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Abertura comercial na base do grito

Klaus Kleber As palhaçadas do presidente Donald Trump em matéria de comércio exterior, em vez de levarem a guerra comercial mudial de verdade, podem, paradoxalmente, concorrer para uma abertura maior […]

26/03/18

Klaus Kleber

As palhaçadas do presidente Donald Trump em matéria de comércio exterior, em vez de levarem a guerra comercial mudial de verdade, podem, paradoxalmente, concorrer para uma abertura maior de mercados. A jogada da Casa Branca é clara: fazer pressões absurdas para obter concessões. É o caso específico do aumento de tarifa sobre o aço.

Primeiro Trump anunciou a imposição de uma sobretaxa de 25% sobre todas as importações do produto pelos EUA. Depois, começou a barganhar. Excluiu seus parceiros no Acordo Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA), o México e o Canadá, do gravame, e depois fez o mesmo com relação à União Europeia (UE), a Austrália, a Argentina e, finalmente o Brasil, estabelecendo um mês para negociar com o País medidas compensatórias.

No âmbito do NAFTA, a concessão será levada em conta nas conversações em curso para rever certas disposições do Acordo. E, certamente, o Representante Comercial dos EUA vai pedir compensações à UE e demais países “beneficiados”. No caso específico do Brasil, o imposto de importação deve ser baixado para vários produtos americanos importados para que o aço não seja sobretaxado.

Convém notar, a propósito, que a diplomacia comercial brasileira agiu muito bem nesse caso. Em vez de pedir ao presidente Michel Temer que telefonasse para Trump, um gesto provavelmente sem consequências prática, os representantes brasileiros tentaram mostrar o quanto a indústria americana seria prejudicada com o aumento do preço dos semiacabados de aço que o Brasil exporta. Funcionou, mas ficou condicionado a contrapartidas.

O mesmo esquema pode ser posto em prática no que diz respeito à China. Bombasticamente como sempre, Trump anunciou há pouco a imposição de tarifas sobre produtos chineses importados pelos EUA no valor de US$ 50 bilhões. Pequim diz que haverá retaliações sobre as importações chinesas de produtos americanos, especialmente de commodities agrícolas.

Logo, logo, o lobby agrícola dos EUA vai protestar, pois pode perder um multimilionário mercado, principalmente para o Brasil, Argentina e Canadá. Nessas circunstâncias, em um gesto aparentemente de benemerência, o governo Trump pode tramar o início de negociações amplas com a China sobre o comércio bilateral, que podem envolver até a valorização da moeda chinesa, o iuane.

Em suma, uma maior abertura do comércio mundial está em andamento na base do grito.


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