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A odisseia cubana, no retrato de Laurent Cantet: “Retorno a Ítaca”

Claudia Bozzo O novo filme do diretor Laurent Cantet, “Retorno a Ítaca”, chegou esta semana ao circuito comercial, em época mais que oportuna. Feito em 2014 (passou em São Paulo, […]

14/06/15

Claudia Bozzo
O novo filme do diretor Laurent Cantet, “Retorno a Ítaca”, chegou esta semana ao circuito comercial, em época mais que oportuna. Feito em 2014 (passou em São Paulo, na Mostra de Cinema do ano passado, com direito a debate com o diretor) e precede as últimas decisões do governo dos Estados Unidos, em relação ao país, ao atenuar o embargo que até agora perpetua a infeliz existência da Guerra Fria e mais recentemente, de tirar o país da relação dos coniventes com o terrorismo. Fase que certamente representa um recomeço para o país, embora não se saiba para que ponto tudo vai caminhar.

É um retorno de Cantet a Cuba, depois de ter participado do seleto grupo de cineastas que em 2012 fez “Sete Dias em Havana”. “Retorno” fala de um grupo de cinquentões. Quatro deles ficaram em Cuba e recebem no final de tarde, em um terraço de frente para o Malecón, um quinto integrante da “turma”, que viveu na Espanha. Daí o nome, na lendária referência da volta de Ulisses à sua ilha.

Cantet, muito conhecido por “Entre os Muros da Escola” (2008) escreveu o roteiro, com a colaboração com o escritor cubano Leonardo Padura (o respeitado e reverenciado autor de “O homem que amava os cachorros”).
Após a apresentação do filme, há mais de um ano, naquela noite de segundo turno no Brasil – foi ele que anunciou à plateia, no Reserva Cultural, que saíra o resultado e Dilma Roussef tinha sido reeleita – Cantet explicou que, através daquelas cinco narrativas cruzadas dos personagens, em tom decididamente teatral, tentou “trazer para o presente de Cuba, as esperanças dessa geração, e seu universo de desilusões, enganos e sobretudo, a força da amizade”. Explicou sua opção pelo terraço onde filmou, por trazer de um lado a vista do mar e do outro a imensidão de terraços de Havana, ao mesmo tempo em que registrou os sons, a música que vinha de outros lugares, o pulsar da cidade.

Para não estragar o prazer de quem vai assistir ao filme, não se devem contar os segredos que vão sendo revelados aos poucos, nos diálogos entre os amigos – de início carinhosos, afetuosos mas ao mesmo tempo em que se eleva o teor alcoólico, passam para cobranças e autocríticas – pois aí está uma das partes mais saborosas da narrativa.

O terraço, já retratado como arena teatral por cineastas como Ettore Scola, Fellini e mais recentemente por Paolo Sorrentino, em “A Grande Beleza” é o cenário onde se reúnem Tânia (Isabel Santos), que queria ser médica ; Aldo (Pedro Julio Díaz Ferrán), engenheiro que recicla baterias; Rafa (Fernando Hechevarría), pintor que vive de pinturas vendidas a turistas e se refugia na bebida; o bem-sucedido trambiqueiro que circula à vontade pelo mercado negro; Eddy (Jorge Perugorría), que deixou de ser escritor; e Amadeo (Nestor Jimenez), cuja volta da Espanha, depois de 16 anos, é o motivo da reunião dos velhos amigos de juventude.

Se a presença de Padura garante parte do texto, o que se dizer de Laurent Cantet, que tem em seu currículo filmes de alto gabarito, como “Rumo ao Sul”, de 2005, mostrando o fenômeno de mulheres maduras que iam ao Haiti em busca de amantes jovens? E de “A Agenda”, de 2001, no qual retrata a história real de um homem que conseguiu durante 20 anos enganar família e amigos, dizendo que trabalhava na OMS? Esse acontecimento abalou tanto os franceses que outra importante diretora, Nicole Garcia, filmou a mesma história, com Daniel Auteil, em “O Adversário”, de 2002. Também é de Cantet o sensível – e político – “Recursos Humanos” de 1999, apresentado pela TV5.

A trilha sonora dá o tom do filme, com as novas e antigas canções que mobilizavam aquele grupo – responsável por infrações como ouvir os Beatles. E California Dreamin’, de The Mamas and Papas dá o clima como poucas canções. O retrato de uma época que foi e agora, de uma época que não se sabe para onde irá. Boa hora para ver o filme.


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