No seu tempo

21 / 11 / 17

Heraldo Bighetti
Outro dia, estava esperando a vez de ser atendido na loja de icônica marca para reparo de meu celular. Esperava lendo um livro em uma das várias mesas a disposição. Naquela mesma mesa, uma senhora de seus 70 anos já estava sendo atendida. Notando-me absorto na leitura, a improvável evangelizadora da marca interpelou-me questionando como eu poderia ler um livro naquele templo de tecnologia. “Coisa tão antiga” segundo ela. Meu detector de Zeitgeist imediatamente começou a soar um alerta.

Você certamente ouviu ou leu algo parecido com a próxima declaração: “Pois esta invenção vai produzir esquecimento na consciência daqueles que aprenderem a usá-la, porque estes deixarão de treinar a memória”. Quem disse isso não estava falando sobre o Google, mas sim de uma tecnologia que modificou o mundo: a escrita. O ludista em questão era ninguém senão Platão, citando Sócrates.

Mas vamos adiante. Após a invenção do livro, ler sem supervisão era uma atividade considerada subversiva. No final do século XVI, a Inquisição prendeu um trabalhador porque “lia o tempo todo”. A atividade era muito perigosa, especialmente se fosse feita por gente comum ou mulheres.

Aproveitando o conserto de meu celular, o telefone também foi criticado porque “bater papo por telefone” jamais substituiria uma conversa. Telégrafo, rádio, televisão, revistas, comics, todos os novos meios e formas de comunicação sempre foram criticados pois desestabilizavam o status quo. E todos sofreram a maldição do final próximo pelo próximo princípio inovador.

Os livro existem. Não foram substituídos. O telefone idem, apesar de modificado.
Entender o momento como resultado da sucessão de momentos que gerou o passado é a base para recepcionar o futuro. Por que então o mal estar geral por não compreender o momento? O conceito de rede sempre existiu. Afinal, o próprio universo é uma imensa Web de informação.

Ah… você não tem tempo para isso. Que pena. Coisa tão antiga quanto o pecado original.

Klaus Kleber
Primeiro, uma retificação. Em meu último comentário para este blog, afirmei que não era previsto um pagamento mínimo por hora de trabalho no País. Há, sim, uma previsão, embora abusiva. Atualmente, sendo o salário mínimo de R$ 937,00, o mínimo por hora de trabalho é R$ 4,26, valor obtido pela divisão do mínimo por 30 dias, equivalentes a 220 horas de labor, não sendo estabelecida folga semanal, o que é um absurdo.

Pelo mesmo critério, se o salário mínimo for elevado para R$ 969,00 em 2018, o salário-hora para o trabalho intermitente deverá ser de R$ 4,40 (o equivalente em dólar a US$ 1,25, estando a cotação da moeda americana em R$ 3,26). Por jornada de oito horas seriam R$ 35,20. Isso quer dizer, pela última Medida Provisória editada pelo governo, que o trabalhador intermitente for convocado para operar por 60 horas por mês, receberá R$ 260,00.

O pior é que, sendo o ganho mensal inferior ao mínimo, como informa a Folha de S. Paulo (16/11), o trabalhador terá de fazer uma contribuição adicional ao INSS para garantir a condição de segurado e ter direito aos benefícios daí decorrentes, como auxílio-doença e licença maternidade. Quanto ao seguro-desemprego, nem falar, porque o intermitente não é considerado empregado.

A MP prevê que serão necessários 18 meses para a migração de um contrato tradicional para um de caráter intermitente, mas, a partir de 2020, estará tudo liberado para que o comércio, bares e restaurantes e qualquer bodega ou tenda posam demitir e contratar à vontade, pagando esse valor vil por hora, se houver quem aceite. É verdade que o trabalhador intermitente pode trabalhar em um mês mais do que para um patrão, mas aí surge outra dúvida: não se saber qual empregador é que deve pagar a contribuição previdenciária e depositar o valor do FGTS.

Em uma, o intermitente passa a ser um pária do mercado de trabalho. Ainda mais porque, se certos trabalhadores, como o garçons e atendentes, receberam gorjeta, isso será considerado “serviço”, tendo o patrão direito a ficar com 20%.

Klaus Kleber
O presidente Temer resolveu dar ao ministro Moreira Franco todo controle sobre a comunicação e propaganda do governo com o objetivo de melhorar a sua imagem tão desgastada. O ministro, ao que se informa, será assessora do por um conselho composto pelos publicitários e marqueteiros mais badalados. Naturalmente, eles vão insistir no fato de que a inflação caiu, o poder de compra dos mais pobres aumentou, os juros também, embora para quem toma crédito isso não seja ainda visível, e outras “conquistas” do atual governo.

Pode ser até as campanhas tenham algum sucesso, mas virar o jogo quanto a popularidade de Temer e sua turma parece uma missão impossível. E isso não só por causa da corrupção, não, mas pelas atitudes que algumas “altas autoridades” vêm tomando e que o povo anda estranhando.

Digo isso com base na minha experiência no dia-a-dia. Na semana passada, tomei um táxi e o motorista disse ter ouvido no rádio que o salário mínimo para 2018 não será mais de R$ 979, mas de R$ 969. “Que mesquinharia”, comentou ele, “tiraram R$ 10 do salário mínimo!”. Concordei com ele, mesmo porque não tenho meios para confirmar ou negar que essa redução, segundo o cálculo de funcionários da Fazenda, deve proporcionar ao governo uma economia de R$ 3 bilhões. Quer dizer, se diminuíssem R$ 20 do mínimo, a economia seria de R$ 6 bilhões? (A corrida, aliás, me custou R$ 15).

No feriado, fui almoçar num restaurante aqui perto de casa e o garçom, meu velho conhecido, estava comentando o trabalho intermitente, criado pela nova legislação trabalhista. Ele disse que, como muitos garçons, estava registrado pelo mínimo, e sua renda maior vinha das gorjetas. Ele prevê que, com a nova legislação, vai ser demitido e contratado para trabalho intermitente em sábados, domingos e feriados.

A dúvida dele é quanto o patrão iria pagar por dia de trabalho e que ele achava, mesmo antes de saber o valor, que seria muito pouco. Limitei-me a comentar que, nos Estados Unidos, o salário mínimo é fixado por hora de trabalho, não por mês, detalhe que escapou do discernimento do governo e nossos legisladores.

Por coincidência, li no Facebook a queixa de um amigo quanto à ideia de aumentar a contribuição dos idosos nos planos de saúde privados. Ora, justamente na terceira idade, quando os rendimentos dos trabalhadores em geral diminui, é que eles precisam mais dos planos de saúde, pelos quais pagaram anos a fio sem praticamente utilizá-los. O que mais incomoda no caso é que o próprio ministro da Saúde, Ricardo Barros, defende uma mudança na regra que impede o aumento da contribuição para planos de saúde depois dos 60 anos de idade.

Para completar, ao chegar em casa um dia desses, perguntei a meu filho que estava assistindo TV qual era a novidade. “A ONU soltou uma nota condenando a portaria brasileira sobre trabalho escravo”, contou-me ele.

Claudia Bozzo
O diretor, roteirista e produtor finlandês Aki Kaurismaki fez uma promessa há alguns anos. Disse que depois do 20º longa metragem iria se retirar do cinema. Então, é bom torcer para que seja apenas uma de suas “boutades” e não perder “O Outro Lado da Esperança”, pois a conta de suas obras – seja de longas ou curtas ou participação em filmes de vários diretores – vai longe no IMDB (Internet Movie DataBase, o mapa da mina para quem quer lembrar qual é o ator de um filme, o diretor de arte, ou roteirista ou até mesmo quem é a esposa de fulano…).

“O Outro Lado” sintetiza toda a sensibilidade que fez de Kaurismaki um dos mais respeitados cineastas da atualidade. Conta a história do refugiado sírio Khaled (Sherwan Haji), que acaba indo para a Finlândia, vindo da Turquia e passando por vários países. Assim que chega, sua primeira providência é pedir asilo e para isso vai a uma delegacia de polícia, percorrendo toda burocracia enfrentada pelos refugiados, numa Europa cada vez mais preocupada com o tema da migração. Em uma hospedaria para onde é enviado, faz logo amizade com outro refugiado, o iraquiano Mazdak (Simon Hussein Al-Bazoon).

Em paralelo, o filme vai contando a história de Wikström (Sakari Kuosmanen), um vendedor de camisas que resolve largar a esposa, mais interessada na garrafa que em qualquer outra coisa e ao apostar o resultado da venda de seu estoque no pôquer, consegue o suficiente para montar um restaurante.

A direção de arte e a fotografia são no mínimo, excepcionais, criando uma atmosfera meio anos 1950, com um toque dark, numa Finlândia tão atual quanto seus carecas fascitoides que mal conseguem controlar a fúria assassina, ao cruzar com alguém como Khaled. Usam roupas pretas de couro e alguns têm a inscrição “Exército de libertação da Finlândia” desenhada nas costas das jaquetas. Outro ponto interessante é a música: o diretor inclui um grupo onde os intérpretes são todos septuagenários (mas nada no estilo saltitante de Mick Jagger), executando temas de country e blues cantados em finlandês, mostrando que a miscigenação cultural começou muito antes da pessoal.

Khaled é o protótipo do bom moço. Tudo o que quer é regularizar sua situação e encontrar a irmã Miriam, da qual se perdeu na hora de cruzar a fronteira turca. O roteiro dá a ele todo o espaço do qual precisa para contar com calma sua história e calvário, uma trajetória comum a tantos desses migrantes, pegos no meio de um conflito que se resume à ganância das grandes potências. Escancarada por alguém como Donald Trump, ao afirmar, como reproduziu o The Economist, esta semana que, “antigamente, se alguém ganhasse uma guerra, ganhava uma guerra. Mantinha o país”, acrescentando que “bombardearia essa droga” de Estado islâmico e “ficaria com o petróleo”.

Trump não estava nem nos delírios de algum comediante ou analista político, quando em 2003 e 2006, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o diretor Aki Kaurismaki simplesmente boicotou os prêmios (por “O Homem sem Passado” de 2002 e “Luzes na Escuridão” de 2006), recusando-se sequer a ir aos EUA, país envolvido em guerra no Oriente Médio. Aqui é bom lembrar que a realidade às vezes é bem mais surrealista que a ficção, como o ex-presidente Bush declarando que votou em Hillary Clinton e criticando Trump.

O finlandês, que vive em Portugal desde 1989, é famoso também pelo senso de humor, dos mais refinados, bem presente no filme, em toques certeiros e enxutos. Já declarou, em entrevista, que “gosto de cachorros. Pela humanidade não me interesso muito. Eles são honestos e não mentem”. Outra: “Acho que quanto mais pessimista eu me sinto em relação à vida, mais otimistas deveriam ser os filmes”.

“O Outro Lado da Esperança”, é um atestado da sua crença nas pessoas e de uma atualidade impressionante. Embora se desenvolvam em paralelo durante a maior parte do filme, as vidas do refugiado e do ex-vendedor cruzam por um brevíssimo instante no início do filme. E depois, Khaled acaba indo trabalhar no restaurante de Wikström, que manteve os antigos funcionários e tenta conquistar fregueses inovando em cardápios. Como a noite de comida japonesa, e a contratação de um grupo musical. É, na medida exata, um filme para quem gosta do verdadeiro cinema, sem efeitos especiais e defeitos extraordinários.

Leonardo Trevisan
A pergunta incomoda: em área tão sensível como recrutamento, automação fará tudo ficar diferente? O simples uso da inteligência artificial provocará contratações diversas das que sempre foram feitas pelos métodos tradicionais dos humanos?

Definir formato de recrutamento desenha o perfil do capital humano da empresa e as projeções de carreira. Artigo do Financial Times (de 27/09), assinado por Hannah Kuchler, avisou: tecnologia da informação (TI) “não é neutra”. Inteligência artificial (IA), é criada por pessoas que têm suas próprias “convicções e pré-disposições” que acabam incluídas nas ferramentas e plataformas que produzem.

Como notou o artigo, inteligência artificial é como criança que imita o comportamento dos pais e não o que eles falam. Ou seja, IA reúne informações, busca padrões e os copia. Recrutar por automação não quer dizer diversidade garantida. Ao contrário, a máquina irá seguir o padrão dos sistemas humanos. Apenas, as escolhas serão mais rápidas e mais baratas. Este artigo está em: https://www.ft.com/content/a5982330-75f6-11e7-a3e8-60495fe6ca71

É indiscutível que automação será cada vez mais intensa no recrutamento e em outras ações de RH. O que o artigo diz é que serão procurados e contratados os mesmos “homens brancos formados em Oxford e Harvard”. Ou seja, com IA diversidade é desejo, não realidade. Lembre: TI repete o que o “pai” faz (os “costumes adquiridos”) e não o que fala.

É possível que a TI fará apenas mais do mesmo, só mais rápido e mais barato. É verdade que TI pode gerar boa transparência. O Google mostrará o nível de estoque da loja da mercadoria procurada. Formação de preço no varejo mudará muito. Ponto para o consumidor.

Mas, no “grande atacado” os sinais não são de mundo novo com IA. O mercado já percebeu (e precificou) que TI reproduzirá o existente. Artigo da The Economist (de 30/09, “Uneasy accommodation”) mostrou que disrupção tecnológica só concentrou o “lucro do negócio”. Exemplo: a compra da varejista de alimentos Whole Foods pela Amazon disseminou terror nas gôndolas dos vizinhos. Lição óbvia: com TI os grandes engolem os pequenos ainda mais rápido. Ou, a lei da selva corporativa ficará, apenas, bem mais veloz.

(outubro 2017)

Leonardo Trevisan
O nome é Sawyer. Até pode parecer um operário, mas não é. Também não é só um robô. Sawyer foi pensado para “trabalhar em equipe”. A diferença está em que esse robô não quer substituir seres humanos. Ele foi desenvolvido para trabalhar ao lado de gente.

É melhor chama-los de “robôs colaborativos” como fez a The Economist. A inovação não está na destreza ou na capacidade de fazer tarefas de rotina. Isso os robôs da geração anterior já fazem. Sawyer inova muito, tanto porque tem um braço só, simbologia óbvia para quem existe para trabalhar em equipe, como por ter um “rosto”, uma tela que exibe traços faciais.

A Economist destaca a função dessa tela. Sawyer foi desenvolvido para trabalhar em ambientes onde pensamentos humanos, formas humanas de comunicação e a segurança das pessoas são essenciais.

Este robô, primeiro, avisa com o olhar e só depois faz. Como nós, que olhamos antes para uma xícara, antes de pega-la. O alvo desse aviso, desse olhar, é “integrar intenções”. É aqui que Sawyer vira mesmo “colaborativo”. A tela tem traços faciais quase humanos, como o das histórias em quadrinhos.

A pesquisadora Daniela Rus do MIT avançou na capacidade desses robôs de integrar intenções: ele vê o erro que o humano ao seu lado fez, avisa e o corrige. A íntegra do artigo está em:

https://www.economist.com/news/science-and-technology/21726686-bots-factory-are-being-taught-how-behave-robots-work-people

O avanço real está em ler a face do robô para integrar movimentos com os humanos. Por isso Sawyer tem um braço só. Imaginar que robôs colaborativos atuarão só em linha de produção industrial é ingenuidade. Pense na lógica de “integração de intenções” dos sucessores de Sawyer em uma sala de aula por exemplo. Pense nos robôs colaborativos nos hospitais. Ou, em qualquer escritório.

Nenhuma carreira estará imune à expectativa de colaboração dos sucessores de Sawyer, que tem um braço só, mas são capazes de ver e registrar erros e atrasos dos humanos. E corrigi-los. Sem briga. A chegada dessas máquinas será muito rápida. Toda empresa, de qualquer setor, que pensa em preservar competitividade, em breve, terá alguns deles.

(setembro de 2017)

Klaus Kleber
A mídia tem focalizado com frequência a flagrante divergência de opiniões — que se traduzem em julgamentos – entre a 1ª. Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), onde predomina a linha mais dura, à qual pertence o ministro Luís Roberto Barroso, e a 2ª. Turma, mais flexível, onde tem voz o ministro Gilmar Mendes.

Bem a propósito, o ministro Alexandre de Moraes, em entrevista que concedeu à Folha de S. Paulo em 26/10 (antes do bate-boca entre Barroso e Mendes, mas só publicada em 29/10) disse que “não acho que seja ruim uma divisão (no STF) – desde que seja educada”.

Educação ou civilidade não deve se limitar pela norma protocolar de um ministro chamar o outro de Vossa Excelência, mas, sobretudo, de evitar ataques pessoais desabridos como se viu na sessão do Supremo na semana passada, colocando a nu inimizades profundas entre os ministros.

O episódio pegou muito mal entre os cidadãos e muitos, como eu, têm dificuldade de assimilá-lo, não por causa do desencontro das visões de dois ministros. O que preocupa é a triste comprovação do grau extremo de polarização hoje existente na sociedade brasileira, que transcende os limites da boa educação, mesmo entre personalidades de escol, como são os ministros do STF.

Um amigo também espantado com o bate-boca me lembrou que, antes de qualquer partida de futebol, os jogadores de uma equipe são obrigados a cumprimentar, um a um, os integrantes do time adversário. Isso, é claro, não evita caneladas, empurrões e até brigas. São notórias as rivalidades entre jogadores, mas, se há casos de inimizades ou antipatias viscerais entre eles, não chegam ao ponto de impedi-los de jogar juntos em diferentes times ou mesmo na seleção. Jogo jogado, atritos são geralmente esquecidos.

Talvez um exemplo melhor seja o da Suprema Corte dos EUA, composta de nove juízes. Lá como aqui há uma divisão marcante entre os membros, sendo quatro conservadores, indicados por presidentes republicanos, e quatro mais liberais, indicados por democratas. O presidente (Chief Justice) da Corte, atualmente John Roberts, indicado pelo ex-presidente republicano George W. Bush, cujo cargo não é rotativo, como ocorre no Brasil, mas vitalício. A ele cabe muitas vezes o voto de Minerva, mas, embora tenha uma tendência conservadora, decide às vezes de um lado, às vezes de outro.

À ministra Cármen Lúcia, como se tem visto, tem cabido o papel de fiel da balança e ela procura interferir para acalmar os ânimos quando necessário. Mas como ela não é nem pode ser censora de debates livres, às vezes fica em situações embaraçosas ou se vê em saia justa, como se costuma dizer.

É oportuno mencionar que, nos EUA, há uma prática que poderia ser imitada aqui. No início de todas as sessões da Suprema Corte, cada juiz cumprimenta seus pares, como ocorre em partidas de futebol. Pode ser só uma formalidade, mas transmite a ideia de que a Corte está unida, apesar das divergências entre seus integrantes. Neste momento de tantas paixões e de interesses contrariados, o STF deveria dar ao País uma lição de civilidade e tolerância.

Klaus Kleber
O setor do agronegócio vinha projetando uma imagem de avanço. Assimilou os conceitos técnicos desenvolvidos pela Embrapa, transformou o cerrado em uma grande região produtiva, colocou o Brasil entre os maiores produtores mundiais de alimentos, vem sustentando as exportações e tem sido muito receptivo à agregação de tecnologia ao campo.

Do ponto de vista político-social, porém, não há nada mais atrasado no País do que esse setor, que elegeu um número desproporcional, cerca de 200 deputados, que constituem a chamada bancada ruralista. Foi para agradar essa vanguarda do atraso que o presidente Temer — que terá a segunda denúncia do Ministério Público contra ele e dois ministros muitos chegados, votada pela Câmara na próxima quarta-feira, dia 24 — consentiu com essa infame portaria que burocratiza para tornar ineficaz a fiscalização do trabalho análogo à escravidão.

Digo “consentiu” porque as novas normas sobre trabalho escravo constam de uma portaria do Ministério do Trabalho e foi assinada pelo ministro Ronaldo Nogueira (PTB-RS), pastor da Assembleia de Deus, atualmente licenciado para votar a favor de Temer na quarta-feira. Informa-se que tal portaria, que vem sendo contestada inclusive pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge, sofrerá modificações. O melhor seria que fosse simplesmente revogada, a exemplo do que ocorreu com a medida de Temer com relação à reserva ambiental do cobre (Renca).

Os agrados à chamada bancada ruralista, porém, têm sido contínuos, a ponto de se pensar, que, aliada aos que defendem interesses corporativos, domina hoje o Congresso Nacional. Fala-se muito em reforma da Previdência, mas não se menciona a necessidade de simplesmente extinguir a Contribuição Social Rural, que compõe o Fundo de Assistência do Produtor Rural (Funrural), que a uma alíquota de apenas 2,1% sobre a comercialização de produtos agropecuários vai para a Previdência. Com a modernização do trabalho no campo, não deveriam as contribuições patronais e dos empregados ser igual à dos trabalhadores urbanos?

Ainda que não se extinga o Funrural, seria de esperar que os fazendeiros-empresários rurais pagassem o que devem à Previdência. Mas a bancada ruralista considera abusivo o recolhimento dessa percentagezinha sobre a comercialização da produção e fez com que o Senado aprovassse uma resolução perdoando R$ 17 bilhões devidos ao Funrural. O governo pode recorrer, mas a bancada ruralista faz pressão sobre o pobre Temer para que a Advocacia Geral da União (AGU) fique estudando indefinidamente o assunto.

Podia parar por aí, mas tem mais um favorzinho à bancada ruralista. Na última sexta-feira, o presidente Temer assinou um decreto que transforma multas impostas pelo Ibama, no valor de R$ 4 bilhões, sejam transformadas em prestação de serviços ambientais. O ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, disse que essa transformação, ou seja, o não pagamento de multas imposta pelo Ibama, não significa anistia ou renúncia fiscal, mas um incentivo à recomposição do meio-ambiente.

Com certeza, essa medida vai acabar de vez com o desmatamento da Amazônia…

Claudia Bozzo
Isso não é comum, mas a sequencia de “Blade Runner, o Exterminador de Andróides” (1982) está sendo considerada ainda melhor que o filme original, pela maioria das pessoas que viram “Blade Runner 2049” (2017). E desta vez, críticos e público ficaram no mesmo time.

Passados 35 anos, a saga baseada no livro de Philip K. Dick manteve tudo que havia de bom no primeiro filme – e não era pouca coisa – acrescentando detalhes fascinantes à história. E mantendo o padrão estético que caracterizou e ajudou a fazer a fama do primeiro. Só a música não tem o mesmo impacto do original. Mas isso é só detalhe.

O primeiro “Blade Runner” não teve uma passagem marcante pelos cinemas. E aqui chegamos a uma das importantes mudanças tecnológicas que marcaram nesses trinta e cinco anos, passagens cada vez mais rápidas, como apontava Alvin Tofler (definido como ‘futurista’), que faleceu em 2016. Ele escreveu “O Choque do Futuro”, de 1970, mas ainda atual, mostrando como era cada vez mais acelerado o avanço da ciência e da tecnologia.

Esse é um dos fatores que explicam como “Blade Runner”, sem ser um blockbuster veio a tornar-se um dos mais cults entre os cults. Ele chegou em meio à briga pela definição de um reprodutor de vídeo. Era a Sony de um lado, com o seu Betamax, e outras empresas do outro, com o VHS, entre o final da década de 1970 e final da década de 1980. Esse e outros filmes da época tiveram uma carreira doméstica, pois os videocassetes começavam a se popularizar e embora extremamente caros, foram-se tornando cada vez mais acessíveis. Ao mesmo tempo veio a febre dos videoclubes.

Por fora corria outro sistema, com melhor definição, melhor qualidade de reprodução e confiabilidade, porém, extremamente caro, o laser disc (de certa forma, o antecessor do CD). Claro que as empresas pretendiam faturar com a venda de filmes – como a Atari, cujos anúncios aparecem também na continuação de “Blade Runner” – faturava na venda de cartuchos para seus jogos, cobrando pelo console um preço até simbólico.

Filmes em Betamax exigiam o console próprio, pois o formato era diferente do VHS e a maioria era encontrada apenas em lojas na Liberdade, por ser a Sony uma companhia japonesa e porque o formato e sua definição em muitos casos, melhor que o VHS, caiu no gosto da colônia japonesa. Sem contar com a imensidão de filmes japoneses que havia em tais videoclubes.

Foi pelo VHS, na época quase todos piratas, pois a produção demorou para engatar, devido à falta de definição por um dos dois formatos. E foi em VHS, em cópias bem ruinzinhas, que vi pelas primeiras dez ou quinze vezes a epopeia dos androides que haviam fugido de uma colônia em outro planeta, em busca de mais vida, pois tinham um prazo de validade que expirava com o tempo. A qualidade da reprodução dos vídeos não interferia na qualidade artística do filme dirigido pelo britânico Ridley Scott (é produtor executivo de “Blade Runner 2049”) já famoso por “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979) e “Os Duelistas” (1977). Uma direção de arte de tirar o fôlego, atores de primeira, incluindo os belos androides Rutger Hauer, Sean Young e Joanna Cassidy e o já então icônico Harrison Ford.

Nesse meio tempo vieram as TVs digitais, os reprodutores e gravadores de CD, a TV a cabo, a popularização do celular (inventado por Martin Cooper em 1973, era um “tijolo” de mais de um quilo, só começou a ser utilizado, mesmo nos EUA, em 1983). No Brasil, o primeiro foi lançado em 1990. Realidade, o carro elétrico deve ser compulsoriamente adotado por muitos países europeus, e o carro sem motorista avança dia a dia. A ficção científica deixou de ser ficção há um bom tempo. Harrison Ford, por exemplo, dá ordens por voz ao seu computador no “Blade Runner” de 1982. E aquilo era um “nossa!” na época.

Uma boa sugestão, se você não assistiu o primeiro filme umas dez ou quinze vezes, no mínimo – e ainda o director’s cut, que foi apresentado nos cinemas com a versão final do próprio Ridley Scott – é assistir pelo menos uma vez, antes de ver o novo. Mesmo porque estamos atravessando mais uma fase inovadora na evolução tecnológica. Estamos passando para o fim a “mídia física”, como são definidos CDs (de filmes ou música) para a versão digital de tudo. Os serviços de streaming (Netflix, Amazon e outros) estão avançando sobre o território da TV convencional e também da TV a cabo. Outras espécies percebem o bafo da extinção se aproximando. E é bom ficar atento, para poder acompanhar os tempos, aproveitando o que há de melhor por ai.

Klaus Kleber
Por suas ações e tuitadas, Donald Trump, o bufão que ocupa a presidência dos EUA, é motivo de inquietação global. Ele quer simplesmente desafazer tudo o que o seu antecessor, Barack Obama, conseguiu no o plano interno e externo. Suas últimas ações, amplamente noticiadas, foram um decreto executivo com o objetivo de começar a desmantelar o sistema de saúde par o qual Obama obteve a aprovação do Congresso e que Trump não conseguiu desfazer pela mesma via; e, invertendo a jogada, resolveu não confirmar o acordo nuclear com o Irã, transferindo a decisão para o Congresso, que tem prazo de 60 dias para se pronunciar sobre a matéria.

Não é a primeira vez que que Trump, em menos dez meses de governo já fez para minar a credibilidade de Washington no que diz respeito a acordos internacionais. Ele retirou os EUA das tratativas avançadas para o chamado Parceria Transpacífico e agora tenda renegociar o Acordo Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta) excluindo o México como parceiro. Não se sabe se o Nafta sobreviverá com um acordo limitado dos EUA com o Canadá, mas a lista de estragos de Trump no comércio internacional vai aumentar, afetando o Brasil.

Leio no Estadão (14/10) que empresários e economistas brasileiros já estão preocupados com a intenção de Trump de reduzir impostos para as empresas e as classes de renda média. A reforma tributária proposta pela Casa Branca prevê o corte de 35% para 20% dos impostos para as empresas americanas, ficando abaixo da média de 22,5% dos países-membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Já no Brasil, o imposto de renda sobre as empresas é de 34%, carga que se for mantida, as tornaria ainda menos competitivas.

Isso é verdade, mas a carga tributária sobre as empresas, o pato que a Fiesp elegeu em símbolo, não é tão alta assim na prática. Periodicamente, numa média de três ou quatro anos, os governos brasileiros decretam um Refis, perdoando dívidas tributárias e multas em proporções absurdas, que chegam até 90%.

Contudo, convenhamos que a medida de Trump possa gerar pressões para alterar a tributação sobre as empresas para torná-las menos pesadas. Acontece que, com o grave problema fiscal que o governo busca enfrentar, nem sempre com êxito, será preciso buscar receitas de outra forma. Seria aumentar os impostos sobre o consumidor, como tem sido comum?

Se alguém, afinal, teria de pagar o pato, não seria hora de o País realizar uma reforma tributária ampla, acabando com privilégios e taxando rendas que são taxas em todo o mundo, como dividendos, mas aqui permanecem sagradas. Se isso acontecer, Trump, de quem todo o mundo, tem medo, terá prestado um favor ao Brasil.