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A bela Roma de Paolo Sorrentino

Claudia Bozzo Win Wenders diz que um filme não precisa necessariamente ser entendido, mas sim sentido. Pode ser que para alguns isso aconteça com “A Grande Beleza”, o novo filme […]

19/01/14

Claudia Bozzo

Win Wenders diz que um filme não precisa necessariamente ser entendido, mas sim sentido. Pode ser que para alguns isso aconteça com “A Grande Beleza”, o novo filme de Paolo Sorrentino, que traz imagens deslumbrantes de uma Roma de hoje, vista pelo olhar de um jornalista-escritor, Gep Gambardella.

O filme é uma viagem inebriante pela bela cidade, e pelos filmes que a incensaram. Até aí, é preciso tê-los visto para realmente desfrutar dessa viagem. Mas não é obrigatório. O grande Luca Bigazzi, diretor de fotografia, mais uma vez trabalha com Sorrentino (estiveram juntos em “Il Divo” e “Aqui é Meu Lugar”, com Sean Penn) e mostra porque é um dos mais importantes no seu campo de atuação no momento. Deixar-se levar pela magia das belezas de Roma é uma grande opção.

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Ainda mais que os subtítulos, em letras brancas, sempre deixam muitos espectadores na mão em trechos vitais. (Claro, pior que isso é ver um filme como “A Fita Branca”, do austríaco Michael Haneke, com suas paisagens cobertas pela neve e o inacreditável letreiro em branco!) Isso vale também para filmes turcos. Vários diálogos – muitos deles importantes – que deixam de ser entendidos por essa falha primária.

O filme remete obrigatoriamente a “Roma” de Federico Fellini de 1972. Mas não só. Impossível deixar de ver a presença de uma boa parte da história do grande cinema italiano circundando cenários, personagens diálogos. Lá estão “A Noite” e outras histórias de Michelangelo Antonioni, Lá está “O Terraço” de Etore Scola, “8 ½”, “A Doce Vida”, “Violência e Paixão” e outros do mestre Luchino Visconti, e incontáveis obras de uma época que jamais deixará de constar de qualquer cinemateca que respeite seu nome.

“A Grande Beleza” tem como protagonista Roma, na qual vive como uma “celebridade” no papel de Gambardella, o excelente ator Toni Servillo, o mesmo que fez o ex- primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti em “Il Divo”, do mesmo Sorrentino, que provavelmente só existe em vídeo clubes ou na internet.

Aos 65 anos, Gambardella, com todo o cinismo e tédio cultivado como jornalista, depois de ter escrito, quarenta anos antes, um único romance, ainda reverenciado, é abalado pela notícia da morte de uma pessoa que lhe era muito próxima, fato que o leva a repensar (mas sem exageros…) a própria vida.

Ele circula em vários meios, durante o esplendor daquele verão no qual o filme foi rodado, desfrutando da vida mundana com ácida lucidez. No terraço de seu apartamento – em frente às ruínas do Coliseu – recebe para festas regadas a bebida e pessoas fúteis travestidas de intelectuais. E é esse o local que remete a Ettore Scola e seu inesquecível filme de 1980 “O Terraço”, no qual se reúnem intelectuais e burgueses, imersos em suas amarguras e desilusões. O elenco é um “dream team”: Marcello Mastroianni, Vittorio Gassman, Serge Reggiani, Stefania Sandrelli, Ugo Tognazzi, Jean-Louis Trintignant, Carla Gravina. Mais parece uma reunião sobre a história do grande cinema italiano. Um filme que precisa ser revisto.

“A Grande Beleza” é, independente de tantas citações – voluntárias ou não, isso é indiferente – um belíssimo filme, já premiado e agora indicado ao Oscar de filme estrangeiro. Polêmicas dividem críticos quanto ao seu valor. O antes temido “Cahiers Du Cinéma” deu-lhe uma única estrela, e critica a megalomania de Sorrentino. Mas Peter Bradshaw, o crítico do britânico “The Guardian” considera-o extraordinário, uma obra que deve ser incluída entre as maiores do cinema. É o melhor de Sorrentino, com uma overdose de “estranhamento e tristeza”.

O trio formado no céu dos amantes de cinema, Sorrentino, Servillo e Bigazzi trazem a emoção estética de volta à Terra. Em entrevista, falando sobre suas fontes de inspiração, Sorrentino menciona “A Doce Vida”, mas acrescenta: “É uma obra-prima e como todas as obras-primas, de certa forma, altera nossa forma de sentir, nossa percepção das coisas. É um filme que trago dentro de mim há muito tempo. Mas ‘A Doce Vida’ é uma obra-prima. ‘A Grande Beleza’ é apenas um filme.” Ele menciona ainda outras influências como Manoel de Oliveira e Buñuel, principalmente ao retratar as figuras religiosas.

Esse filme tem momentos de pura magia, como o teto transformado em mar, o elefante que desaparece, trazendo o místico para o dia a dia. E a presença do cardeal e da freira são muito “italianos”, para se definir melhor. Assim como a elegância requintada do personagem interpretado por Toni Servillo, que cai com uma luva em sua atitude blasé. É um filme com muitas referências – a presença de Fanny Ardant, por exemplo, lembra muito a de Anna Magnani em “Roma” de Fellini. Ao jantar em um restaurante, Gambardella encontra o cantor e compositor Antonello Venditti – que esteve em São Paulo há uns quatro meses. Não é uma presença gratuita. Ele é o autor do hino do time do Roma, figura icônica na cidade. De detalhe em detalhe, ficamos com fragmentos de Roma na memória. Como ficamos com fragmentos inesquecíveis dos grandes filmes italianos. A polêmica existe. Sorrentino pode ou não ter feito uma grande obra. O que é certo que a beleza do filme é indiscutível. Cinema de primeira.


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