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A imperdível série “Borgen” já exibida em 2012 pela TV a cabo, ganha mais fãs na Netflix

Claudia Bozzo Criada em 2010 e exibida em 2012 no Brasil pelo canal GlobosatHD, da Net (lá se vão oito anos), a série “Borgen” precisou chegar à Netflix para agitar […]

11/10/20

Claudia Bozzo

Criada em 2010 e exibida em 2012 no Brasil pelo canal GlobosatHD, da Net (lá se vão oito anos), a série “Borgen” precisou chegar à Netflix para agitar os interessados em qualidade. Isso é bom, mesmo porque a Netflix tem muita variedade, e isso inclui todo tipo de filmes, documentários e séries. Ninguém sai de mãos vazias.

“Borgen” acompanha a trajetória de uma política, Birgitte Nyborg, interpretada pela bela atriz Sidse Babett Knudsen que assume o cargo de primeira-ministra, vinda da liderança do Partido Moderado, em uma coalizão. Ela depois fez filmes na França (“A Corte”, ao lado de Fabrice Luchini, exibido no Brasil) e ainda participou da série “Westworld”, da HBO.

Pois bem, sabendo usar, não vai faltar. Esse é um slogan que serve muito bem para quem acha que na televisão “não tem nada que preste”. Tem sim, e é só fugir das novelas (cada vez mais, menos), que existe um mundo de programas prá lá de interessantes.

É o caso, por exemplo, desse seriado tão dinamarquês como os ótimos “A Ponte” (que gerou uma versão britânico-francesa e outra americana) e The Killing”. O melhor de tudo é que o site InternetMovieDatabase anuncia ao lado de “Borgen”, uma nova temporada, para 2022. Isso é que é uma boa notícia! Na avaliação do site “Rotten Tomatoes”, o famoso tomatômetro, a série recebeu 100% de aprovação de críticos e 99% do público em geral. 

O programa fez tanto sucesso que até a NBC, chegou a anunciar que pensava em produzir um igual, em seu próprio idioma. Depois não se falou mais nisso, porque “Borgen” é, assumidamente, um “West Wing” do norte da Europa (a série americana foi lançada no final de 1999 e a dinamarquesa em 2000). Seu nome significa palácio ou fortaleza, e refere-se ao parlamento dinamarquês. A história gira em torno de Birgitte Nyborg, que assume o cargo de primeira-ministra, vinda da liderança do Partido Moderado, em uma coalizão.

Para quem gosta de filmes políticos, esse é o famoso prato cheio. Embora os partidos e instituições políticas, assim como órgãos de imprensa e emissoras de TV tenham nomes fictícios, são todos calcados na realidade dinamarquesa. Por coincidência, “Borgen” começou a ser transmitida pela TV dinamarquesa DR em 2010, e foi só no ano seguinte, em 2011, que nas eleições gerais da vida real, a política Helle Thorning-Schmidt assumiu o cargo de primeira-ministra.

Teria “Borgen” aberto o caminho para a eleição da primeira mulher na liderança política do país? Um comentarista político dinamarquês, Thomas Larsen, do Berlingske duvida. “Em primeiro lugar, os dinamarqueses interessam-se muito por política, e em segundo, já faz algum tempo que as mulheres assumem importantes papéis na vida política”. Ele ainda lembra que na série há muitas mulheres no gabinete, integrantes da coalizão que a levou ao cargo. As jornalistas e sua audácia também são parte importante da trama.

O seriado mostra a mistura de interesses de vários setores, lobistas, imprensa, sacrifícios pessoais, concessões, um mergulho no mundo real, longe das promessas da propaganda política. Com uma frase de “O Príncipe” de Maquiavel na abertura, a primeira temporada da série começa três dias antes das eleições gerais, nas quais o partido de Nyborg despenca, ante a inesperada aliança entre políticos de direita e esquerda.

Mas alguns acontecimentos conspiram a seu favor. A mulher do líder da direita, viciada em tranquilizantes, gasta fortunas em lojas de Londres e o marido, em pânico, acaba pagando essas despesas com seu cartão corporativo. Isso acaba caindo nas mãos do seu assessor de comunicações, Kasper Juul (interpretado por Johan Philip Asbæk). Ele leva o documento à política Nyborg, que se recusa a usá-lo, mas encontra alguém na coligação que o faça. Juul obteve o documento ao socorrer a ex-namorada, a ambiciosa Katrine Fønsmark (interpretada por Birgitte Hjort Sørensen), uma das repórteres do mais importante canal de TV do país. É nos braços da bela Hanne, que morre, de um ataque cardíaco, um dos importantes consultores da coligação direita-esquerda contra a qual a moderada Nyborg luta.

Passadas as tempestades, ela é eleita e a primeira temporada mostra as dificuldades de adaptar seu ideário às realidades do jogo político e reais interesses do país. Ameaça elevar impostos e recebe a gentil visita de um dos maiores empresários do país, que polidamente avisa que pretende levar suas empresas para a Suécia, com a maior facilidade. Não foi outro o recado dado ao presidente francês, na época, o socialista François Hollande, cheio de planos ao assumir o governo. É obrigada a afastar assessores envolvidos em escândalos, entre elas a aliada do Partido Verde e o mais importante de seus consultores e amigos, para ceder o cargo de ministro das Finanças em nome da sobrevivência.

E é na primeira temporada que se consolida o afastamento da família, dois filhos e um “maridão” (interpretado por Mikael Birkkjær, da segunda série de “The Killing”) e surgem os problemas no casamento “de anúncio de margarina”.

O primeiro episódio da segunda temporada mostra a premier, às voltas com os papéis do divórcio, e preparando-se para uma visita às tropas dinamarquesas destacadas no Afeganistão. Ela embarca decidida a aproveitar a viagem para anunciar a retirada. Mas durante sua visita há uma ofensiva talibã que a obriga a regressar, imersa em dúvidas: como sair durante uma ofensiva? Os talibãs dirão que nos venceram, argumentam políticos e militares.

Ela recebe o pedido do secretário de Estado dos Estados Unidos, para deixar suas tropas. Mas só deixar os soldados não é suficiente, pois sem armas e equipamentos eles correrão riscos ainda maiores (vários deles morreram durante a ofensiva, e outros depois).

Três fatos são determinantes para que ela tome sua decisão de manter as tropas: em primeiro lugar, a visita da representante de uma ONG afegã, que lhe conta como era a vida das mulheres antes da invasão. Em segundo, a carta que um dos soldados mortos deixa para o pai. Sob insistência da bela Katrine, que na primeira temporada era repórter de TV e agora trabalha para uma revista, o pai do jovem soldado acaba lendo a carta e a leva à primeira-ministra, na cerimônia em que ela recebe os pais dos soldados mortos. E afinal, ela ouve a opinião do comandante das forças no Afeganistão.

O seriado é tão bom que entusiasmou a Grã-Bretanha, terra da boa dramaturgia. Entre os muitos prêmios que recebeu, está o Bafta (British Academy Television Awards) de 2012, e outros na Itália e em Monte Carlo. Além disso, criou um público para a cinematografia nórdica, enriquecida por séries e filmes de alto nível.

* Esse comentário foi publicado parcialmente em 2012, por este site. Retorna atualizado, para mostrar a importância que a Netflix assume, ao entrar em áreas complexas, como documentários, influência e manipulação nas redes sociais, atividade de políticos, temas atuais e relevantes, como imigração, reviravoltas políticas e manipulação em todos os níveis. Exibe ainda o senso de relevância que seus programadores dão ao que circula no mudo digital e artístico, selecionando o que há de melhor.


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