X

“7 Caixas”, um genuíno paraguaio

Claudia Bozzo Imenso sucesso de público em seu próprio país, com mais espectadores que “Titanic”, o filme paraguaio “7 Caixas” é uma bem sucedida mistura de histórias de marginalidade social, […]

18/05/14

Claudia Bozzo

Imenso sucesso de público em seu próprio país, com mais espectadores que “Titanic”, o filme paraguaio “7 Caixas” é uma bem sucedida mistura de histórias de marginalidade social, ambição, corrupção, e esperança, temperada com muita ação, humor e ritmo.

Tudo isso se passa em um universo bem latino-americano: nos quarteirões que abrigam o popular  Mercado Municipal nº 4 de Assunção, onde trabalham cerca de 2.000 pessoas.

A vida dessas pessoas vai se entrelaçar, em um roteiro bem construído, onde o fio narrativo se mantém, apesar da grande quantidade de personagens, como uma linha retesada, gerando suspense e, aqui e ali, risadas.

Captura de Tela 2014-05-18 às 08.42.06

Tudo começa com Victor (Celso Franco), um rapaz de 17 anos, que transporta mercadorias com sua carreta. Dispersivo, esquece-se da vida ao topar com uma tela de TV e mergulha nas cenas que assiste. Até que alguém o filma com um celular (o filme se passa em 2005 e os equipamentos ainda são rudimentares e extremamente caros). Ele se entusiasma com a possibilidade de ser um personagem e o dinheiro do qual necessita para comprar o celular e o sonho une-se a todos os problemas de todos os personagens.

Víctor aceita a suspeita tarefa de levar para o mais longe possível sete caixas que lhe são entregues por um dos comerciantes, ao mesmo tempo em que vemos seu estabelecimento sendo vistoriado pela polícia. Todas as pessoas estão ligadas umas às outras, seja por muitos ou poucos graus de separação e o novelo vai se desenrolando com belo domínio da técnica cênica pelos diretores, Juan Carlos Maneglia and Tana Schémbori.

Com uma ágil câmara, os diretores acompanham Víctor nas suas escapadas pelos corredores do imenso mercado, em travellings num ritmo que lembra Danny Boyle (“Quem Quer ser um Milionário”, “Trainspotting – Sem Limites”) e o Guy Ritche dos bons tempos (“Jogos, trapaças e Dois Canos Fumegantes”). Ou mesmo o nosso “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles.

Falado em guarani, o filme traz o universo dos desfavorecidos e a dificuldade enfrentada por pessoas que não podem comprar o remédio para o filho doente, ou o celular de seus sonhos, como Victor, e se submetem aos mais poderosos, no caso, mafiosos, traficantes, comerciantes inescrupulosos e policiais corruptos. A luta pela sobrevivência é feroz naquelas paragens, e o filme tem ainda um toque de “Feios, Sujos e Malvados”, de Ettore Scola. Mas não se trata de cópia ou plágio. É o universo por onde circula o lúmpem que emerge da tela, nessas obras.

“7 Caixas” é original, é bem a cara da parte menos privilegiada da América Latina. Mas sem autopiedade. O que conta, no caso, é a história, e ela entretém mesmo. Revelar detalhes do roteiro seria estragar o prazer de quem vai ver o filme, que abrange um período de 48 horas na vida daquelas pessoas. Há a irmã de Víctor, que trabalha no restaurante de um coreano, onde também trabalha sua amiga, que está grávida de um gangster, que… e daí para a frente.


Todos os direitos reservados, 2019.