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“A Festa”, começa com Champagne e acaba em tango

Filmado duas semanas antes da votação do Brexit, “A Festa” (The Party, que também significa O Partido – e a semelhança não acaba aí) reúne numa bela residência em Londres […]

29/07/18

Filmado duas semanas antes da votação do Brexit, “A Festa” (The Party, que também significa O Partido – e a semelhança não acaba aí) reúne numa bela residência em Londres a mais fina flor da cinematografia britânica e uma das melhores histórias políticas – e humanas – que já passou pelas telas em muito tempo.

Kristin Scott Thomas é Janet, a dona da casa e com seu marido Bill (Timothy Spall) recebe os amigos para celebrar sua eleição ao cargo de ministra da Saúde do Shadow Cabinet britânico (O Gabinete Sombra, formado por importantes integrantes da oposição que atuam como críticos ao governo e pressionam o poder pelas suas decisões). Ela mal tem como se dividir entre os telefonemas de amigos que a cumprimentam (um desses telefonemas é bem misterioso, insinuando um “caso”) e os convidados que vão chegando, como o casal mais desigual da noite, a também política Patricia Clarckson e o pretenso guru Bruno Ganz, ou as amigas lésbicas que acabaram de fazer uma fertilização in vitro e agora esperam “não um, nem dois, mas três filhos”!), que são Emily Mortimer e Chrerry Jones e ainda Cillian Murphy, que interpreta o financista Tom, deslocado marido de uma outra convidada que só chegará mais tarde, Marianne (“para a sobremesa, ou o café ou os queijos”).

Pois tantos talentos juntos em um ambiente, um tema dos mais interessantes e uma boa diretora, Sally Potter, falando no idioma de Shakespeare não tem a menor chance de dar errado. O filme tem diálogos rápidos, inteligentes e com pontaria de laser. E a noite que prometia ser de celebração vai enveredando por caminhos lúgubres, a partir do episódio da queima dos canapés. As revelações são revelações mesmo – e não convém adiantá-las, pois isso estragaria o prazer de ser surpreendido pelas “novidades”.

O humor negro corre solto, associado a uma trilha sonora das mais interessantes. Bill, o marido da personagem promovida na política, por exemplo, fica ouvindo em seus vinis, “I am a man” e ainda comenta desanimado “Eu sou Bill, ou pelo menos eu costumava ser …”

As platitudes do “guru” Bruno Ganz chegam a ser irritantes, mas com o evoluir dos acontecimentos, elas acabam até fazendo um certo sentido, em todo aquele nonsense ao redor. O personagem de Cillian Murphy, o esnobado financista que espera a chegada da mulher, também dá, com o restante do elenco, uma aula de interpretação. Não há entre eles, nenhum com um fiozinho de cabelo de talento a menos que os outros. Scott Thomas, cujo último papel em nossas telas foi o de Clemmie, esposa de Winston Churchill ao lado do premiado Gary Oldman, e é aclamada tanto em importantes filmes franceses como britânicos.

Patricia Clarckson foi a personagem principal do recente “A Livraria” (2017, mesmo ano de “A Festa”). Bruno Ganz, inesquecível em “Asas do Desejo” (1987) é cultuado por diretores como Win Wenders, Atom Egoyan, Ridley Scott. E ainda há Emily Morton, que também está em “A Livraria” ou na série da HBO “The Newsroom”. E sua companheira no filme, participou e participa de várias séries de sucesso, entre elas “Black Mirror’.

Timothy Spall, que interpreta Bill – a caminho de tornar-se outro “Denis”, ou “Philip”, referência maldosa aos maridos de Margareth Thatcher e Theresa May, agora em versão mais light (o filho o convenceu a cuidar-se e ele emagreceu muito) foi visto em ”Segredos e Mentiras” (1996) e “Mr Turner” (2014), pelo qual recebeu o prêmio de interpretação em Cannes.

O filme é uma síntese vertiginosa, conduzido quase como uma peça de teatro, filmada preto-e-branco, uma visão quase nostálgica que traz um certo estranhamento apenas por alguns segundos, graças ao virtuosismo da câmera da diretora. Em entrevista ao Observer de Londres, Potter enfatizou que queria “trabalhar com o poder de cura do riso como, digamos, um atalho através dos elementos realmente trágicos”. “A Festa”, em resumo, “apresenta um pesadelo de classe média como farsa microcósmica, em um mundo indo para o inferno em uma carroça”, como definiu uma crítica inglesa.


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