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“Argentina” retrata o rico folclore do país, pelas lentes do mestre Carlos Saura

Claudia Bozzo O cinema pode ser considerado uma arte eclética por excelência, ao abrigar generosamente em suas telas todas as outras manifestações artísticas. Poucos ambientes recebem com tanta reverência, respeito […]

23/04/17

Claudia Bozzo
O cinema pode ser considerado uma arte eclética por excelência, ao abrigar generosamente em suas telas todas as outras manifestações artísticas. Poucos ambientes recebem com tanta reverência, respeito e amor, talentos expressos em dança, música, teatro, artes plásticas, poesia, literatura e outras, quanto salas de projeção.

Captura de Tela 2017-04-23 às 13.06.20

Prova disso é o novo filme de Carlos Saura, “Argentina” (de 2015), que com uma direção de arte à altura de seus filmes anteriores, emociona ao fazer par com os dançarinos músicos e poetas que dão e deram sua contribuição ao rico folclore argentino, numa coprodução que reúne Argentina, Espanha e França. O diretor espanhol, hoje com 85 anos, mantém a jovialidade de sua cinematografia e traz os ritmos, canções, conjuntos musicais e intérpretes de expressões como a zamba, chacarita, chamame, todas bem desconhecidas para nós, acostumados ao tango como a definitiva expressão musical argentina.

O próprio Saura, em 1998 nos trouxe “Tango”, em 2010 o documentário “Famenco, Flamenco”, e tantos outros, numa carreira iniciada em 1955. Se ante o franquismo expressava sua irreverência com alegorias sutis ou nem tanto, depois se firmou como diretor, ator, roteirista e diretor de fotografia. São dele clássicos do cinema mundial, como “Ana e os Lobos” (1973), “Fados” (2007), “Amor Bruxo” (1986), “Mamãe faz 100 anos” (1979), “Bodas de Sangue” (1981), “Cria Corvos” (1976), entre tantos outros.

Sempre em atividade, há notícias de que prepara duas novas obras, uma delas um documentário sobre o arquiteto Renzo Piano (autor, com Richard Rogers do ousado Centro Georges Pompidou em Paris). Também está em seus planos “33 Dias” um filme sobre Picasso e a criação do mural Guernica.

“Argentina”, em exibição desde a semana passada, é uma mistura de musical e documentário. Seu nome original é “Zonda”, e traz uma reverência ao folclore argentino “em estado puro”, como próprio Saura definiu em entrevista a um jornal de Buenos Aires. É um registro histórico, despretensioso, que reúne um punhado de artistas dedicados à preservação do que há de mais original e popular no cancioneiro popular das várias regiões do país. São letras de uma poesia emocionante, canções em estado puro, cercadas de um cenário sem pirotecnia, mas com uma beleza que se alia às músicas em harmonia poética e emocionante.

Não há uma história, nem a preocupação didática. É um filme que vai direto à veia da emoção. Como as homenagens a Mercedes Sosa, numa imagem de arquivo, apresentada a escolares que a acompanham de suas carteiras. Outro homenageado é Atauhalpa Yupanqui, certamente outro dos maiores nomes do folclore da Argentina.

No jogo de luzes, sombra e cores, está o olhar de Saura. “O cinema é uma grande mentira. A realidade existe apenas ao vivo e na hora, o resto é uma ficção inventada. Nesse sentido, este é um musical per se. Não há roteiro, nada mais que interpretações, cenografia, luz e um grande respeito pelos artistas”, disse ele em entrevista a jornal argentino.

Talvez esse seja o segredo de um filme que consegue emocionar, apenas reunindo os artistas com suas canções, danças e repertório, em um enorme galpão na região da Boca, em Buenos Aires, mostrando que a arte supera barreiras geográficas e se ela é legítima, sincera, verdadeira, une as pessoas, independente de fronteiras ou background cultural. Esse encontro, numa linguagem atual, constitui um verdadeiro documento cultural para o futuro, ao qual Saura empresta seu magnetismo e originalidade como cineasta.

Ainda segundo o diretor espanhol, “queremos mostrar, através da música e da dança tradicional argentina, uma cultura e um país. A ação visual está focada ao redor das diversas regiões que formam a Argentina e por sua vez formam um mapa de variantes musicais tais como o carnavalito, a zamba, a chacarera, a copla, o chamamé, a tonada e muitas outras expressões arraigadas na geografia e na alma das diversas comunidades do país”.


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