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As fronteiras dos EUA e de outros países, segundo Trump

Klaus Kleber A partir desta semana, vamos ver como o presidente Donald Trump vai governar por atos. Tuitar agora não basta. O novo presidente dos EUA vai ter de tomar […]

23/01/17

Klaus Kleber
A partir desta semana, vamos ver como o presidente Donald Trump vai governar por atos. Tuitar agora não basta. O novo presidente dos EUA vai ter de tomar decisões e, a acreditar na retórica avassaladora de discurso de posse, ele pode, sim, operar mudanças por “muitos e muitos anos”. A certa altura de sua fala, ele disse, por exemplo, que “nós defendemos as fronteiras de outras nações, ao mesmo tempo em que nos recusamos a defender as nossas próprias” (tradução livre).

A segunda parte é fácil de entender. Embora os governos que o precederam, inclusive o de Barack Obama, tenham gasto bilhões de dólares para reforçar as fronteiras dos EUA com o México, aumentando substancialmente o contingente de guardas armados para impedir a entrada de emigrantes ilegais, Trump certamente está pensando de que forma fará o governo mexicano pagar pelo muro que pretende construir entre os dois países. Além das pressões que tem feito para que indústrias desistam de criar unidades além do Rio Grande, ele talvez reduza as importações do país vizinho no bojo de uma revisão do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta).

Ninguém sabe ao como isso seria feito e talvez nem mesmo Trump. Mas o que parece mais enigmático é sua aparente contrariedade com o fato de os EUA defenderem as fronteiras “de outros países”. Isso poderia significaria que Washington deveria deixar de preocupar-se com as fronteiras da Ucrânia e da Rússia? Ou com as fronteiras de Israel?

Uma das hipóteses é que, em um entendimento direto com Vladimir Putin, o governo de Trump estaria disposto a considerar que a ocupação da Crimeia pela Rússia como um fato irreversível. Evidentemente, Trump, que se gaba de ser um grande negociador, não faria isso de graça. Como contrapartida, Putin teria de retirar forças russas da fronteira da Ucrânia e se comprometer a garantir a independência dos países bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia). Nessa barganha, o presidente russo não deixaria de exigir a retirada de forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) desses países.

Evidentemente, isso não seria fácil, conhecida como é a resistência feroz de alguns senadores americanos e de chefes miliares a concessões à Rússia, que, no limite, poderiam colocar um ponto final nas sanções do Ocidente ao império de Putin, com o consequente enfraquecimento da Otan.

Ninguém parece mais indicado para levar a cabo uma ousada política desse tipo do que o secretário de Estado indicado por Trump: Rex Wayne Tillerson, que foi CEO por dez anos da ExxonMobil e é expert em coisas russas, tendo merecido uma condecoração por Putin por bons serviços petrolíferos.

Falando ainda de fronteiras, as declarações de Trump devem soado como uma música divina para o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu. Não bastasse Trump ter falado em transferir a sede da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém, o seu discurso de posse, ao que tudo indica, dá carta branca para novos assentamentos israelenses na parte leste da cidade sagrada para três religiões e na Cisjordânia.

Especula-se em Washington e pelo mundo afora muito mais que nos dias febris de Wall Street, como mostram os milhares de comentários que têm sido publicados sobre o novo presidente dos EUA.


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