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As multinacionais brasileiras em fase de hibernação

Klaus Kleber A fase de impulso às exportações de serviços do País junto com o crescimento das chamadas multinacionais brasileiras está sendo duramente afetada pela recessão, além dos danos à […]

30/01/17

Klaus Kleber
A fase de impulso às exportações de serviços do País junto com o crescimento das chamadas multinacionais brasileiras está sendo duramente afetada pela recessão, além dos danos à imagem no exterior das grandes empreiteiras nacionais que se expandiram no exterior e hoje estão envolvidas até o pescoço na Lava Jato. O balanço de pagamentos relativo a 2016 espelha claramente esse quadro. Nota-se, em primeiro lugar, que os investimentos diretos brasileiros no exterior em 2016 (US$ 7,748 bilhões) representam 43% a menos do total em 2015 (US$ 13,498 bilhões).

Este, porém, não é dado mais impressionante. As filiais em países estrangeiros de empresas com matrizes no Brasil fizeram empréstimos intercompanhias no total de US$ 24,136 bilhões no ano passado, 21,73% a mais que em 2015 (US$ 19,827 bilhões). Este movimento nos últimos dois anos é extraordinário. O mais comum são transferências das matrizes das multinacionais no exterior para as suas filiais no Brasil, que também foram substanciais em 2016 (US$ 22,122 bilhões).

Buscar recursos lá fora é normal em face do alto custo do dinheiro aqui, principalmente por parte das transnacionais brasileiras cujas matrizes têm sido muito abaladas pela queda geral da demanda. Vale notar que, pela metodologia do BC, as transferências de filiais no exterior para matrizes aqui — os chamados investimentos reversos — são contabilizados na conta de investimentos diretos no País.

Verifica-se, assim, que dos US$ 78,929 bilhões de investimentos diretos vindos do exterior em 2016, 30,58% vieram de empresas brasileiras com braços em países estrangeiros. Descontados esses investimentos reversos, o total de investimentos diretos no País cai para US$ 54,793 bilhões, um total relativamente baixo.

É fácil concluir daí que vem caindo a confiança dos investidores estrangeiros na economia brasileira, bem como o interesse das grandes múltis ou outras empresas do exterior na aquisição de parte das ações de companhias brasileiras ou de seu controle acionário. Essa situação, evidentemente, pode mudar e o governo conta, para isso, com as privatizações ou concessões, prometidas pelo Programa de Parceria de Investimentos (PPI), que está demorado a deslanchar.

Também devem ajudar, na ótica do governo, as reformas ainda a serem feitas, entre elas as tão controvertidas reformas previdenciária e trabalhista. Tudo isso pode contribuir em certa medida, mas os investidores estrangeiros que vieram para cá o fizeram atraídos pelo grande mercado potencial de consumo do País – e quando isso as perspectivas não devem mudar até o fim desta década. O Brasil nunca foi pensado pelas múltis como plataforma de exportação.

Quanto às multinacionais brasileiras, tão celebradas na primeira década do século XXI, cujo carro-chefe era a Petrobrás, devem, ao que tudo indica, caminhar para um período de hibernação. No máximo, deve ter continuidade
a escapadela de algumas indústrias para o Paraguai à procura de mão-de-obra mais barata. Felizmente, ainda não chegamos ao ponto de acreditar na construção de um muro na fronteira com o país vizinho.


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