Claudia Bozzo
Uma nova versão de um filme de 1971, que recebeu 5 Oscars (melhor filme, ator, diretor, roteiro adaptado e montagem, além de Globos de Ouro e um Bafta, para Gene Hackman) tem a seu favor o fato de terem-se passado 43 anos. O original “Conexão França”, com Gene Hackman, Fernando Rey e Roy Scheider é mencionado nos sites de cinema como a obra que traz as mais excitantes perseguições de carro jamais filmadas, por um mestre no gênero, o diretor Willian Friedkin, hoje com 80 anos, o mesmo de “O Exorcista”(1973) e “Viver e Morrer em Los Angeles” 1983). Claro, o filme está sempre à disposição em algum canal a cabo e não é difícil encontrá-lo em DVD.

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Mas o impacto que causou na época de seu lançamento, seja pelo tema, seja pelas incandescentes cenas de ação, tanto em Nova York como em Marselha, diluíram-se com o tempo, pelas cópias de que foi vítima (mencionadas como “citações” por quem não quer assumir a imitação), mas mesmo assim mantendo a integridade de sua presença dramática e a força do elenco, roteiro e direção. Continua como um dos grandes filmes já feitos.

Agora chega a São Paulo, lotando salas, a mesma história, contada pelos franceses. Trata-se de “A Conexão Francesa”, de Cédric Jimenez, com Jean Dujardin e os ótimos Gilles Lellouche, Mélanie Doutey e Benoît Magimel. Tem mais de duas horas e prende a atenção, mesmo sem a pirotecnia das grandes perseguições, duelos entre policiais e traficantes, e sem a necessidade de criar cenários inusitados, pois Marselha é bela o suficiente.

O ângulo de trabalho do diretor Jimenez está mais focado na atuação do juiz Pierre Michel, interpretado por Dujardin (ganhador inusitado de um Oscar por sua atuação em “O Artista” 2011, mesmo que suas melhores cenas tenham sido “roubadas” por Uggie, um cativante Jack russell terrier). O filme é interessante por mostrar o trabalho de formiguinha que a polícia francesa conduzia, na tentativa de conter o envio, pelo porto de Marselha, de heroína pura para os Estados Unidos, com a colaboração do DEA dos Estados Unidos. E por mostrar a atuação das várias máfias em torno do tráfico, ao abrigo de uma corrupção incontrolável. Gilles Lellouche, como o poderoso “Tany” Zampa é uma forte presença e o confronto entre o juiz e o mafioso, com o Mediterrâneo de cenário é uma das belas cenas do cinema.

Sem ser uma obra-prima, “A Conexão Francesa” só reforça a solidez da produção cinematográfica francesa, que dificilmente nega fogo, sejam em filmes “cabeça” ou comédias como “A Incrível Jornada de Jacqueline”, filme aplaudido em sessão no cine Belas Artes.

Entre os muitos em cartaz, porém, destaca-se o emocionante “A Viagem de Meu Pai”, com o grande ator Jean Rochefort, dirigido por Philippe Le Guay.

Se houvesse uma hierarquia entre os grandes do cinema francês, Rochefort certamente estaria no topo do topo. Nenhum gênero escapa à sua genialidade. Em entrevista ao crítico Luiz Carlos Merten, de “O Estado de S. Paulo”, Le Guay diz que o filme nasceu do desejo de filmar com Rochefort. Nada bobo: os melhores o requisitaram.

Rochefort é um ator, já octogenário, que desde 1956 constrói sólida carreira e brilhou em “O Marido da Cabeleireira” (1990), de Patrice Leconte, diretor com o qual fez também “Caindo no Ridículo” (1996) e “Tandem”, ao lado de Gérard Jugnot (1987). Ele chegou a trabalhar, em 1998, com o diretor argentino Alejandro Agresti, no inesquecível “El viento se llevo ló que” 1998, exibido apenas na Mostra de Cinema. Em “A Viagem”, ele interpreta o pai de Sandrine Kimberlain, à qual transferiu os negócios da família, que aos poucos vai perdendo a memória, mas mantém o sonho de viajar para Flórida, nome do suco de laranja que toma todos os dias. O diretor Le Guay mistura com grande talento fatos, memória, sonho, delírio e afeto. O resultado emociona. E confirma: esses franceses são mesmo bons de cinema!

Klaus Kleber
O dólar fechou na última sexta-feira cotado a R$ 3,17, a menor cotação desde 16 de julho de 2015. Não é uma boa notícia, a não ser para os importadores ou para quem esteja pensando em viajar para o exterior. Para quem deposita esperança na possibilidade de o País emergir o mais rápido possível da funda recessão em que se meteu, é um dado desencorajador.

A indústria deu sinais nos últimos meses de ter chegado ao fundo do poço e começou a apresentar um ligeiro crescimento nos índices mensais em comparação com 2015, graças à exportação de manufaturados. E isso depende, basicamente, da taxa de câmbio.

Claro, não só o câmbio que resolve. Menor tributação poderia ajudar, mas isso se torna praticamente impossível neste momento em que o governo se diz empenhado em um ajuste fiscal. Depende também, de condições adequadas de crédito, mas a linha atual é a de reduzir subsídios. Sempre se menciona a necessidade de aumentar a produtividade, o que é hoje entendido como reforma trabalhista, destinada a enfrentar grandes obstáculos no Congresso.

Nestas circunstâncias, o Banco Central (BC) não pode deixar o real voltar a ficar muito sobrevalorizado, podando a reação exportadora da indústria quando ainda ela é apenas um broto. Chegou a hora de BC intervir e sinalizar para o mercado a faixa em que pretende defender a cotação do dólar diante do real – algo entre R$ 3,20 e R$ 3,30, pelo menos. Se não, as expectativas de recuperação em 2017 se frustrarão, tanto mais quando o presidente em exercício se tornar efetivo e começar a exigir “sacrifícios” da população, como ele já declarou.

Compreende-se que o atual presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, esteja procurando reduzir o estoque de “swaps” cambiais, que já teriam baixado de US$ 110 bilhões para US$ 60 bilhões. Mas seriam os “swaps”, que geram tanto especulação, como não ignora Goldfajn, a melhor forma de o BC intervir no mercado de câmbio?

O presidente do BC já afirmou que não usará o câmbio como âncora para fazer baixar a inflação. Mas, mantendo a taxa básica de juros em 14,25% por tanto tempo, atraindo investimentos especulativos, não estaria, de certa forma, fazendo isso? Em face do que está acontecendo, que empresário se arriscaria agora a investir na substituição de insumos importados, por exemplo?

A inflação está sendo pressionada, principalmente, pelos preços dos alimentos básicos, como reconhece a ata do Copom. Pergunta-se? Juros tão elevados influenciarão as condições climáticas que permitirão safras mais abundantes, capazes de baixar os preços do feijão e do arroz? Ou, por outra: juros tão elevados permitirão baixar os preços das rações animais que fazem aumentar os preços de ovos, leite e carnes bovina e de frango?

Mas deixemos isso para lá. Nesta fase, a melhor coisa que poderia acontecer para o Brasil seria a economia americana crescer mais rápido — e, de fato, o número de empregos criados nos EUA em julho ficou acima da expetativa – e, em consequência, o Federal Reserve (Fed) aumentasse os juros. Com isso, milhões de dólares aplicados no mercado financeiro aqui bateriam em retirada, o que seria excelente para o câmbio. Parece que é isso que o BC está esperando.

Leonardo Trevisan
Como avaliar um CEO? Pior que isso: como e por que demitir um CEO? Talvez, essas respostas comecem em outro ponto: quem faz essa demissão usa qual critério? O do lucro, crescente e imediato? Ou, os dos sinais de adaptação às mudanças do mundo, que quase sempre estão fora da empresa? Critérios para demitir CEO podem ensinar muita coisa para a carreira de todos.

Artigo recente da The Economist mostrou que nas 2,5 mil maiores empresas de capital aberto do mundo, entre 2012 e 2015, 22% dos executivos foram escolhidos fora dos quadros da empresa pelos Conselhos de Administração. A pesquisa constatou que 75% das escolhas mais recentes desses outsiders foram feitas por sucessão planejada. Ou seja, foram escolhas pensadas e previstas.

Motivo dessa escolha dos Conselhos: busca-se gente capaz de lidar com “forças disruptivas”, como novas tecnologias e novos modelos de negócios. O artigo da Economist está no endereço: http://www.economist.com/news/business/21697274-why-companies-are-appointing-more-outsiders-ceos-outside-track

O que esta crescente tendência de escolhas de outsiders para CEO quer dizer? Primeiro, investir todos os esforços organizacionais na direção de arrancar maior produção e lucro do mesmo modelo de negócio pode ser, apenas, perigosa visão de curto prazo. Sem exceção, como indica a queda de vendas de produto “imortal”, o smartphone. Até o iPhone da Apple (16% a menos entre o 1o. trimestre deste ano e o de 2015) teve queda semelhante ao dos concorrentes, todos atingidos, talvez, pelos novos equipamentos digitais.

Esse é o ponto. É melhor relativizar a mentalidade taylorista de fazer muito mais com a mesma estrutura de produção, porque isto não garante nem a sobrevivência do negócio, nem a do seu emprego. Inclusive o de CEO. Contratar outsiders para o posto mais cobiçado na empresa sinaliza também que a ascensão na carreira de todos passou a ser movida por outros impulsos.

Observar ciclos tecnológicos é o primeiro deles, mas não só. Compreender bem o impacto de novas tecnologias no negócio é o que interessa. Construir um “engajamento tecnológico” – mistura de percepção de mudanças e comprometimento – importa bem mais nos novos processos de avaliação de desempenho do que os falidos “métodos” de bater metas. Sem nenhuma exceção. Inclusive a de CEO.

Klaus Kleber
Altamente endividada como está, a Petrobrás não tem outra alternativa senão vender ativos para poder colocar suas finanças em ordem e poder voltar a investir. Para cumprir esse objetivo, a estatal concretizou na semana passada a primeira venda no pré-sal – a sua participação 66% na área de Carcará, transferida para norueguesa Staatoil por US$ 2,5 bilhões.

Parece que é um negócio independente das atuais disputas políticas, uma vez que, o processo de venda começou há um ano, e o campo está dentro da área de concessão, não de partilha. Como foi anunciado, US$ 1,25 bilhão serão pagos imediatamente e a outra metade quando o governo definir a parte da jazida que está sob o controle da União.

Como é natural, há protestos dos sindicatos petroleiros, mas não se justifica a alegação de que se trata do primeiro passo para a privatização da Petrobrás. Sim, existem aqueles que, usando como argumento os grandes escândalos ocorridos na companhia, defendem a privatização da Petrobrás como solução, como se também não ocorressem graves irregularidades no setor privado.

É um tema que no Brasil divide a esquerda e a direita, mas que deve ser visto sobretudo sob o ponto de vista do interesse nacional. A criação da Petrobrás em 1963 como estatal resultou da falta do interesse das grandes companhias internacionais de explorarem petróleo em território brasileiro, que sairia muito caro, em uma época em que poderiam fazê-lo a baixíssimos custos no Oriente Médio. As grandes companhias não estavam nem aí para os questões de segurança nacional do Brasil e nem para os seus problemas cambiais.

E, como se viu, o Brasil, se estivesse na lista negra dos países áreas poderia ficar sem receber uma gota de petróleo, na crise de em 1963, e teve sua dívida externa sensivelmente agravada depois de dois choques do petróleo da década de 1960.

Os tempos mudaram e hoje o Brasil é exportador líquido de petróleo em bruto, graças à Petrobrás e privatizá-la depois de anto esforço para adquirir tecnologia própria para explorar petróleo em grandes profundidades seria simplesmente uma burrice.

É bom lembrar aqui a história da Staatoil, fundada pelo governo norueguês para explorar o petróleo Mar do Norte na década de 1970, e que, depois de fusões aquisições, hoje opera em 36 países. Como a Petrobrás, a Staatoil é de capital aberto e tem ações na Bolsa de Nova York; Ao que saiba, o governo de Oslo nunca manifestou a intenção de privatizar a companhia, mantendo em seu poder 67% das ações. Os lucros dessa estatal bem administrada vão para o Fundo Soberano da Noruega, com ativos de US$ 890 bilhões, considerado o maior do mundo.

A Statoil, hoje a 11ª. maior petrolífera internacional. Opera há cinco anos o campo de Peregrino na bacia de Campos e é especializada na exploração de petróleo na plataforma continental.

Klaus Kleber
Um amigo me perguntou e eu não soube explicar por que o Brasil, com reservas de US$ 376 bilhões, precisou lançar bônus no mercado internacional, como fez o Tesouro Nacional na semana passada? A Petrobrás, sim, tem necessidade de fazer uma operação como essa para alongar sua dívida, mas ignoro a razão por que o Tesouro, tendo de fazer caixa, prefere buscar dinheiro lá fora em vez de usar uma parcela das reservas.

Suspeito que o motivo do lançamento de bônus Global 2045 no valor de US$ 1,5 bilhão pelo Tesouro pelo prazo de 30 anos, não foi estritamente econômico-financeiro. Teve cunho mais político, destinado a demonstrar que os investidores externos retomaram a confiança nos novos rumos da política econômico sob a batuta do ministro da Fazenda Henrique Meirelles, endossando assim o governo do presidente em exercício Michel Temer.

Houve foguetório em Brasília porque a demanda por esse lançamento alcançou US$ 6 bilhões e os juros cobrados foram de 5,875%, taxa considerada bastante módica, uma vez que o Brasil perdeu o grau de investimento das três principais agências de classificação de risco. Comparativamente, a taxa foi de 5,131% em julho de 2014, quando o País detinha o grau de investimento e o Tesouro lançou o mesmo tipo de bônus, no valor total de US 3,55 bilhões. A diferença é considerada insignificante.

É bom deixar claro que, em julho de 2014, as reservas eram muito elevadas e o lançamento de bônus parecia desnecessário e, como agora, as reservas eram tidas como intocáveis.

A conclusão que se poderia tirar é que grau de investimento não significa tanta coisa assim, como se dizia no mercado financeiro há alguns meses. Seja como for, o recente lançamento de bônus pode ser outra confirmação da expectativa de recuperação da economia brasileira, que todos esperamos que se confirmem.

Já aumentaram os índices de confiança do comércio e da indústria e já surgem economistas dizendo que economia pode crescer até 2% em 2017; Faltam ainda faltam dados positivos sobre o ritmo de atividade que permitam enxergar, afinal, o fundo do poço.

Leonardo Trevisan
Os suíços, no começo de junho, disseram não para a proposta de dar um salário a qualquer cidadão, sem nenhuma contrapartida. A ideia já é praticada em outros países. A Finlândia promove experiência semelhante com 10 mil adultos, escolhidos por sorteio, com duração de dois anos. Holanda, Canadá e até Quênia também testam a proposta.

O motivo não é altruísta, coisa de gente boazinha. Tem a ver com os impactos das novas tecnologias no trabalho, com mais automação e mais desemprego. Em especial, de quem tem menor formação. O plebiscito suíço foi revelador: enquanto 70% da sociedade suíça rejeitou a ideia, na faixa etária entre 18 e 30 anos a aprovação foi de 68%. Motivo: a convivência com a tecnologia facilita a percepção da rapidez da automação. Aliás, o professor Moisés Naim chamou o referendo suíço de “ideia inevitável” em sua coluna no Estado de 06/06.

Os jovens ingleses também recusaram a saída da União Europeia. No Brexit, o que assustou foi o despreparo social para lidar com a competitividade da globalização. E não é só no Reino Unido. Artigo do Financial Times, de Edward Luce, revelou que só um, em cada 6 homens norteamericanos sem formação superior, “ tem emprego”, gerando uma demografia da exclusão com novo perfil, até político. Este texto está em: https://next.ft.com/content/5c8d0758-37c4-11e6-9a05-82a9b15a8ee7

Sem competências relevantes não se convive com novas tecnologias. A The Economist, na mesma semana do Brexit, publicou relatório sobre o avanço da “inteligência artificial” no mundo do trabalho. Algumas conclusões chamam atenção. Primeiro: não há mais “fronteiras” para a automação, até nos ofícios que vivem da imaginação. Depois, com o big data não adianta “fugir da tecnologia” trocando para empresa que ainda não se automatizou. Esta vai morrer. Terceiro: encorajar especializações não é conveniente, porque é quase inútil “aprender mais e mais sobre menos e menos”. Tudo regido por máxima inapelável: inteligência artificial requer trabalhadores que adquirem novas habilidades o tempo todo em suas carreiras. O relatório está em: http://www.economist.com/news/special-report/21700761-after-many-false-starts-artificial-intelligence-has-taken-will-it-cause-mass

Toda essa demanda é pesada, difícil de suportar socialmente. Porém, proibir apps em qualquer setor não garante mais o emprego, nem a carreira de ninguém. Não há plebiscito que altere isso.

(julho de 2016)

Samba de uma meta só

15 / 07 / 16

Antonio Correa de Lacerda
SAMBA, acrônimo para Stochastic Analytical Model with a Bayesian Aproach é um dos modelos de projeção utilizados pelo Banco Central (Bacen) como um dos balizadores das decisões de política monetária. Trata-se de um processo de simulação, que considera variáveis e seus efeitos para a inflação futura. É importante por buscar sistematizar os impactos dos vários choques de custos na inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor – Amplo (IPCA).

O CMN (Conselho Monetário Nacional, formado pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo presidente do Banco Central) fixa regularmente a meta de inflação de cada ano. Em 30 de junho passado o CMN fixou a meta de 2018 em 4,5%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos (entre 3% e 6%), mesmo objetivo a ser perseguido em 2017.

A questão é que para isso, o BC anunciou, na mais recente edição do seu Relatório Trimestral de Inflação, que vai adiar o inicio da redução dos juros. Ou seja, seguiremos convivendo ainda um bom tempo com taxas de juros reais muito elevada, que é justificada para controlar a inflação, considerada elevada.

Ao contrário do que às vezes é disseminado, o Brasil não convive cm uma inflação elevada, considerando países de porte e estagio de desenvolvimento minimamente comparáveis. A inflação brasileira é aparentemente elevada somente quando confrontada com países próximos geograficamente do Brasil, mas que tem pouca relação com a sua estrutura e porte. É o caso do Perú, por exemplo, em que a inflação nos últimos doze meses é de 3,3%, ou do Chile, com 4,1%.

No entanto, no âmbito dos Brics, por exemplo, o quadro é outro. São grandes economias nas quais transições relevantes como urbanização, maior qualificação dos profissionais, amenização das desigualdades regionais e de renda, por exemplo, se traduzem em inflação. Neste caso ela não seria decorrente apenas de correções de preços, mas de alterações de preços relativos. Neste grupo de países, a exceção da China, que vive uma nova fase com a desaceleração do crescimento robusto e queda das commodities, todos os demais apresentam uma inflação semelhante à media brasileira, como Africa do Sul, com 6,1%, Índia, com 5,8%, ou mesmo mais elevada como o caso da Rússia, com 7,3%. Outras economias em transição como, Turquia, com 6,6% e Colômbia, 8,2%.

É curioso que o presidente do Bacen Ilan Goldfajn, em entrevista ao Valor Econômico de 4/7/2016, “Inflação na meta é questão de 1ª ordem”, tenha afirmado, sem ser questionado, que “temos um objetivo de longo prazo que é trazer a inflação (brasileira) para 3%, que é a média dos emergentes” (grifo meu).

No caso brasileiro chama ainda a atenção o papel da indexação, que é o reajuste automático de preços e contratos baseado na inflação passada. O Regime de Metas de Inflação, implementado em 1999, evoluiu pouco desde então. Continuamos convivendo com metas restritas de inflação sem alterar a estrutura de formação de preços e mesmo a captação das expectativas futuras.
Seria ainda oportuno discutir o papel do Bacen considerando um quadro econômico domestico e internacional tão confuso e conturbado. Desde a crise de 2008 os principais bancos centrais do mundo vêm praticando juros próximos de zero, ou mesmo negativos, visando privilegiar a produção, investimento e consumo.

Permanecer refém de uma meta só, desconsiderando nível de atividades e emprego, por exemplo, restringe o raio de ação da política monetária. Analogamente ao “Samba de uma nota só”, de Tom Jobim e Newton Mendonça, ele almeja somente o comportamento dos preços, sem considerar o nível de atividades, ou emprego. Como o juro não é um processo neutro, favorecendo os mais ricos em detrimento dos demais, já passou da hora de um questionamento sério a respeito do modelo, em prol da democratização da política econômica.

Klaus Kleber
A discussão que atualmente se trava sobre a taxação do ICMS sobre o querosene para a aviação é ilustrativa da bagunça tributária que assola o País. Há um projeto de resolução em tramitação no Senado, de autoria do senador Ranulfe Rodrigues (Rede-AP), que inicialmente propôs a unificação da alíquota do ICMS sobre o produto em todo o País em 18%. Em seguida, o senador Jorge Viana (PT-AC) introduziu uma emenda reduzindo a alíquota para 12%.

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e as companhias Aéreas são a favor, com o argumento de que o combustível representa o principal custo do setor e que a cobrança do tributo à base de 25% por São Paulo inviabiliza diversos voos e prejudica os cidadãos, elevando o preço das passagens. Aliás, a mesmo alíquota é cobrada em 11 outros Estados, inclusive o Amapá do senador Ranulfe e o Acre do senador Viana, que não estão reclamando porque poucos aviões são reabastecidos lá.

Parece justo, mas, como afirmou o secretário da Fazenda de São Paulo, Renato Vilella, se a alíquota do ICMS sobre o querosene de aviação fosse baixada para 12%, o Estado perderia receitas no valor de R$ 300 milhões. Quanto a São Paulo, é bom lembrar que, na renegociação das dívidas estaduais, o Estado foi menos contemplado que os demais, tendo obtido um desconto proporcionalmente menor.

O Estado, que vem pagando pontualmente os seus funcionários e vem mantendo a normalidade dos serviços públicos estaduais, o que chega a ser quase uma exceção no País hoje em dia, poderia talvez aguentar baixar a alíquota do querosene de aviação do 12%. Teoricamente, o Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), teria de aprovar a medida. Mas a prevalecer a resolução do Senado, seria ocaso de extinguir o Confaz, cuja existência não faria mais sentido.

O que causa espécie é a afirmação do presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas, Eduardo Sanovicz, de que “o Senado precisa decidir se a política tributária de São Paulo se sobrepõe ao interesse nacional”. Em primeiro lugar, sr. Sanowicz, não é o Estado de São Paulo que faz política tributária. É o Executivo e o Legislativo do País.

Se o governo federal quer alíquota única do ICMS para um combustível, com aprovação do Senado, que aproveite para acabar também com a guerra fiscal e iniciar uma verdadeira reforma tributária.

Claudia Bozzo
O documentário “O.J. Made in America” (2016) apresentado pela ESPN, canal dedicado a esportes, sobre o ex-jogador norte-americano O. J. Simpson, passou quase sem ser notado, apesar da sua excepcional qualidade. E coincidiu, tristemente, com outro fato da vida real, que acaba de abalar os Estados Unidos, mais uma vez: o assassinato de cinco policiais brancos, no Texas, por um atirador negro, que cai como bomba bem no meio da corrida eleitoral à presidência do país.

Mesmo porque o documentário traz, em profundidade inesperada, os fatos que levaram à inacreditável absolvição do astro do futebol, pela morte de sua esposa Nicole e de um amigo da família, Ronald Goldman, em 12 de junho de 1994. Uma série da qual ainda se falará muito, pois está cotada até para um Oscar.

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O grande mérito do documentário, dirigido por Ezra Edelman, um jovem diretor e produtor de TV, é colocar o crime no contexto da época e montar um abrangente retrato dos Estados Unidos e suas paixões e idiossincrasias. A admiração sem limites pelo “vencedor” e o enorme fosso racial que separa brancos e negros, tanto quanto brancos e hispânicos, brancos e orientais, o ainda pela religião, com a atual onda contra muçulmanos, uma patologia que parece ser o eixo a nortear a campanha do candidato republicano, Donald Trump.

Dividida em cinco episódios, a apresentação do programa foi atropelada pela falta de fidelidade do canal, na Net, aos horários indicados na programação. Gravar a série foi uma verdadeira “tourada”. Imagine-se acompanhá-la ao vivo.

Mas valeu o sacrifício. Edelman primeiro traça um retrato da ascensão de O. J. à categoria de grande astro: o jogador forte, enérgico, determinado e dono de características excepcionais como esportista, na prestigiada liga NFL, construindo uma carreira excepcional. Para o público brasileiro a série é interessante por mostrar o quanto era poderosa a instituição “O. J. Simpson”, no início da carreira, casado com uma jovem negra, Marguerite.

Durante os 18 meses consumidos no processo de elaboração da Série, Edelman realizou 72 entrevistas, incluindo participantes da promotoria, da equipe de defesa (um “dream team” de advogados, como eram descritos na época), amigos de infância de Simpson, jurados, ex-detetives envolvidos no caso, ativistas de direitos humanos e da causa afro-americana, jornalistas e parentes das vítimas. Edelman tentou chegar a Simpson por meio de uma carta, jamais respondida, agora que ele cumpre, desde 2007, uma pena de 33 anos em Nevada, por acusação que o documentário esclarece. Também não conseguiu entrevistar a primeira esposa, Marguerite.

Distante do Brasil, embora noticiado amplamente, o episódio foi notícia no dia a dia dos norte-americanos. Aqui chegou pela CNN, que transmitiu ao vivo, a famosa fuga de O. J. no seu carro, um Bronco branco, pelas vias expressas de Los Angeles, ameaçando suicidar-se, depois de ter sido determinada sua prisão. E depois pela transmissão do julgamento, que teve a presença de câmeras de televisão, com audiência de 20 milhões de pessoas, e consumiu 372 dias.

Era uma cidade já conflagrada por episódios de racismo, da parte de policiais brancos. Aproximando-se do julgamento, o ataque a Rodney King, um taxista negro violentamente espancado pela polícia de Los Angeles que o havia detido sob a acusação de dirigir em alta velocidade em março de 1991 e a absolvição dos policiais envolvidos funcionou como gasolina sobre um incêndio. Los Angeles testemunhou violentos conflitos em 1992 e a cena, registrada em vídeo por uma testemunha, correu o mundo. Foram três dias de confrontos, incêndios, saques, depredações e uma onda de crimes que causaram 58 mortes, deixaram mais de 2800 feridos, destruíram 3.100 estabelecimentos comerciais e causaram prejuízos estimados em mais de US$ 1 bilhão.

Embora o que estivesse em julgamento fosse a morte brutal de Nicole e Ron, atingidos por facadas, o fator racial acabou sendo o protagonista do julgamento. Mesmo que O. J. Simpson, como faz questão de evidenciar o documentário, jamais tenha se identificado com os movimentos pela igualdade racial. E estes eram bem importantes na época, pois além da atuação de Martin Luther King, assassinado em 1968 e dos dos Panteras Negras, havia a participação de atletas como o recentemente falecido Muhammad Ali (na época ainda Cassius Clay) ou a atuação de Tommie Smith e John Carlos, que nas Olimpíadas de 1968, no México, levantaram o punho com uma luva negra (símbolo dos Panteras) ao receber suas medalhas no pódio. Foram expulsos da competição, mas a mensagem perdura. Um inesperado Pantera Negra, por exemplo, é revelado no último episódio da série.

O documentário registra todos os fatos, com rico acervo de vídeos da época, traçando um paralelo com a vida de O. J. Simpson, que casado com Nicole, vivia no bairro mais rico de Los Angeles, vizinho e amigo de brancos ricos e poderosos. Era garoto propaganda da rede Hertz, amigo pessoal do dono da empresa, além de atuar em filmes da série “Corra que a Polícia Vem Aí” e dezenas de outros. Tinha tudo: era belo, amado, rico, famoso, respeitado. Mas tudo perdeu

Klaus Kleber
Previsões sobre o comportamento do câmbio quase nunca dão certo. Ingenuamente eu acreditava que, com a votação vitoriosa no Reino Unido pela saída da União Europeia (UE), o real se desvalorizaria, uma vez que a tendência era a valorização do dólar nos mercados internacionais. De fato, isso ocorreu por um ou dois dias, mas não foi nada dramático. Depois de um leve sopro, o real passou a valorizar-se rapidamente e, na última quinta-feira, o dólar chegou a ser cotado a R$ R$ 3,18.

Disseram que a economia americana dava sinais de fraqueza e que o Federal Reserve (Fed) não iria elevar os juros. Outra explicação era de que o mercado estava “testando” o Banco Central (BC), cujo novo presidente, o economista Ilan Goldfajn, além de declarações enfáticas quanto a seu propósito de levar a inflação para o centro da meta no menor espaço de tempo possível, comprometeu-se com o câmbio flutuante, com intervenções muito parcimoniosas do BC. Na sexta, o BC interveio e o dólar fechou a semana em R$ 3,21.

A ação tardia da autoridade monetária não convenceu ninguém e já se prevê que os saldos positivos mensais da balança comercial daqui para frente serão menores e que , ao fim do ano, o superávit não alcançará US$ 45 bilhões. Em decorrência, o déficit em transações correntes do balanço de pagamentos não será de US$ 15 bilhões, como prevê o BC. Alguns bilhões devem ser adicionados a essa conta.

Não será nada que desarrume as contas externas, mas o BC claramente está com um problema, pois o real tende a valorizar-se e, se isso ocorrer, o País poderá voltar àquela situação em que a taxa de juros se manterá elevadíssima, o câmbio sobrevalorizado, e a recessão comendo feio, anulando o ânimo exportador da indústria.

Posso estar errado, mas talvez os chineses não me desmintam. Como foi anunciado no último fim de semana (Estadão, 2/7), a estatal chinesa State Grid comprou, por US$ 6 bilhões, a fatia de 23% da Camargo Corrêa na Cia. Paulista de Força e Luz (CPFL), passando a dividir o grupo controlador com grandes fundos de pensão, entre eles Previ, Petros, Fundação Cesp e outros.

Esses fundos têm direitos ao “tag along”, ou seja, têm direito a vender suas ações na CPFL nas mesmas condições oferecidas à Camargo Corrêa. Como precisam de grana, podem vender também, dando aos chineses o controle total.

Não vamos discutir aqui se é bom para o País dar a uma estatal chinesa o controle de boa parte da infraestrutura elétrica nacional (eles são fortíssimos também na área de transmissão). O fato é que, com o negócio, bilhões de dólares vão entrar no País proximamente, sob a forma investimentos diretos do exterior, só com essa operação. Isso vai pressionar o câmbio para baixo.

E a Oi está aí esperando um grande investidor externo para sair do buraco.