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A simplicidade luminosa de “Uma Primavera com Minha Mãe”

Claudia Bozzo A necessidade de diversão que lota muitos cinemas, felizmente é compensada pela imersão na realidade embutida nos dramas, comédias suspense e outros, vindos da França, Itália, Grã-Bretanha, Irã, […]

29/09/13

Claudia Bozzo

A necessidade de diversão que lota muitos cinemas, felizmente é compensada pela imersão na realidade embutida nos dramas, comédias suspense e outros, vindos da França, Itália, Grã-Bretanha, Irã, Escandinávia, Leste europeu e tantos outros.

Um deles é o francês “Uma Primavera com Minha Mãe”, a nova e bem-sucedida parceria entre o diretor Sthéphane Brizé e o ator Vincent Lindon, que juntos fizeram o lindo “Mademoiselle Chambon”, história de um pedreiro e uma professora de música que se apaixonam.

Aqui o tema, quando percebemos, é dos mais profundos e definitivos. Lindon, no papel de Alain, é o ex-motorista de caminhão que aos 49 anos volta para a casa da mãe, depois de ter passado um ano e meio na prisão, por transportar drogas de um país para outro. Fragilizado, melancólico e também tomado por uma difusa cólera, tem dificuldades em encontrar um novo emprego. Ele e a mãe, Yvette, interpretada pela excelente Hélène Vincent – muito conhecida por filmes feitos pela TV, vários deles exibidos na TV5 – mantêm uma relação difícil, construída ao longo dos 45 anos de casamento com um marido de “gênio forte”, como ela define. Os dois simplesmente parecem se odiar. O único elo em comum é o cão, um boxer chamado Calie. É ao cão – e só a ele – que ambos dedicam um toque de ternura que parecem não possuir.

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A mãe, Yvette, está doente. Tem um câncer terminal, resultado de uma metástase que migrou para o cérebro. Ela se cuida, cuida da casa obsessivamente, continua com sua vida, numa espécie de fatalismo corajoso. Mas sua hora está chegando, como mostram os resultados dos exames. E quando percebemos, estamos em um filme que trata de suicídio assistido. Ao remexer nos remédios da mãe, em busca de algo que o ajude a dormir, o filho Alain, descobre que a mãe já tomou sua decisão. Há um documento, firmado por ela, comprometendo-se a encerrar seus dias de uma forma digna, como ela explica, em uma clínica suíça que realiza tais procedimentos.

Em uma das discussões com o filho ela conta que ficou sabendo da existência da clínica e escreveu para lá. Lembra que o marido sofreu muito antes de morrer e ela não quer passar por isso, e sim tomar a decisão antes que seja tarde demais para decidir. Mesmo porque na França esse tipo de solução é proibida por lei.

Também no Reino Unido o suicídio assistido é considerado criminoso, e em comovente reportagem do jornal The Guardian, ficamos sabendo que a clínica suíça Dignitas recebe em média 18 britânicos por ano em busca do fim de seus males. Fundada em 2002, a Dignitas já realizou muito mais de mil procedimentos, atendendo a pessoas da Europa e outras regiões, exatamente na forma em que é mostrada no filme.

Uma crítica francesa, Caroline Vié definiu “Uma Primavera com Minha Mãe” como um “esplêndido suspense afetivo”.

Não é um filme triste, nem mórbido, ou complacente, e militante. Apenas, na sua luminosa simplicidade, um filme tocante, no qual uma mulher toma posse de sua morte, como pode e como quer. É um resumo possível desse filme tocante, de uma profunda delicadeza com notas poéticas que atenuam o amargor da proposta.

O modo de filmar de Brizé dá tempo aos atores de manifestar as mínimas nuances de seus sentimentos, que são a riqueza essencial do filme, onde a trama é acima de tudo um amor incapaz de ser verbalizado entre um filho e sua mãe. O olhar de ambos raramente se cruza, a distância é poderosa.

“Uma Primavera…” lembra muito “Amor”, de Michel Haneke, e “A Short Stay in Switzerland”, exibida na TV a cabo no Brasil, com Julie Walters no papel da médica britânica que também vai à Suíça, em busca da Dignitas, filme do diretor Simon Curtis, de 2009. Neles, o que se sobrepuja a todas as emoções envolvidas, é o mais profundo amor.


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