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A BBC e o apresentador de “Top Gear”: queda de braço quanto aos limites na mídia, entre irreverência e grosseria

Claudia Bozzo A nem sempre tênue linha que separa a irreverência da pura grosseria está em julgamento no Reino Unido. O apresentador de um dos programas mais vistos em todo […]

22/03/15

Claudia Bozzo
A nem sempre tênue linha que separa a irreverência da pura grosseria está em julgamento no Reino Unido. O apresentador de um dos programas mais vistos em todo o mundo, Jeremy Clarkson, de “Top Gear” (que a Net apresenta no Brasil aos sábados, pela BBCHD) acaba de ser suspenso pela rede britânica e isso custou à emissora quatro milhões de espectadores, na recente temporada do programa, a mesma que a Net apresenta. Clarkson agrediu a socos o produtor Oisin Tymon e a razão foi a falta de uma refeição quente, durante uma filmagem em Yorkshire.
Personagem polêmico, avesso ao freio verbal, não é a primeira enrascada na qual Clarkson – descrito como um moleque de 14 anos, preso no corpo de um senhor de 54 – se mete. Mas dessa vez a emissora resolveu passar da advertência verbal à ação, suspendendo-o. E pelo que se infere do noticiário, é o próprio emprego de Clarkson que está em jogo. O que não é pouco. Verdade que ele conduz o programa de maior audiência da emissora, visto em mais de 100 países, e que rendeu a ele em 2014 um faturamento estimado em 14 milhões de libras.
Mas a BBC parece ter-se cansado dos problemas e polêmicas que ele cria. Assim como parte do público. São famosas as reclamações por comentários preconceituosos de Clarkson – e outro integrante da equipe. Recentemente (dezembro de 2014) o grupo foi obrigado a sair da Argentina sob ameaças, por dirigir um Porsche com a placa H982 FKL, uma clara referência à guerra das Malvinas (que para os britânicos são as Falklands, ocorrida em 1982). Em uma entrevista a um jornal britânico, Clarkson disse que a placa foi uma “coincidência”. Só isso. E disse que pela primeira vez, temeu por sua vida e segurança.
Mas eles viajaram por Ushuaia com aquele carro e quem conhece a História, sabe que foi de lá que o navio General Belgrano partiu para sua viagem final. Foi atingido por torpedos disparados do submarino nuclear HMS Conqueror, e perdeu 323 de seus tripulantes, na maior parte, jovens, por ordem direta da primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. Da qual o apresentador Jeremy Clarkon era grande simpatizante, tanto que estava entre os apenas 2 mil britânicos convidados para o funeral da Dama de Ferro, em 2013.
Em um show beneficente realizado em Londres há dias, ele se queixou da emissora: “É um grande programa”. E acrescentou; “they fucked it up”, referindo-se à BBC. Depois disse que foi só uma brincadeira, ao saber que o comentário fora filmado e divulgado pela internet. Já admite a possibilidade de ser demitido, e deu entrevista ao “Sunday Mirror”, dizendo que não sai sem lutar e processará a emissora. Daqui a poucos dias, a BBC divulgará o resultado de uma auditoria independente, criada para avaliar o incidente com o produtor agredido.
Clarkson, dono de um ego bem mais elevado que seus 1m98, tem conseguido desagradar a muitos com sua incontinência verbal, não só mexicanos ou argentinos ou estrangeiros em geral. Chegou a afirmar que os táxis de Londres têm um cheiro muito estranho e referiu-se a taxistas chamando-os de ‘pikey’, palavra que remete a uma condição extremamente pejorativa, que engloba vagabundo, mulambento, sem teto, cigano e como recomenda um dicionário: ‘a palavra deve ser evitada’.
Recebeu críticas abertas de um dos atores da própria BBC, o cômico e roteirista Steve Coogan, que atuou com Judi Dench no delicado e sensível “Philomena”, indicado a quatro Oscars em 2013. Para Coogan, os comentários desairosos a mexicanos foram rudes demais. Ele se declarou um dos grandes fãs de “Top Gear” em entrevista ao jornal “The Guardian”, mas argumenta que pela audiência que o programa tem, acaba influindo na imagem da própria emissora. “Seria até divertido, se nós não fossemos encarados como modelos de comportamento”, diz Coogan.
Seja qual for o resultado da auditoria interna da BBC, o destino de uma fase, a do “politicamente correto” está em jogo. E o grande risco é que essa proposta venha a ser adotada por gente exageradamente mais correta, o que pode tornar tudo bem mais chato. Ou mais educado. É uma boa hora para se avaliar a importância da correção política. Seus extremos, limites e repressão dissimulada.
Ou ainda, sua grande utilidade no tratamento de um ser humano em relação ao outro. Na aceitação das diferenças entre pessoas e cidadãos de diferentes culturas, credos e convicções. São tantas as suas vantagens, que é difícil apoiar 100% uma figura como Jeremy Clarkson, por mais engraçado e irreverente que ele seja. Provavelmente – e tomara – estejamos na véspera de um novo avanço.


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