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As veias abertas da falta de documentos em “Samba”

Claudia Bozzo O quarteto formado pelos diretores Olivier Nakache e Eric Toledano mais os atores François Cluzet e Omar Sy conseguiu levar 50 milhões de pessoas, em todo o mundo, […]

19/07/15

Claudia Bozzo
O quarteto formado pelos diretores Olivier Nakache e Eric Toledano mais os atores François Cluzet e Omar Sy conseguiu levar 50 milhões de pessoas, em todo o mundo, para ver o filme “Os Intocáveis” (2011), que conta a história de um milionário quadriplégico que contrata um jovem e irreverente negro para ser seu cuidador.
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O filme fez muito sucesso também no Brasil e agora três deles, Nakache, Toledano e Sy retornam com um filme que, além de se chamar “Samba”, tem outras gentilezas com o país, como a música brasileira. A trilha sonora traz, além de Bob Marley e Ludovico Einaudi, as músicas “Palco”, interpretada por Gilberto Gil e “Take it Easy My Brother Charles”, cantada por Jorge Ben. Há outras menções nas entrelinhas, que quem for ver “Samba”, em exibição em São Paulo, certamente curtirá.

Embora sem repetir o mesmo sucesso de “Intocáveis”, o que sobra neste filme – que poderia ser definido como uma comédia romântica com um fundo social – é qualidade.
Desta vez, Omar Sy interpreta um jovem senegalês, Samba Cissé (o personagem conta que o nome foi escolhido pelos pais por causa da música mesmo) que vive em Paris há 10 anos, mas ainda não tem os papéis que o tornam um cidadão francês. Trabalha em um restaurante, emprego arranjado pelo tio, que sonha em retornar ao seu país e mostrar que teve sucesso ao imigrar.

Um dia, por um desentendimento, acaba sendo levado para um centro de triagem, e detido, cai nas kafkianas entranhas da justiça francesa. É lá que conhece Alice (Charlotte Gainsbourg), uma mulher que há anos luta contra uma depressão e trabalha como voluntária numa ONG de apoio a imigrantes ilegais. Aí se forma o centro da trama, na improvável aproximação dos dois e na convivência com um grupo que de certa forma vive à margem da sociedade francesa. Tanto formado por ilegais e refugiados, como franceses que decidiram trabalhar na integração dos estrangeiros, um tema muito atual na Europa de hoje.

Nem precisava ter ocorrido o pungente diálogo entre Angela Merkel e uma jovem palestina, esta semana, quando a chanceler alemã leva a menina às lágrimas, ao explicar que não é possível acolher todos os refugiados na União Europeia, para se ter noção do problema. O drama é imenso, e para os refugiados a solução parece distante, até mesmo impossível. O próprio Brasil tem recebido um número cada vez maior de haitianos, sírios, africanos vindos de vários países, o que só realça a gravidade do problema.

Baseado em livro de Delphine Coulin, “Samba pour La France”, (já lançado no Brasil, com o título “Samba” e vendido por R$ 29,00 na Livraria Cultura) o filme tomou seu próprio rumo. A dupla de diretores, também roteiristas, conta que durante três anos ouviram a pergunta, vinda de todas as partes: “E o que vocês vão fazer agora?” depois do sucesso dos “Intocáveis”. Em entrevista, Eric Toledano contou que a ideia foi reunir dois problemas: o dos executivos que acabam com uma síndrome de burnout – estresse extremo, causado pelo excesso de trabalho, – e os imigrantes, para os quais trabalhar, em qualquer tipo de ofício é o mais importante. Uniu os dois temas abordados no livro e isso deu “Samba”.

Os pais de Toledano têm origem na Espanha e no Marrocos e os de Olivier Nacache são argelinos. Ambos aceitam a categoria de “comédia social” para definir o filme e citam influências da cinematografia italiana, sempre bem sucedida na união de problemas graves com o humor. (Existe um melhor exemplo do que “Feios, Sujos e Malvados”, 1976, de Ettore Scola?) Para esse filme eles conseguiram 15 milhões de euros (50% a mais que para “Intocáveis”) e retornam à temática da convivência possível, apesar da existência de uma França que também adere com entusiasmo à xenofobia e preconceito. Mais um belo exemplo do bom e competente cinema comercial francês, que faz uma bela dupla com “Que Mal eu Fiz a Deus?”.

Mas falta a ambos a mesma força e dramaticidade de “Bem-Vindo”, de 2009, que fala de um imigrante iraquiano em território francês, tentando cruzar o canal da Mancha a nado, para encontrar a namorada. Ou “Código Desconhecido”, de 2000, de Michael Haneke. O mesmo diretor que também se refere à questão dos imigrantes argelinos e a repressão que sofreram, em outra de suas obras, o importante “Caché” (2005). Ou “Dias de Glória” (2006) que narra a participação de soldados argelinos ou marroquinos na guerra, pela França, sem receber o justo reconhecimento ou mesmo aposentadoria (concedida após a exibição do filme). Na verdade, os exemplos são tantos, que jogam a favor da decantada liberdade de expressão que o país tanto cultua, expondo seus próprios males.


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