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A grande presença de “As Viúvas” é a autora da história

Como num bom thriller, o segredo é revelado no final. O interessante filme “As Viúvas”, que tem como atrações a atriz Viola Davis e o premiado diretor Steve McQueen revela […]

17/12/18

Como num bom thriller, o segredo é revelado no final. O interessante filme “As Viúvas”, que tem como atrações a atriz Viola Davis e o premiado diretor Steve McQueen revela apenas nos créditos finais o nome da escritora que fez o roteiro da série, exibida em 1983 pela TV britânica, e que tanto impacto causou em McQueen, acompanhando-o por décadas, até que ele conseguisse transformá-la em um filme.

Não poderia mesmo dar errado. A autora é a britânica Lynda La Plante, também roteirista e ex-atriz, responsável pela série “Prime Suspect”, exibida pela HBO no Brasil,  com Helen Mirren como a inspetora Jane Tennison. A série, depois reapresentada por canais Telecine, foi um marco em obras desse tipo na TV brasileira. Mas o que abriu caminho a Lynda em seu país foi exatamente a série “Widows” (“Viúvas”), que tanto impacto causou em McQueen.

Ele contou em entrevista recente que tinha 13 anos e morava com os pais em Londres quando o programa apareceu na televisão e o deixou enfeitiçado. “De imediato eu me identifiquei com aquelas mulheres que eu via na tela”, ele lembrou novamente no mês passado, sentado ao lado de Viola Davis em um hotel no centro de Nova York, antes da estreia nos EUA. “Elas estavam sendo julgadas pela aparência e consideradas incapazes, da mesma forma a como eu fora julgado como uma criança negra que cresceu na Londres dos anos 1980”.

Passados 35 anos, ele conseguiu transpor para a grande tela o feito das mulheres que perderam seus maridos em um assalto mal conduzido em Chicago e ao descobrir os planos, resolvem tomar a iniciativa de completar a fracassada missão. No papel principal, a grande atriz Viola Davis, que como poucas domina palco, tela e telinha (ela foi premiada em 2014 com os principais prêmios dos EUA, o Emmy pela TV, o Oscar por seu papel ao lado de Denzel Washington em “Um Limite entre Nós”, “Fences”, que ela interpretou também no teatro e lhe rendeu um Tony em 2010.

Talento não falta ao restante do elenco, que inclui Liam Neeson, Colin Farrell, Robert Duvall, Michelle Rodriguez e outros do mesmo quilate.

A história vai se tornando interessante e prende a atenção, o que nem sempre é fácil em filmes de ação, pois em geral se recorre a perseguições – a pé ou em automóveis – para preencher lacuna de ideias. Cheio de reviravoltas, o roteiro vai se firmando.

Como explicou Viola Davis, na entrevista ao The New York Times: “qualquer um que tenha visto esse filme sabe que é muito mais do que um filme sobre assalto. Mas muitas vezes, por causa de Hollywood, o público espera entrar com sua pipoca, petiscos e refrigerante, e apenas escapar, relaxar e desligar. Eles querem uma história que venha embrulhada com um rótulo e um belo laço. Mas esse não é o nosso trabalho. Nosso trabalho é alimentar sua humanidade de uma forma que você não é alimentado em sua vida cotidiana”.

Davis escolheu o papel porque para ela, “o filme é uma jornada realista para as mulheres que conquistam a propriedade sobre suas vidas. E não à custa de quem elas são. A energia feminina e a vulnerabilidade ainda estão lá”. E entregues a atrizes e atores muito competentes, sob a direção de McQueen.

E a presença de Lynda La Plante não deixa de ser um presente. Conhecida por seus romances e novelas policiais, a grande notícia é que ela acaba de lançar um livro, “Good Friday” sobre a origem de Jane Tennison, a policial interpretada por Helen Mirren. Outra de suas séries que vieram de romances são sobre a principiante Anna Travis (interpretada por Kelly Reilly) que se transformaram na série “Above Suspection”. A TV brasileira apresentou também “Whitechapel” e “Blue Murder”, da mesma escritora, uma festa para quem gosta do gênero.

Pobres britânicos, tão atormentados pela escolha errada de sair da União Europeia, pelo menos podem bater no peito: são os melhores, de longe, em romances policiais, sem contar como é difícil entender que a pátria de onde veio Shakespeare, a revolução industrial, Darwin e tantos outros luminares, tenha caído na ilusória retórica de David Cameron e de Boris Johnson. Vai entender!


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