Claudia Bozzo
Está acontecendo uma briga de foice entre os fornecedores de filmes por demanda e produtores de conteúdo, da qual estamos mais ou menos distantes, embora sejamos os alvos e os reais culpados. Alvos, porque todos querem nossa atenção. E culpados pela falta de fidelidade. TV a cabo, por exemplo: são cada vez maiores as desistências, pois as empresas (poucas opções, na verdade) servem um cardápio sem graça e caro demais. A TV aberta resiste, mas todos sabem que jovens não assistem mais, ou sequer conhecem novelas, por exemplo. Esse é um ambiente em ebulição.

Uma das razões para esse caos é que o cancelamento de assinaturas nos Estados Unidos, por exemplo, está se acelerando de forma mais rápida que o esperado pelos executivos de mídia. No último trimestre, quase um milhão de americanos desistiram de suas inscrições em serviços de TV paga, segundo uma estimativa de Craig Moffett, analista de meios de meios de comunicação na MoffettNathanson. (O Netflix acrescentou quase a mesma quantidade de assinantes nos Estados Unidos ao mesmo tempo).

Jovens, grupo particularmente cobiçado pelos anunciantes, estão se afastando da TV de forma especialmente rápida. A quantidade de pessoas com menos de 35 anos que assistem TV tradicional nos EUA caiu pela metade desde 2010, diz Matthew Ball, diretor de estratégia nos Estúdios Amazon.

No caso do Brasil, a séria crise pela qual passamos acelerou ainda mais essa tendência, embora os números sejam desconhecidos. Na semana passada, por exemplo, nos Estados Unidos, o Facebook caiu na boca dos críticos e da concorrência ao divulgar dados informando que tem como meta atingir um público de jovens que tem 25 milhões de pessoas a mais do que os dados oficiais do censo do país. A empresa disse que quer chegar aos 41 milhões de jovens entre 18 e os 24 anos (eles são 31 milhões segundo o Censo) e a 60 milhões entre 25 a 34 anos (são 45 milhões, informou o governo).

Entende-se tanto o esforço do Facebook, que está com os olhos voltados para a divulgação de vídeos, que virá no formato de uma aba, o Watch, invadindo o campo de outros serviços, como o YouTube ou de vídeos por demanda (como Netflix, Amazon, HBO, Hulu e outros). A empresa acredita que quanto mais tempo seus usuários permanecerem no site, mais anúncios verão e o lançamento de vídeos curtos e mesmo pequenos reality shows estão nos planos da inquieta empresa.

Segundo reportagem do New York Times, o futuro da TV é “desordenado e confuso”. Lá nos EUA a tendência de cancelamento de assinaturas gerou um fenômeno chamado de “caça ao canal”. São tantas as novas opções de vídeo por demanda que as pessoas passeiam de aplicativo em aplicativo até encontrar qual era o programa que estavam seguindo.

Isso já aconteceu com você no Netflix? As opções são tantas que a gente até esquece o que estava acompanhando, a não ser que seja uma dessas séries imperdíveis, como “House of Cards”, “Downton Abbey”, “The Crown”, “River”, “Narcos” e outras. Mesmo porque gosto é gosto e cada qual tem o seu. As novelas turcas, por exemplo, encontraram fieis seguidores, que elogiam a discrição e romantismo.

Pois imagine um ambiente no qual por enquanto temos, em volume bastante limitado pelo alto custo para o assinante, Amazon, HBO, Fox, Disney, e os interesses envolvidos na captação de novos clientes. A ousadia do Netflix pegou muitos desprevenidos, e agora a empresa é alvo de uma ofensiva da parte da concorrência. Alguns de seus fornecedores de conteúdo, como a Disney, anunciaram que vão suspender seus contratos com ela e passar seu conteúdo para um serviço próprio. A dúvida é saber se a Netflix terá fôlego para continuar com sua política de produzir conteúdo – o catálogo de produções da empresa é extenso e variado – uma atividade bastante cara. E tudo indica que esse é mesmo o rumo escolhido por ela, pois este ano até levou um filme a Cannes, levando arrepios aos puristas, afinal aquele é o templo da telona de cinema.

Reportagem recente da revista Barron’s revela que o serviço – que tem cerca de 100 milhões de assinantes no mundo, presente em 60 países (sem incluir a China) – gastará muitos bilhões este ano arriscando-se com títulos de ‘alto risco’. Segundo analistas do setor financeiro, mais interessados nos números que na programação, as assinaturas não cobrem todos os custos. A favor da empresa está a marca de ousadia e inovação de seu CEO, Reed Hastings, que soube qual o momento exato de passar da entrega de filmes para aluguel pelo correio, tirando da jogada nos EUA um concorrente do porte da Blockbuster, para depois iniciar o serviço de streaming, canibalizando o seu próprio aluguel de vídeos. Firme na competição está a Amazon, que anunciou um orçamento para conteúdo ao redor dos US$ 4,5 bilhões.

Quem viu a série que agrupou os três antigos participantes do “Top Gear” da BBC, um programa sobre automobilismo, viagens e etc., agora chamado de “The Grand Tour”, percebe que não se fez economia para tentar reconquistar a antiga audiência do programa (antes transmitido por TV a cabo), uma das maiores da história da TV.

O certo é que haverá em breve muito mais opções. Até o Google tem um sistema de streaming, pelo qual se paga por filme. O problema será ajustar a escolha ao orçamento, à garantia de qualidade e o gosto pessoal quanto ao que é oferecido. “Em caso de dúvida”, dizia uma jovem no cinema, ao namorado, “todo mundo acaba escolhendo sorvete de chocolate, não é?” Bom, não é tão simples…

Leonardo Trevisan
Carreiras dependem cada vez mais de dados. Talvez, eles até ganhem das competências específicas. Estas podem ser adquiridas no mercado do conhecimento. Em múltiplas formas, fora e dentro da empresa. Dado é outra coisa. E eles serão básicos para o sucesso ou fracasso das trajetórias profissionais.

A capa do Carreiras & Empregos (23/07) apontou o essencial: Recursos Humanos já se digitalizaram. Informações próprias já integram um “Big Data do RH”. Indicadores de gestão já avançaram para indicadores específicos que fazem o “controle de coerência”, para méritos ou desligamentos. Esta coerência já adequa candidatos às vagas.

Esta é a realidade que temos. A questão é para onde vamos. Artigo da The Economist (21/07) mostrou que a China deve ultrapassar os EUA em inteligência artificial.

Motivo: melhor uso dos dados. A questão está nos algoritmos que aprendem, que ligam uma informação na outra. Em qualquer área, inclusive RH.

A revista conta a função do Xiaoice, sistema operado pela Microsoft, ainda só na China. É um “robô-confidente”, que já foi comprado por mais de 100 milhões de chineses. A maioria fala com “ele” das 11 da noite até as 3 da manhã. O robô ouve queixas do dia de trabalho, do relacionamento com o chefe e colegas. E fala frases de apoio e lê poemas de autoajuda.

O Xiaoice oferece conforto a partir do que ouviu. Não há registro de queixas com o uso dos dados. O fabricante do Xiaoice quer vender dados, não só robôs. O artigo está em: https://www.economist.com/news/business/21725018-its-deep-pool-data-may-let-it-lead-artificial-intelligence-china-may-match-or-beat-america

O Big Data chinês desperta preocupações. Editorial do Financial Times (27/07) lamentou que 4 províncias chinesas operam sistema que prevê crimes analisando comportamento a partir de base de dados. A China é o “laboratório” mundial na área. Apple, Facebook, Microsoft e Amazon obedecem Pequim, aceitam imposições, porque precisam “acompanhar” a China.

Nesse ritmo, sem dúvida a expressão “capital humano” terá outro sentido. Já é possível, inclusive no Brasil, selecionar gente a partir de dados de coerência e valores. O passo seguinte será o domínio das expectativas. Como o Xiaoice já ajuda a fazer. Sem esquecer que o robô também conta quem, de verdade, o chefe é. Sem intermediários.

(agosto 2017)

Klaus Kleber
É furada a afirmação pelo ministro da Fazenda Henrique Meirelles, repetida pelo presidente Michel Temer, de que a elevação do déficit fiscal de R$ 139 bilhões em 2017 e de R$ 129 bilhões em 2018 para R$ 159 bilhões em cada um desses dois anos foi resultado da frustração das receitas tributárias devido a uma queda maior da inflação do que se esperava. Inflação caindo é fato positivo, ninguém nega, mas pegou o governo de cuecas.

De fato, a inflação deu um drible na equipe econômica, tendo o IPCA fechado em 2,71% nos últimos 12 meses findos em julho. Mas seria enganoso atribuir esse resultado à política monetária posta em prática pelo Banco Central. A inflação caiu violentamente por causa da recessão que teve continuidade a partir de 2015 pela falta de investimentos públicos, que historicamente no Brasil puxam os investimentos privados.

E a “política de austeridade” posta em prática pelo atual governo tem significado apenas corte dos investimentos públicos, mesmo em obras em fase de acabamento. Depois de tantos danos ambientais, a usina de Belo Monte, no rio Xingu, por exemplo, já está quase pronta e poderia ligar mais duas turbinas a partir de setembro, mas, por falta de linhas de transmissão, essas turbinas ficarão paradas. Muitos outros exemplos podem ser citados, mas o governo não está nem aí para essas coisas.

O que interessa a este governo, especialmente depois de maio, quando vieram a luz as conversas no Jaburu entre o presidente e o empresário Joesley Batista, é sobreviver, e isso custa caro. Cálculos do Estadão indicam que os perdões tributários podem custar R$ 78 bilhões. Pode a Fazenda alegar que o Congresso desfigurou a MP do Refis, mas porque o governo teria de propor essa medida, se está mesmo comprometido com a austeridade nos gastos públicos?

E quem inventou esse negócio de perdoar as dívidas do Funrural, em uma fase que o País está exportando commodities agrícolas como nunca? E por que cobrir dívidas previdenciárias de Estados e municípios antes de aprovar a grande reformada Previdência à qual dá tanta ênfase?

Se a isso adicionarmos a prorrogação dos incentivos fiscais por mais 15 anos, o adiamento do fim das desonerações para 2018, e as emendas parlamentares para os integrantes da base parlamentar, pode-se concluir que este é o governo mais dadivoso da história recente do País.

O rombo seria coberto com privatizações, cuja lista de “prospects” aumenta a cada dia, devendo agora incluir o aeroporto de Congonhas em São Paulo, o mais lucrativo da Infraero. Mas as privatizações não andam, estando a cargo de Moreira Franco, que só é ministro para ter foro privilegiado, e está no Planalto para dar palpite político.

Ele não faz leilão de coisa alguma, escudando-se no fato de que os ativos brasileiros na área de infraestrutura estão desvalorizados demais por falta de demanda, ou seja, por causa da recessão. E não há melhor exemplo que o aeroporto de Viracopos, devolvido pelos concessionários..

Para fugir à regra, o governo programou para setembro ou outubro os leilões de áreas de exploração de petróleo, o que não tem nada a ver com o Programa de Parceria de Investimentos (PPI), de Moreira Franco, e que poderá render, espera-se, R$ 9,49 bilhões.

Ajuda, mas não resolve. O fato é que as contas públicas não se sustentem se não houver novos aumentos de impostos, como tantos economistas têm afirmado. Será que o governo, afinal, terá coragem de enfrentar o pato da Fiesp?

Leonardo Trevisan
A pergunta está longe de ser inocente: o que acontece com os humanos quando chegam os robôs? De qualquer tipo. Inclusive os que chegam embutidos nos softs mais baratinhos.
Uma resposta é a necessidade de desenvolver o conceito de emprego híbrido o que pede “nova combinação de habilidades”. Este formato convive bem com automação.

Artigo da The Economist (https://economist.turtl.co/story/5846a4eca95bd66532d773d2.pdf?showall=true) discute como pessoas se reinventam na hora de sobreviver à experiência digital. Quando as máquinas envergonham os humanos com maior produtividade e menor custo, é preciso procurar que habilidade os computadores têm mais dificuldade de aprender.

Pesquisa de David Deming (Harvard) mostrou como avançar neste caminho: o mercado recompensa bem “habilidades sociais”. Estas são compostas tanto por criatividade, como por capacidade de solução de problemas e, principalmente por “empatia”. Todas úteis e complementares à automação.

Como sugeriu a Economist, para preservar emprego quando as máquinas chegam é preciso ter a capacidade de “manter-se aprendendo”. Aqui nasce o emprego híbrido. Nesse formato procuram-se pessoas “intelectualmente curiosas”. Empresas automatizadas preferem quem quer “treinar coisas novas” (com o risco do mais capacitado trocar de emprego) a preservar quem “não quer ter novas experiências para ficar onde está”.

A convivência amistosa com sucessivos ciclos tecnológicos desenvolve a necessidade da “inteligência de carreira”. Esse é o ponto. O conceito significa a constante procura do que são novas habilidades típicas das demandas impostas pela evolução tecnológica. Principalmente, buscando novas habilidades na própria empresa. Ou seja, automação pode gerar empregos e não os extinguir. Depende de como se lida com ela.

Nessa lógica, o perfil do profissional que procura apoio na “inteligência de carreira” inclui curiosidade, ambiguidade, flexibilidade e adaptabilidade, exatamente as habilidades que o robô ainda tem dificuldades para conquistar.

Tudo gerando dificuldade extra: empresas que querem conviver com automação devem passar a contratar por capacidade cognitiva. Critérios de obediência passiva e méritos consolidados ficam em segundo plano. Não será um cenário tranquilo.

(março 2017)

Klaus Kleber
O processo de privatização de infraestrutura no Brasil registrou um grande fiasco na semana passada. Como foi anunciado, os acionistas da Aeroportos Brasil, consórcio que assumiu 51% do Aeroporto de Viracopos, em Campinas, com a privatização realizada em 2012 no governo de Dilma Rousseff, decidiram em assembleia “devolver” ao governo a concessão, que deveria durar 30 anos.

Alega o consórcio que as projeções quanto ao número de passageiros e a tonelagem a ser transportada não se concretizaram em razão da recessão econômica e que, como se não bastasse, as tarifas autorizadas pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para transporte de carga são baixas.

A devolução será “amigável”, ficando a concessionária suspensa de pagar a outorga, ou seja, a licença para operar o aeroporto. Nada se falou sobre a Infraero, que ficou com 49%, como era a norma no governo anterior, e também deveria contribuir para as obras de modernização daquele importante terminal, principalmente para transporte de carga. Não se sabe se a estatal – ou seja, o governo — entrou com algum investimento.

Admite-se que os técnicos podem ter exagerado nas projeções de fluxo futuro em Viracopos, mas a história parece mal contada. Há alguns anos, o aeroporto era citado entre os terminais que mais cresciam no mundo, mas precisava de uma segunda pista, que ainda ficou no papel.

Sabe-se que, entre as empresas que fazem parte do consórcio controlador está a UTC, embrulhada na Lava Jato, e que já pediu recuperação judicial, e que detém 45% do consórcio. Outros 45% são de responsabilidade da Triunfo Participações, ficando a francesa Egis Airport Operation com 10%.

Pelo noticiário, o consórcio já investiu R$ 3 bilhões em Viracopos, mas há R$ 365 milhões de parcelas não liquidadas. A Anac, porém, já teria executado o seguro de garantia. Haverá multa pela quebra de contrato?

Pelas últimas informações, o consórcio continuará administrando aeroporto por dois anos, quando ele irá novamente à licitação, devendo o governo vender também a parte da Infraero em futura licitação. Pelo que se tem notícia, a Anac ainda não se pronunciou sobre essa “desprivatização”.

A história parece mal contada. O Aeroporto Internacional Tom Jobim também teve seus problemas de fluxo, mas a Odebrecht, que detinha 31% do consórcio RioGaleão, vendeu sua participação para o chinês HNA Group, om sede em Haiku, associando-se à Changi, de Cingapura, naquele terminal. A Infraero continua lá, com 49% de participação.

Por que uma solução desse tipo não foi buscada para Viracopos, eleito o melhor aeroporto do Brasil em pesquisa de satisfação de passageiros? Os chineses e investidores do Leste Asiático não quiseram entrar? E o que acontecerá com outros aeroportos privatizados no governo Dilma, que também sofreram queda de demanda?

Já foi noticiado que o governo vai leiloar os 49% que a Infraero tem nesses aeroportos, mas, na bagunça administrativa em que se encontra o país, ninguém sabe o que acontecerá neste governo, se acontecer.

Klaus Kleber
Há anos, prefeitos e governadores, principalmente dos Estados de Minas Gerais e Pará, vêm reclamando, sem êxito, um aumento dos royalties sobre produtos minerais, muito baixos no Brasil em comparação ao que os governos cobram na Austrália e no Canadá. Mas o lobby das mineradoras sempre prevaleceu, sob o argumento de que, se reajustada a Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM), a designação oficial dos royalties no País, o minério brasileiro perderia competitividade.

Agora, finalmente, o aumento desses royalties pode sair através de três Medidas Provisórias, enviadas há pouco ao Congresso. Isso não ocorreu, porém, por pressão dos Estados e Municípios. O que o governo objetiva, como deixou claro ministro das Minas e Energia, Fernando Coelho, é elevar em 80% sua arrecadação nesse item, que não passou de R$ 1,6 bilhão em 2016. Claro, tudo depende das MPs passarem ilesas no Congresso, ajudando a manter o déficit público dentro da meta de R$ 139 bilhões este ano.

Certo, ninguém gosta de aumento de imposto e, realmente, cobrar mais PIS/Cofins sobre combustíveis, recaindo o ônus sobre o consumidor, em vez de batalhar para acabar com as desonerações que beneficiam 56 setores empresariais, o que deveria acontecer em 1º. de julho, seria muito mais aceitável. Mas, afinal, o que menos interessa ao governo Temer nessa altura é cobrar uma briga com o Congresso, que cedeu às pressões dos empresários e transferiu o fim das desonerações para 1º. de janeiro de 2019.

Apesar de tudo, o aumento dos royalties sobre produtos minerais já vem tarde. Para todos os que conhecem os prejuízos ambientais e sociais que a mineração causa a tantos municípios e Estados brasileiros, é alentador que a CFEM, além de ter suas alíquotas elevadas, será cobrada sobre a receita bruta das vendas das mineradoras e não mais sobre a receita liquida dessas empresas.

O importante é que não foi alterada a distribuição das receitas da CFEM: 12% vão para a União, 23% para os Estados e 65% para os municípios. Mas cuidado com o lobby das mineradoras! O seu novo presidente da Vale, Fábio Schwartsman, já deu entrevista classificando a nova tributação sobre minérios como “um monstrengo”, o que é sinal claro de que vem aí um forte lobby sobre o Congresso.

Só para esclarecer: a receita obtida pelo País com a exportação de minério de ferro chegou a US$ 10,55 bilhões no 1º. semestre deste ano e não foi sobre isso que incidiu a alíquota da CFEM, hoje de 2%. Esse tributo foi cobrado sobre a receita líquida das mineradoras, isto é, depois de deduzidos todos os custos. Pela nova política do governo, a CFEM será de 4% sobre o total bruto auferido, o que é nada mais que justo.

Claudia Bozzo

O Instituto Italiano de Cultura de São Paulo (Av. Higienópolis 436) programou um novo ciclo de cinema com obras-primas do documentário, série que será aberta esta terça-feira (1º de agosto) com “Mondo Cane”, que lançado em 1963, fez sucesso em todo o mundo pelo inusitado, insólito e irreverente conteúdo.

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Oscar L. Marzorati apresentará os filmes e a programação inclui em 15 de agosto “Fogo no Mar” (2016), de Gianfranco Rosi, que retrata a crise da imigração clandestina na Europa, a partir dos refugiados na ilha italiana de Lampedusa. Da mesma forma que “Mondo Cane”, indicado ao Oscar pela trilha sonora, “Fogo no Mar” concorreu como melhor documentário.

Dirigido por um trio muito especial que inclui Gualtiero Jacopetti, jornalista e documentarista; Paolo Cavara (diretor e roteirista) e Franco Prosperi, zoólogo especializado em ictiologia, o filme marcou época por criar um novo gênero, exibindo o que era considerado mais exótico por europeus, que hoje tornou-se comum em programas de TV, como alimentar-se de insetos, costumes entre asiáticos, captura de animais na África e sabe-se lá o que mais, pois o filme é tão antigo, que passados 55 anos, é interessante ver o que era motivo de espanto na época.

O ingresso é gratuito e é fácil estacionar em frente ao Instituto, na avenida Higienópolis mesmo. Além dos ciclos de cinema, o Instituto promove concertos, palestras, espetáculos teatrais e mostras de arte. A programação pode ser acompanhada no site do Istituto Italiano di cultura San Paolo, tanto pela internet quanto pela página da instituição no Facebook.

Leonardo Trevisan
Escolher o inimigo mais perigoso é tarefa complicada. Há um consenso: novas ondas de automação agravaram a substituição de funções humanas. Tarefas que demandam capacidades cognitivas complexas e formação superior acabam entregues a robôs. Com maior produtividade e menor custo. A velocidade dessa substituição aumentou.

Artigo do Project Syndicate (7/06), da professora de Berkely Laura Tyson, com pesquisa da McKinsey Global Institute em 46 países, mostrou que 60% de todas as ocupações já podem ter ao menos 30% de suas atividades automatizadas.

Pensar carreiras neste processo exige identificar cenários promissores ou ameaçadores. Exemplo: há outra lógica de “pensar negócios” no avanço da impressora 3D. O que deve piorar a substituição dos humanos.

Esqueça ficção científica. Vale mais olhar a realidade e a rapidez da mudança. A The Economist (edição de 3/07) mostrou o quanto a máquina de “imprimir coisas” pode mexer na economia de escala. Sem esquecer o quanto já alterou conceitos arraigados de eficiência das cadeias integradas de produção. Com risco ao emprego de muita gente.

A Economist descreve, entre outros exemplos, como a Adidas alemã usou essa “possibilidade” para repensar a produção na China.  Motivo: a impressora acompanha mudança de moda e design muito mais rápido. Basta alterar o soft. O tênis novo que leva meses para ser refeito na China, é “impresso” em dias.

A lógica de produção na fábrica é dividir, cortar, perfurar, fresar. A da 3D é adicionar. Seja com que material for. O essencial: quem passa a dar as cartas são os químicos, não mais os engenheiros. O que conta é o material que alimenta a impressora. Não é mais o “fazer”. Aliás, fazer, cortando ou fresando gera desperdícios. De coisa cara, como metais nobres.

Os problemas das impressoras ainda são muitos. Cenário de risco para carreiras e empregos ainda não está na impressora de mil dólares, a que se leva para casa. É a máquina de um ou dois milhões de dólares cada, que substitui uma fábrica inteira, com milhares de empregos, investimento de centenas de milhões. 

A Economist conta que a impressora de um milhão de dólares já pode ser “alugada” por US$ 40 mil/mês.

Humanos podem ter errado no inimigo mais perigoso. Pare para pensar: impressora 3D pode desempregar até o robô.

(julho 2017)

Klaus Kleber
Ao se confirmar a hipótese levantada pela Folha de S. Paulo (15/7) de que a turma do Palácio do Planalto já admite que só em setembro haveria quórum de 342 deputados para votar a denúncia por corrupção do presidente Michel Temer, não é improvável que ele saia fortalecido desse imbróglio.

É irônico o fato de que até há alguns dias atrás, o presidente preferia que a denúncia fosse julgada logo na próxima semana, antes do recesso do Congresso, confiante em que teria votos para rejeitá-la. Chegou-se a aventar a possibilidade de que um quórum de 257 deputados, ou seja maioria simples dos 513, poderia ser suficiente para abrir uma sessão tão importante. Mas, como se noticiou, o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, resistiu às pressões e manteve a exigência da presença de 342, o que significa que a denúncia só seria votada em plenário em 2 de agosto, depois do recesso.

Isso, que parecia ser contra os interesses do presidente, agora pode jogar a seu favor. É duvidoso agora o raciocínio de que, se fosse dado mais tempo para votar a denúncia, o presidente estaria sujeito a novas denúncias da Procuradoria Geral da Justiça e do surgimento de fatos novos provenientes de delações premiadas de Lúcio Funaro ou, principalmente, do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha.

Acontece que fatos novos, por mais graves que sejam, não seriam mais incriminadores do que a gravação da conversa do presidente com Joesley Batista no porão do Jaburu. Afinal, os chamados “fatos novos” são mais relevantes do que velhos costumes políticos que o presidente tem usado com tanta mestria? O troca-troca de membros do da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ da Câmara, à custa de liberação de emendas e distribuição de cargos é apenas uma amostra do rico repertório do Jaburu.

A constatação é de que, depois da aprovação pelo Congresso da reforma trabalhista, o compromisso do presidente com as reformas e com a austeridade fiscal é só da boca para fora. O senador Romero Jucá, um dos pilares de sustentação de Temer no Congresso, já fala em reforma “fatiada” da Previdência, o que pode significar manutenção dos privilégios corporativos e aumento do prazo para o trabalhador comum se aposentar. E vêm aí um Refis ainda mais ampliado, com perdão de dívidas e outras concessões já feitas ou por fazer, sempre oriundas de emendas apoiadas pelo mui leal Centrão.

De outra parte, o governo aumenta a aposta na divisão do PSDB. A facção do partido que não quer abandonar o governo parece ter hoje mais força ou mais capital que os que desejam que o partido entregue os cargos que detém, embora não para fazer exatamente oposição. O equilíbrio é difícil com um pé em duas canoas.

Neste sentido é simbólico que, depois de rejeitar o parecer do deputado Sergio Zveiter, a CCJ tenha aprovado o parecer do deputado Paulo Abi-Ackel, do PSDB de Minas. ligado ao senador Aécio Neves. É sabido também que tanto o governador Geraldo Alckmin como o prefeito de São Paulo João Doria, potenciais candidatos ao Planalto em 20l8, não querem saber de Rodrigo Maia na presidência da República, podendo vir a se candidatar pelo DEM em eleições diretas o ano que vem.

E Temer vai ficando…

Claudia Bozzo
Quando o ex-presidente norte-americano Barak Obama visitou a Turquia, seu aliado na Otan, em 2009, foi recebido pelo então primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, atual presidente do país. Ambos visitaram um dos cartões postais de Istambul, a catedral de Santa Sofia e lá deixaram-se seduzir pelo charme de Gli, o gato da basílica. A foto correu o mundo e Gli virou estrela. Meses depois, em visita à mesma catedral, o que mais atraia turistas era o gato: todos queriam fotografá-lo ou tirar uma selfie com ele.

Esse é um símbolo muito forte do amor que os turcos dedicam aos gatos e por Istambul, como dizem os anúncios de “Gatos” (Kedi, gato, em turco), documentário de Ceyda Torun, que estreou esta semana e tem recebido enorme atenção em todo mundo. Só nos Estados Unidos, por exemplo, foi uma surpresa o sucesso nas bilheterias pois rendeu mais de US$ 2,7 milhões. No site sobre cinema, Rotten Tomatoes recebeu um índice de aprovação de 98% e chegou a ser considerado “O ‘Cidadão Kane’ de documentários sobre gatos”, como relata o jornal britânico Guardian.

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Como a proporção de fãs de gatos só aumenta (nos Estados Unidos o número de ‘gatófilos’ duplicou em apenas 20 anos) há uma primeira e simples explicação para o sucesso do filme que traz a narrativa sobre as andanças de sete deles por uma das mais fascinantes metrópoles do mundo. A diretora Ceyda Torun comentou em entrevistas que muito tem mudado no país.

“As pessoas estão deprimidas e ansiosas… tentam mostrar resistência frente aos acontecimentos, mas é realmente difícil: há uma espécie de nuvem pairando sobre todas as coisas. Tudo aconteceu de forma distante enquanto filmávamos, no verão e 2014. Charlie (Charlie Wuppermann, cinegrafista e parceiro na empreitada) e eu debatíamos todo dia se era defensável fazer um filme sobre gatos, ao mesmo tempo em que ocorriam os problemas dos refugiados sírios ou as rebeliões no país. São tópicos muito importantes a serem explorados, mas ao mesmo tempo exigiam uma perspectiva que não tínhamos condições de prover na ocasião”, conta a cineasta, que viveu em Istambul até os 11 anos e atualmente mora em Los Angeles.

O que ela pretendia era “escrever uma carta de amor à cidade e aos gatos. Com o documentário eu podia imortalizar a beleza de Istambul – essa é a minha forma de resistência”.

Ela escolheu os gatos de rua que resumem as características: independentes, com personalidade, cada qual com sua típica atitude felina. Alguns não sobreviveram nos últimos anos, mas como conta Ceyda Turon, “outros são resistentes e jamais morrerão. Psikopat é um deles. Gamsiz vai muito bem, embora o padeiro que o alimentava tenha mudado”.
 
A cidade, que é a união de dois continentes, com o Bósforo cortando-a no meio, tem uma intensa atividade pesqueira e é de lá que vem boa parte da alimentação que os gatos recebem. Existe ainda o fato de os muçulmanos reverenciarem os felinos: há múltiplas referências de que o profeta Maomé tinha o seu gato. Segundo a diretora, a população, que era de quatro milhões em sua infância, supera os 20 milhões atualmente.

A paixão vem de longe. Para filmar “Zedi” foram entrevistadas muitas pessoas, entre elas escritores, poetas, cientistas e arqueólogos. Um zoólogo mostrou um esqueleto de gato com 3.500 anos, encontrado durante a escavação do novo túnel sob o Bósforo. Foi possível verificar que ele tivera uma pata quebrada, que só sarou porque certamente um humano a enfaixou, cuidando dele. O filme, com apenas 79 minutos, conta ainda que muitos dos gatos chegaram à cidade a bordo de navios, onde tinham a missão de controlar a população de ratos. Também são entrevistadas pessoas que cuidam de inúmeros gatos e o pescador que sai para seu trabalho na companhia de quatro deles.

Mas esse não é o único filme sobre felinos à vista. Depois do tolinho “Virei um Gato” (2016), com Kevin Spacey, há o britânico “Um Gato de Rua Chamado Bob” (2016) de Roger Spottiswoode, que entre muitas outras películas, entre elas um 007, em 1989 dirigiu o ótimo “Uma Dupla Quase Perfeita”, no qual Tom Hanks interpreta um policial, encarregado de cuidar de um cachorro cujo dono foi assassinado. O gato chamado Bob é sobre um rapaz, viciado em drogas, que tocava em esquinas de Londres para conseguir uns trocados que alimentassem seu vício. E ao passar a se apresentar ao lado do ruivinho Bob virou um sucesso de público, foi parar na internet, virou livro e filme também.