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Abelhas e estranhamento no belo filme “As Maravilhas”

Claudia Bozzo A simbólica escolha de um apicultor como um dos personagens centrais de “As Maravilhas” não diminui o estranhamento no qual o filme da italiana Alice Rohrwacher (aplaudido durante […]

19/04/15

Claudia Bozzo
A simbólica escolha de um apicultor como um dos personagens centrais de “As Maravilhas” não diminui o estranhamento no qual o filme da italiana Alice Rohrwacher (aplaudido durante 11 minutos após sua apresentação em Cannes, no ano passado) nos submerge.

Como as abelhas – cuja sobrevivência em todo mundo está cada dia mais ameaçada, seja pela disseminação dos agrotóxicos como por alterações genéticas – o grupo de mãe (Angélica, interpretada por Alba Rohrwacher, irmã da diretora), quatro filhas e uma agregada, liderados pelo intempestivo Wolfgang (Sam Louwyck) também vive difíceis dias.

A diretora não explica muito É preciso juntar peças aqui e ali para montar a história. Mas de imediato vemos que Gelsomina (Maria Alexandra Lungu), de 12 anos, a filha mais velha, é a verdadeira espinha dorsal daquela família. E a ela que o pai recorre para tudo, seja para cuidar da colmeia ou organizar coisas na casa. É quem organiza atividades das irmãs, e é o apoio da mãe. Tudo ali remete a uma antiga comunidade hippie, a seres em extinção, tentando proteger a pureza do cultivo de mel, defendendo a região dos caçadores e da intromissão de turistas.

O filme se passa na Umbria, nas margens de um dos maiores lagos italianos, o Trasímero e a única cidade mais próxima é Perugia. Mas nada disso é citado, pois o maior trabalho da diretora parece ter sido o de nos afastar dos fatos concretos para mergulhar no íntimo daqueles sobreviventes e de sua luta para preservar a natureza. Os personagens falam entre si alternando italiano, francês e alemão e o contato deles com o restante da comunidade – um pequeno vilarejo habitado basicamente por produtores rurais limita-se ao estritamente necessário.

Se a Itália profunda está presente – o valor dado aos produtos da região, o orgulho do produtor de linguiça de vinho e outros – também surge a Itália oficial, das breguices da televisão. Esta vem para o pequeno paese trazendo a diva Monica Belluci no papel de Milly Catena, a apresentadora de um programa que vai escolher o melhor produtor. Sua estranha peruca branca e a roupa brilhante – completamente deslocados da discreta cultura local – atraem a atenção da filha mais velha, Gelsomina – Maria Alexandra – (nela se vê o brilho de uma grande atriz).

Algumas pistas sobre os personagens surgem quando, por exemplo, chega à pequena propriedade rural uma assistente social alemã que traz um rapaz de seus 14 anos, em um programa de recuperação de delinquentes juvenis. “Quem é o chefe da casa?” ela indaga. Silêncio. Repete a pergunta e alguém responde: “É a Gelsomina”. Depois, é um amigo alemão que vem ao lugarejo e o diálogo entre ele e o pai da família também dá pistas sobre um passado, que pode ter sido o de participação em movimentos clandestinos.
Com todo esses enigmas – ou talvez justamente por causa deles – é um filme fascinante.

E o melhor de tudo é que ao pesquisar sobre o Festival de Cannes, ficamos sabendo que para este ano há duas grandes novidades vindas da Italia: um novo filme de Nanni Moretti, o diretor de “Caro Diário” e “Abril”, que vem com “Minha Mãe e outro de Paolo Sorrentino, o diretor de “A Grande Beleza”, que vai apresentar “Juventude”.

Desta vez não haverá nenhum latino-americano. Dos 17 longas na competição, 14 são produções ou co-produções europeias. De qualquer forma, é bom acompanhar, pois daqui a um ano, ou dois, pode ser que cheguem por aqui. Como o maravilhoso “O Sal da Terra”, exibido no Festiva de 2014, no qual Win Wenders e Juliano Salgado documentam a vida do fotógrafo Sebastião Salgado (ainda em exibição em São Paulo). Ou ainda o argentino “Relatos Selvagens”, também nos cinemas à espera de quem não rejeita um bom filme.

Ainda estamos esperando que as distribuidoras lancem “Turner”, de Mike Leigh, que deu a Palma de Ouro ao ator Timothy Spall, que interpreta o pintor. O filme existe por ai em piratas. Mas quem quer ver Turner na TV, se é possível ver o filme num cinema?


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