X

Agnés Varda e JR: toda a magia de “Visage Villages”

Claudia Bozzo Em mãos competentes, as câmeras cinematográficas podem abrigar, ao mesmo tempo, poesia e emoção, o momento, o passado e o futuro. É o que acontece com o mágico […]

11/02/18

Claudia Bozzo
Em mãos competentes, as câmeras cinematográficas podem abrigar, ao mesmo tempo, poesia e emoção, o momento, o passado e o futuro. É o que acontece com o mágico e belíssimo filme “Visages Vilages” (2017) de Agnés Varda, uma das mais importantes cineastas do mundo, que caminha para os noventa anos, em maio, e do fotógrafo JR.

O documentário levanta a questão várias vezes: onde foi que essas duas figuras, que 55 anos de idade separam, vieram a se encontrar? Não foi numa beira de estrada em busca de carona, nem numa padaria ou parada de ônibus. Nem num site de encontros.

O certo é que a parceria é perfeita. Os dois compartilham uma visão poética, estética, terna e emotiva pela França (país que a belga Varda adotou, e onde mora no 14eme., em Paris, tendo sido casada durante muitos anos com o cineasta Jacques Demy, falecido aos 59 anos, em 1990). Varda e JR enxergam o mundo pelas mesmas lentes, embora para Varda o foco, com a idade e uma condição clínica complicada, seja menos preciso.

O documentário concorre ao Oscar como melhor documentário de longa-metragem, e seu efeito é mágico. A leveza vem da facilidade de diálogo e convivência entre ela e o fotógrafo, ambos com um inteligente e rápido senso de humor.

É um mergulho no cotidiano das pessoas que vivem nos vilarejos do interior da França, levando o registro de seus personagens e integrando-os à paisagem. JR tem uma caminhonete que, além de fotografar as pessoas, imprime imagens no tamanho que ele quiser. São os os retratos que vão adornar o habitat daqueles cidadãos. A garçonete, o carteiro, as mulheres dos estivadores, os funcionários de uma fábrica, a moradora de uma antiga vila de mineiros que resiste à mudança, embora os vizinhos tenham ido embora. Ou a foto de um fazendeiro no galpão de sua propriedade.

Nem um enorme bloco de concreto jogado em uma praia da Normandia, rejeito ainda da segunda guerra, escapa de tornar-se personagem.

Mas o filme não é feito só de impactantes soluções estéticas. Há as histórias dos cidadãos, o respeito pelo passado e pelo ambiente, o amor à terra natal. Eles resgatam a foto de antepassados e a enquadram em uma moldura, antes de colar em uma parede. Todas as superfícies, ásperas, lisas ou deterioradas, dialogam com as fotos. Seja pelo local onde estão, como uma caixa d’água com peixes colados, a um vagão de trem com os olhos e os pés de Varda ou os contêiners com a foto das esposas de estivadores.

Uma arte efêmera, pois trata-se de papel, colado em superfícies ao ar livre. Mas multiplicada pela era digital, pois torna-se o tema de inúmeros selfies. Como comenta o dono do bar onde trabalha a garçonete, retratada descalça, com uma sombrinha: “ela chegou há pouco tempo, e agora é a pessoa mais famosa da cidade”. Entre seus fotógrafos, os dois filhos, buscando o melhor ângulo para um selfie.

Varda, personagem das mais importantes aa Nouvelle Vague, a onda que mudou o modo de fazer cinema no mundo, menciona várias vezes o cineasta Jean-Luc Godard, comparando à JR, pois como o cineasta mais amado e mais odiado em todos os tempos, JR também não se separa dos óculos escuros. Ela quer o tempo todo, que JR tire seus óculos. E há uma cena de Goddard sem os seus, com lágrimas nos olhos, que Varda filmou e reproduz no documentário.

A viagem de ambos pela França inclui uma visita ao túmulo de outro ícone da cultura francesa, o fotógrafo Henri Cartier-Bresson, em um pequeno cemitério com apenas 14 tumbas, no pé dos alpes.

O gato de Varda é personagem do documentário, às vezes nos ombros dela, ou deitado na estante ao lado da janela. Na semana passada, impossibilitada de ir a Hollywood para um almoço de candidatos ao Oscar, ela mandou fotos suas, em tamanho natural, que JR levou para ficar ao seu lado e uma delas, ao lado do diretor de “A Forma da Água”, Guillermo del Toro, tem Varda e seu gato.

Que não reste a menor dúvida: esse é um filme para quem quer sair feliz do cinema. Duvida? Pois veja o trailer, no YouTube, ou qualquer outro lugar. E não é o tipo de filme que se pode sentar no sofá e esperar que ele chegue pelo Netflix, ou pela TV a cabo. É na telona que ele está em seu ambiente e passa melhor toda a emoção da arte no cinema. Pura magia.


Todos os direitos reservados, 2018.