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A lei que domina o mercado do trabalho

Claudia Bozzo Tristemente oportuno, “O Valor de um Homem”, deve entrar em cartaz em breve, pois o Reserva Cultural já traz na sua entrada principal o cartaz do filme que […]

15/05/16

Claudia Bozzo
Tristemente oportuno, “O Valor de um Homem”, deve entrar em cartaz em breve, pois o Reserva Cultural já traz na sua entrada principal o cartaz do filme que há exatamente um ano recebeu no Festival de Cannes o prêmio de Melhor Ator para seu interprete, Vincent Lindon.

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Ele chega em hora difícil para o País, com o desemprego à espera de suas presas, as primeiras vítimas em uma crise. É disso que ele trata. Da dura realidade do mercado de trabalho. Thierry, aos cinquenta e um anos, as prestações da casa para quitar, e esposa e um filho deficiente, passa por 20 meses na fila do desemprego. Faz cursos de atualização, treinamento para entrevistas, recorre ao banco para negociar suas dívidas. Da gerente do banco recebe o conselho de vender a casa. Na sua resposta, todo o desânimo e sensação de impotência; é como se tudo que fiz até agora fosse apagado, responde ele.

Surge então a possibilidade de trabalhar como segurança em um supermercado. Vigiando clientes e os próprios colegas, tarefa que corrói seus valores internos. O nome do filme, em francês, é bem mais fiel à sua essência; “La Loi Du Marché”. É à lei do mercado que as pessoas devem se curvar, em situações como a que enfrenta Thierry.

Essa não é a primeira vez que o diretor Stephane Brizé e o ator Vincent Lindon formam uma bem sucedida parceria. Antes disso, fizeram em 2012 “Uma Primavera com Minha Mãe”, que traz uma séria reflexão sobre o suicídio assistido e em 2009 o delicado “Mademoiselle Chambon”, no qual Lindon contracena com a esposa na vida real, Sandrine Kimberlain, formando o incerto romance de um pedreiro casado, com uma professora de música. Pessoas comuns, vidas normais, em roteiros de primeira com atores ótimos. Cinema francês, em síntese.

Depois de premiado em Cannes, Lindon recebeu também um merecido César, que seria o Oscar francês, pelo papel. Ator de infinitos recursos, ele vai da comédia mais escrachada, como “Paparazzi”, de 1998 ou o simpático “Belle Maman” de 1999. Ou ainda “A Crise” de 1992 e “Minha Pequena Empresa” de 1999. No drama também ele mostra sua excelência. Faz o papel do famoso médico Charcot, em “Augustine” de 2012, ou do professor de natação que ajuda um rapaz iraquiano a aprender a nadar para conseguir atravessar o Canal da Mancha em “Bem-Vindo”, de 2008.

Tataraneto de um ex-primeiro ministro francês, e filho de uma importante editora, Lindon é engajado e sempre prefere os papéis com um conteúdo mais social. O principal critico do site Écran Noir o definiu como “um livro indispensável em todas as bibliotecas, mesmo que não seja o mais conhecido nem o mais lido. Ele é o que nos fará viver emoções múltiplas , sem antecipá-las… um ator que nos convence que é mais que um camaleão”.

Em “O Valor de um Homem”, esse ator abarca a humanidade, a ternura, por meio de seu triste olhar em um filme que é um retrato do sistema que humilha os humildes, e ao mesmo tempo uma obra de combate. Uma tragédia ordinária. Com um dilema moral no meio: para manter um emprego, deve-se aceitar tudo?

Esse filme remete a outra obra recente, de grande força, “Dois Dias, uma Noite” (2014), dos irmãos Dardenne, no qual Marion Cotillard é a operária que tem esse prazo para convencer os companheiros de trabalho a não optar entre a demissão dela e a manutenção do bônus de fim de ano.

Embora seja bom saber que um filme tão bem recebido em Cannes – festival que está em fase de apresentação – chega ao Brasil, é uma pena notar que levou um ano até que isso ocorresse, quando coisas como “Invasão a Londres” (2016) sejam apresentadas quase que simultaneamente nos grandes mercados. Como Cannes este ano tem um novo filme de Ken Loach, de Bruno Dummont e outros grandes, vamos torcer para que a Mostra de Cinema – que sempre antecipa muitos desses filmes – continue com seus apoiadores, em tempos tão bicudos como o que atravessamos e nos quais os cortes de sempre são nas atividades culturais.


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