa. Com reservas de US$ 382 bilhões poderia até eliminá-la. Foi pouco mencionado o fato de que, há pouco, o governo brasileiro usou US$ 1,818 bilhão para recomprar títulos antigos que remontam à renegociação da dívida externa — e as reservas nem se mexeram. E o governo pode e deve comprar mais títulos que estão no mercado internacional, com o que até economistas mais ortodoxos concordam.

Assim, se a Moody’s e a Fitch — as outras duas grandes agências de classificação de risco – não devem fazer a burrada de acompanhar a S&P, que acabou tendo mais influência política do que econômica. A consequência do rebaixamento da nota foi esquentar a briga entre o ministro Henrique Meirelles e o presidente da Câmara Rodrigo Maia, ambos presidenciáveis já não mais “in petto”. O melhor que podem fazer as agências internacionais é ficar quietinhas nesse ano eleitoral.

Claudia Bozzo
Tom Wolfe e seu sarcástico e irresistível livro “A Palavra Pintada” é a primeira referência que vem à mente no início de “The Square – A Arte da Discórdia”, uma coprodução entre Suécia, Alemanha, Dinamarca e França. Mas não é a única referência. Outras virão, com o desconforto que o filme vai provocando aos poucos, mesmo algumas resenhas o descrevam como “comédia dramática”, pois o senso de humor entra em pinceladas sutis.

Premiado com duas Palmas de Ouro em Cannes em 2017, para melhor filme e diretor, é obra de Ruben Östlund, o mesmo de “Força Maior” (2014), que retrata um pai de família que, ao tomar o café da manhã com mulher e filhos em uma estação de esqui, percebe o desencadear de uma avalanche e cuida da própria pele sem preocupar-se com qualquer um de seus familiares.

Já “The Square” está em outro ambiente. Ac0mpanha as atribulações do curador de uma importante galeria de arte de Estocolmo (com Claes Bang no papel), cujas tarefas incluem bajular muitos para obter verbas e dotações para manter as exposições. Ele quer criar polêmica, quer atrair o público e em resumo quer agradar a todos, mas parece conquistar poucos sucessos, tanto no campo social como profissional.

A referência a Tom Wolfe vem logo de início, quando o curador é entrevistado por uma jornalista americana, Anne (Elizabeth Moss, conhecida pelo seu papel em “Mad Men”) que repete uma frase do catálogo de apresentação da nova mostra, “The Square”, texto com frases pomposas e vazias. Ela cita uma das frases e pergunta ao curador, Christian, se ele poderia explicar a ela o que aquilo quer dizer. Ele se enrola e tenta sair pela tangente. A tal exposição consiste de uma instalação, concebida por uma artista argentina, que a define como uma ‘utopia em miniatura”, uma espécie de espaço de refúgio e calma.

Até um sociólogo é chamado para explicar a obra à alta burguesia que frequenta os jantares do museu e abre suas carteiras, caindo no que Wolfe define como a palavra pintada que ajuda a entender essa forma de expressão que é parte da arte moderna. Irreverente e sarcástico, Wolfe, em 1974, concluiu, como explicou em inúmeras entrevistas, ao ler a edição dominical do The New York Times, que a arte moderna havia se tornado inteiramente literária: as pinturas e outras obras só existiam para ilustrar o texto.

Mas são duas horas e meia de filme, e a trama percorre o que há de mais inquietante nesse momento na Europa, mostrando-se uma verdadeira sátira surrealista. Ao andar distraidamente por uma rua de Estocolmo, o curador Claes vê-se envolvido em situação bizarra: uma mulher passa gritando e esconde-se atrás de outras pessoas. O clima de pânico se desfaz em instantes e ao chegar à galeria, ele percebe que está sem o celular, a carteira e as abotoaduras.

É a busca por esses objetos que traz a Europa de hoje à tela: a intranquilidade com a questão da imigração, tema que paralisa políticos em vários países. Pelo localizador de seu celular, descobre com a ajuda de um funcionário da galeria, que ele está em uma das regiões da periferia de Estocolmo (na verdade, é até difícil descobrir que tal local é periferia, mostrando que o fosso que separa as classes nos países nórdicos é bem raso, em relação a outros). Então resolve ir até lá com seu carro elétrico e colocar uma carta sob a porta de cada um dos apartamentos do prédio onde estaria seu telefone, dizendo ter sido roubado e ameaçando denunciar o caso à polícia.

O conflito se forma e é mais uma das confusões que deixam o curador à beira de um ataque de nervos, além de ter de cuidar das filhas, enfrentar um relacionamento com a jornalista que o entrevista no início e lidar com as repercussões da campanha criada por dois publicitários, cuja meta é “viralizar” na internet.

Desconfortável, surreal e denso, o filme percorre o terreno minado das relações e ressentimentos sociais, das estruturas do poder e prepotências em geral. O jantar, formal e requintado tem a participação de Oleg um “artista performático” que leva esse desconforto a um ponto quase insuportável, não fosse a necessidade de sempre manter as aparências. 

O desconforto está também nas interrupções feitas durante a palestra de um dos artistas com obra expostas no museu, interpretado pelo britânico Dominic West, ou ainda na criança que é levada pelo pai às reuniões de escritório, e não para de chorar. Ou no garoto que se sente com direito a um pedido de desculpas por ter sido punido pelos pais em função da carta deixada sob a porta de seu apartamento. Duro como a realidade, é um filme daqueles que ficam dando voltas na sua cabeça e a cada pouco mais uma porta se abre em sua mente.

Regra folheada a ouro?

08 / 01 / 18

Klaus Kleber
A discussão sobre a tomada de empréstimo para cobrir o rombo orçamentário previsto, quebrando assim a chamada regra de ouro — o dispositivo da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) que proíbe o governo de tomar empréstimo para pagar despesas correntes — não faria sentido ocorrer neste momento.

O ministro da Fazenda Henrique Meirelles, agora também um presidenciável, assegura que que a meta para o déficit primário em 2018 (R$ 159 bilhões para o governo central) pode ser cumprida com corte de despesas e aumento das receitas tributárias em razão do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), oficialmente estimado em 2%.

O problema só se tornaria mais agudo em 2019 e assim é impossível separá-lo da questão da sucessão presidencial e isso explica o açodamento da proposição de um “waiver” ou suspensão provisória das obrigações impostas pela LRF. Aberto esse precedente com o tal empréstimo, a regra de ouro seria, por assim dizer, folheada, baixando ao nível de bijuteria.

Acontece que caberá ao atual governo apresentar até o fim de agosto a proposta orçamentária para o ano que vem, dentro do teto estabelecido, ou seja, deve elaborar o orçamento para o primeiro ano do presidente a ser eleito em outubro ou novembro, se houver, como tudo indica, um segundo turno. Aí está o embrulho, pois já se sabe que as receitas não cobrirão as despesas correntes no próximo ano. A solução que vem sendo discutida seria suspender a regra de ouro para 2019, pelo menos, de modo a evitar que o presidente Michel Temer incorra em crime de responsabilidade.

Se não for encontrada uma saída, será mais um dos crimes que Temer terá de responder depois de deixar o Planalto. Mas, se concordar com o empréstimo, o atual governo desmentiria os esforços de seu governo para controle das contas públicas, reduzindo ainda mais o seu capital político para aprovação da reforma da Previdência.

A saída ortodoxa seria um corte violento de despesas em 2019, abrangendo mesmo as dotações obrigatórias para educação, saúde, bolsa-família, etc. Regra de ouro ou não, a grande questão é que não há como garantir que o próximo presidente da República, além de ter de engolir o teto de gastos, venha aceitar um corte violento de verbas.

Há uma outra hipótese que, ao que eu saiba não foi cogitada: o uso de parte — uns US$ 10 bilhões ou US$ 20 bilhões — das reservas internacionais, atualmente em US$ 382 bilhões. Ora, se é para tomar empréstimo pagando juros mais spread para cobrir rombo orçamentário, é melhor usar as reservas, na maior parte aplicada em títulos do Tesouro dos EUA e que rendem l,5% a.a.

Dirão que usar reservas para cobrir despesas correntes é um absurdo – no que eu concordo – mas, pelo menos, poderia ser introduzida uma salvaguarda de que os recursos daí decorrentes seriam aplicados exclusivamente em educação e saúde e áreas sociais e, quem sabe, na infraestrutura, se sobrar algum dinheiro.

Não acredito que o atual governo tome uma medida tão ousada, mas o que fará o próximo presidente?

Claudia Bozzo
A segunda temporada de “The Crown”, que já está no Netflix é uma preciosidade. Mais que um berilo, nome de um de seus melhores episódios, “Beryl”, todos os atores desempenham com excelência seu principal papel – o de comprovar que o Reino Unido é o berço da melhor dramaturgia.

A começar pela atriz que interpreta os dez primeiros anos – dos 65 recém-completados – da rainha Elizabeth II no trono, Clare Foy. Jovem, ela está no momento envolvida em outros quatro projetos e seu currículo inclui filmes, séries de TV e peças de teatro desde 2008, incluindo o papel de Ana Bolena na série “Wolf Hall”, também no Netflix e faz parte do elenco de várias outras séries e do ótimo “A Senhora da Van” de 2015, ao lado de David Jennings, que interpreta o rei – tio de Elizabeth – que não quis a coroa e tornou-se o Duque de Windsor. Na próxima temporada será substituída por Olívia Colman (que está em “Assassinato no Expresso Oriente”, em cartaz, como acompanhante de Judi Dench). Ela também trabalhou na série “Broadchurch”, exibida pelo GNT.

Além dela Matt Smith, excelente no papel de Philip, será substituído – mesmo porque ambos são jovens para interpretar os próximos anos da rainha e seu marido – mas o Netflix ainda não revelou qual o próximo ator. Smith foi o penúltimo “Dr. Who”, a série apresentada desde 2005, mas com episódios aqui e ali que a levaram a completar 50 anos na telinha. Ele também é o protagonista em um filme biográfico sobre o polêmico fotógrafo Robert Mapplethorpe, em fase de edição.

A série “The Crown” é densa, irreverente, bem escrita e irreverente de uma forma que até surpreende, ao revelar uma pesquisa histórica e um compromisso elogiável com a realidade, com os fatos que envolveram uma delicada fase da história britânica, após a Segunda Guerra. Nada é deixado de lado, nem mesmo questões delicadas com certas ligações com o nazismo, ou escândalos como o que envolveu John Profumo, político que escalou as mais altas hierarquias do governo britânico.

Também não são poupados os primeiros-ministros que vieram depois de Winston Churchill, como Anthony Eden (1955-1957), no cargo durante dois anos, e que enfrentou a difícil situação de nacionalização do Canal de Suez, decretada pelo presidente egípcio, Gamal Abdel Nasser. Foi substituído por Harold Macmillan, que ficou no cargo de 1957 a 1963. O fraco desempenho de ambos custou à Inglaterra o chamado “capital moral” conquistado com a vitória contra o Eixo, na Segunda Guerra.

“The Crown” traz o relacionamento da rainha Elizabeth com seus primeiros-ministros, família, conhecidos, em detalhes que revelam o rigor da pesquisa histórica feita pela produção dessa que é a mais cara série já feita.

Essa segunda temporada começa pela viagem de cinco meses do Duque de Edimburgo – Philip ainda não era príncipe – por países da Commonwealth – e registra os efeitos emocionais do distanciamento.

Quando terminam os episódios dessa segunda temporada, a grande pergunta é: como eles conseguiram colocar tanta coisa, tantas informações, sentimentos e fatos, em tão curto espaço de tempo? E com tanta competência? E além disso, com um senso cinematográfico de alta competência.

O episódio “Beryl”, por exemplo, mostra como é sair de uma camisa-de-força. A rigidez e o senso de estoicismo que é são britanicamente entranhados, principalmente na família real britânica, encontram uma contestadora à altura, a princesa Margaret, interpretada pela bela Venssa Kirby. A princesa, a 11ª na linha de sucessão para o trono, mas a mais imperial de toda família, como se fica sabendo nas conversas entre as irmãs Elizabeth e Margaret, é um sopro de joie de vivre naquela rigidez cerimoniosa palaciana. E esse episódio marca o encontro de dois seres independentes, ela e o fotógrafo Tony Armstrong-Jones, papel entregue ao carismático Matthew Goode, que passou por “Downton Abbey” e também pela série americana “The Good Wife”.

Na comparação, “Downton Abbey” acaba mostrando-se uma espécie de romance de folhetim, meio descolado da realidade, bem alienado, digamos. Pois “The Crown” passa longe da frivolidade – talvez ela venha quando entrar em cena o período Diana. Mesmo porque, como retratar a princesa sem sua característica principal, a vaidade, o estrelismo e a frívola forma de encarar a vida?

É aguardar e ver. Muita coisa boa ainda está por chegar, se a segunda temporada se consolidar como a bússola dessa interessante série.

Dance

14 / 12 / 17

Heraldo Bighetti
Saudosistas da época dos filmes em preto e branco devem lembrar do prazer que era assistir Fred Astaire e Gene Kelly flutuando pelos sets de Hollywood. Acredito que era algo semelhante ao que senti quando assisti pela primeira vez o comercial do Tim Black. Intrigado fui buscar informações sobre quem era o dançarino, qual a música utilizada e sobre a coreografia fantástica. Bastou acessar a nossa memória coletiva (o Google) para saber que o rapaz era um fenômeno mundial. E, que em alguns países, ele virara um pop star. Sven Otten é o nome dele. Mas pode chamar de JustSomeMotion que ele prefere. Prefere também utilizar como trilha o gênero musical electro swing (ou neo swing), criado por um outro austríaco, Parov Stelar. Ou Marcus Füreder, seu nome de nascença.

Até o momento foram mais de 44 milhões de visualizações do clip que está no Youtube, colocado em 2013 e feito pelo Sven com a trilha All Night Long do Parov. Mas, por que viralizou?

Ken Robinson, o educador inglês e também um dos líderes em visualizações no TED tem uma possível explicação. A dança é uma das manifestações humanas da criatividade e também sua facilitadora. Sven criou um estilo de dança que mistura muitos estilos contemporâneos, transformando o corpo tão rígido e formal que habitamos em um contínuo de fluidez e leveza.
Parece que nos tornamos de novo crianças ao ver as quebras de movimento e torções inesperadas, loucos para tentar fazer igual. E é essa a proposta do JustSomeMotion: ensinar a dançar o estilo. A criatividade de Sven despertou em milhões de pessoas algo que havia sido esquecido, a própria criatividade.

Graças à publicidade, que utilizou dois de seus fundamentos: a inovação, para chamar a atenção; o personagem improvável de um dançarino solitário de chapéu. Assim, a linguagem criativa da dança retomou seu lugar como forma de comunicação, esquecida que estava na memória de cada um. Ou pior, censurada.

Infelizmente, a publicidade também impõe comerciais de gosto duvidoso e sem qualquer pertinência forma/mensagem/produto. A Avianca que se cuide com seu comercial estilo coreografia de programa de auditório. Mas é dança, vá lá.

Fecho, lembrando do Snoopy sobre sua casinha dançando alegremente e pensando: Dançar é viver.